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Missões

O "Século Cristão" do Japão

Período de rápida expansão e depois violenta perseguição do cristianismo no Japão, entre a chegada de São Francisco Xavier em 1549 e o isolamento quase total do país no século XVII.

Tipo
Território de missão
Região
Japão
Século
séculos XVI-XVII

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Termo cunhado pelo historiador britânico Charles Boxer em seu livro clássico The Christian Century in Japan (1951), o "Século Cristão" designa o período de aproximadamente cem anos que vai da chegada de Francisco Xavier ao Japão, em agosto de 1549, até a virtual erradicação do cristianismo visível no arquipélago em meados do século XVII. Os japoneses chamavam os missionários e seus convertidos de kirishitan, transliteração local da palavra portuguesa "cristão", e o próprio cristianismo de kirishitan-shū ("seita cristã") — termo que a historiografia japonesa ainda usa hoje para designar todo esse capítulo da história religiosa do país.

Após Xavier deixar o Japão em 1551, jesuítas como Cosme de Torres e, mais tarde, o influente Alessandro Valignano deram continuidade à missão, adotando cada vez mais o método de adaptação cultural iniciado por Xavier: aprendizado profundo da língua e etiqueta japonesas, uso de vestes similares às dos monges budistas e, depois, dos letrados, e aproximação cuidadosa dos senhores feudais (daimyos) locais, vários dos quais se converteram e favoreceram a evangelização em seus domínios — o caso mais notável foi Ōmura Sumitada, primeiro daimyo cristão, que em 1580 cedeu aos jesuítas o pequeno porto de pesca de Nagasaki, cidade que se tornaria o principal centro cristão e comercial do Japão. Franciscanos, dominicanos e agostinianos espanhóis, vindos das Filipinas, juntaram-se à missão a partir da década de 1590, ampliando o alcance evangelizador mas também gerando rivalidades entre ordens que pesariam na política japonesa em relação ao cristianismo.

O crescimento foi notável: a comunidade cristã japonesa chegou a ultrapassar, segundo estimativas de época, entre 300 mil e 500 mil fiéis por volta de 1600, cifra expressiva para uma população total do arquipélago então de cerca de vinte milhões, concentrada sobretudo na ilha de Kyushu; uma diocese própria, com sede em Funai (Bungo), foi erigida em 1588, e chegou a haver um seminário e um colégio jesuíta formando clero local. Em 1582 quatro jovens nobres cristãos japoneses foram enviados por Valignano numa embaixada à Europa — a chamada "Missão Tensho", que visitou Lisboa, Madri e Roma, sendo recebida pelo papa Gregório XIII — episódio simbólico do quanto a missão japonesa parecia, então, promissora e duradoura.

A reviravolta começou em 1587, quando o regedor unificador Toyotomi Hideyoshi, temendo que a lealdade dos daimyos cristãos e a presença de potências ibéricas pudessem ameaçar sua autoridade recém-consolidada, emitiu um édito de expulsão dos padres (bateren tsuihō-rei), embora sem aplicá-lo de forma sistemática de imediato. A perseguição tornou-se sangrenta em 1597, quando Hideyoshi ordenou a crucificação de 26 cristãos — franciscanos, jesuítas e leigos japoneses — na colina de Nishizaka, em Nagasaki, episódio que se tornaria o mais conhecido símbolo do martírio cristão japonês. Após a morte de Hideyoshi (1598) e a ascensão de Tokugawa Ieyasu como novo xogum, a tolerância inicial deu lugar, a partir de 1612-1614, a uma proibição total: o édito de 1614 baniu o cristianismo de todo o território, expulsou formalmente todas as ordens religiosas e ordenou a destruição de igrejas, embora vários missionários e catequistas tenham permanecido clandestinamente por anos.

A repressão se intensificou nas décadas seguintes sob os sucessores de Ieyasu, incluindo o uso sistemático do fumie (pisar em imagens sagradas para provar apostasia) como teste de lealdade, culminando na violenta rebelião de Shimabara (1637-1638), levante camponês de forte componente cristão duramente esmagado pelo xogunato, que matou dezenas de milhares de pessoas e selou o fim de qualquer tolerância. Em seguida, o Japão adotou a política de isolamento quase total conhecida como sakoku (1639-1853), fechando o país a praticamente todo contato ocidental — exceto um posto comercial holandês restrito na ilha artificial de Dejima, em Nagasaki — e tornando a prática do cristianismo crime capital por mais de dois séculos.

Sem clero, sem contato institucional com Roma e sob risco constante de descoberta e execução, comunidades inteiras de cristãos passaram a viver na clandestinidade completa, adaptando orações, sacramentos e liderança leiga a um formato transmissível secretamente de geração em geração — os chamados kakure kirishitan ("cristãos ocultos"). Essas comunidades só vieram à luz publicamente após a reabertura do Japão ao Ocidente em meados do século XIX, quando, em 1865, um grupo de camponeses de Urakami, perto de Nagasaki, revelou sua fé a um padre francês recém-chegado na então nova Igreja de Ōura — episódio conhecido como a "descoberta dos cristãos" (Kirishitan Hakken), que surpreendeu o mundo católico ao mostrar que a fé havia sobrevivido, sem sacerdotes, por mais de dois séculos de perseguição sistemática.

Fontes

(4)
  • Wikipédia: Kirishitan (História da Igreja Católica no Japão)
  • e-cristianismo: A perseguição japonesa ao catolicismo e os kakure kirishitan
  • IHU Unisinos: A verdadeira história dos cristãos do Japão
  • Diálogos Mediterrânicos: O martírio e a resistência cristã no Japão (1614-1686)

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