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Missões

Reduções Jesuíticas do Paraguai (Missões Guarani)

Aldeamentos missionários organizados por jesuítas junto aos povos guarani na América do Sul colonial, combinando evangelização, proteção contra a escravização e organização social própria.

Reduções Jesuíticas do Paraguai (Missões Guarani)
Foto: Miguel Vieira (2011) — Wikimedia Commons, CC BY 2.0
Tipo
Território de missão
Região
Bacia do Prata (atuais Paraguai, Argentina e Brasil)
Século
séculos XVII-XVIII

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A partir do início do século XVII, por iniciativa de um grupo de jesuítas liderado pelo provincial Diego de Torres Bollo, a Companhia de Jesus começou a organizar, nas bacias dos rios Paraná, Paraguai e Uruguai, aldeamentos missionários chamados "reduções" — do latim reductio ad unum, "reunir em um só lugar" populações guarani que viviam dispersas em pequenos grupos pela floresta, trazendo-as a assentamentos fixos onde pudessem receber instrução religiosa, formação artística e ofícios, e viver sob leis próprias e trabalho livre, em contraste com o regime de encomienda e a escravização praticados pelos colonizadores ao redor. No auge do sistema, entre 1730 e 1750, chegaram a existir os chamados "Trinta Povos" das Missões, reunindo uma população estimada em cerca de 145 mil indígenas guarani.

Cada redução era organizada em torno de uma grande praça central, com a igreja — normalmente a construção mais monumental do povoado — de um lado, e do outro o cemitério, a residência dos padres, oficinas, armazéns comuns, escola e, ao redor, as casas das famílias guarani dispostas em quarteirões regulares; hortas, roças comunitárias e de subsistência familiar (chamadas abambaé e tupambaé) garantiam tanto o sustento das famílias quanto o excedente comercializado pela redução como um todo, sobretudo erva-mate, algodão e gado. O governo cotidiano de cada povoado cabia a um cabildo (câmara municipal) de moldes espanhóis, mas integrado e presidido por lideranças indígenas — caciques e outros guarani eleitos —, com os padres jesuítas, normalmente apenas dois ou três por redução, atuando como orientadores espirituais e administrativos, nunca como autoridade política direta.

O jesuíta espanhol Antonio Ruiz de Montoya, uma das figuras centrais da história das reduções, atuou entre 1612 e 1631 sobretudo na região do Guairá (atual território paranaense e paraguaio), liderando inclusive, em 1631, uma dramática migração fluvial de milhares de guarani rio abaixo para escapar de ataques de bandeirantes paulistas caçadores de escravos; deixou registro dessa experiência na crônica Conquista Espiritual (1639), fonte primária essencial para a história do período, além de ter compilado um dos primeiros dicionários e gramáticas da língua guarani.

As reduções também se tornaram um polo de produção artística e musical de grande originalidade, hoje chamada de "barroco missioneiro" ou "barroco guarani": sob orientação de padres com formação em música, pintura, escultura e arquitetura europeias, artesãos guarani desenvolveram oficinas de talha, pintura sacra, fundição de sinos e, sobretudo, uma tradição musical vocal e instrumental (com orquestras e coros regulares em cada povoado) que fundia técnicas europeias a sensibilidades e materiais indígenas — um patrimônio de partituras e instrumentos que sobrevive parcialmente até hoje e tem sido objeto de recuperação musicológica nas últimas décadas.

O sistema, no entanto, dependia também da proteção militar organizada pelos próprios guarani das reduções, autorizados pela coroa espanhola a se armar e treinar contra os ataques constantes de bandeirantes portugueses vindos de São Paulo em busca de mão de obra escrava — o que tornou as reduções, paradoxalmente, uma das forças militares mais organizadas da região platina no século XVII. Esse equilíbrio se rompeu com o Tratado de Madri de 1750, pelo qual Espanha e Portugal trocaram territórios: sete reduções orientais (os "Sete Povos das Missões") deveriam ser entregues à coroa portuguesa em troca da Colônia do Sacramento, o que levou à resistência armada guarani conhecida como Guerra Guaranítica (1753-1756), na qual tropas luso-espanholas esmagaram militarmente as populações indígenas, matando mais de 1.500 pessoas na batalha decisiva de Caiboaté, em 1756.

O colapso definitivo do sistema veio com a expulsão dos jesuítas dos domínios de Portugal, em 1759, e da Espanha, em 1767, por decisão dos respectivos monarcas absolutistas, que viam nas reduções um poder paralelo excessivo; sem os jesuítas, as reduções foram progressivamente abandonadas, saqueadas e absorvidas por outras formas de colonização, e sua população indígena se dispersou ou foi assimilada. Hoje as ruínas de diversas dessas reduções — como São Miguel das Missões, no Brasil, San Ignacio Miní, na Argentina, e Trinidad e Jesús de Tavarangue, no Paraguai — são reconhecidas como Patrimônio Mundial da UNESCO e permanecem estudadas como um dos experimentos mais originais, e ainda debatidos, de organização social e evangelização na história colonial americana.

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Fontes

  • Portal Jesuítas Brasil: Reduções Jesuítico-Guarani — uma alternativa ao sistema de dominação colonial
  • Vatican News: Redescoberta e valorização da memória jesuítico-guarani
  • Wikipédia: Guerra Guaranítica
  • Wikipedia (en): Antonio Ruiz de Montoya

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