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História da Igreja

A evangelização da América Latina

A chegada do cristianismo ao continente americano a partir do fim do século XV, entre a ação missionária e as tensões da colonização.

A evangelização da América Latina
Período
Época moderna (séculos XVI a XVIII)

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A evangelização da América Latina começou com a chegada dos navegadores e colonizadores espanhóis e portugueses ao continente a partir de 1492, sob o regime do padroado régio, pelo qual o papado delegava às coroas ibéricas amplos poderes sobre a organização eclesiástica de seus territórios ultramarinos em troca do compromisso de sustentar e promover a missão. Já nas primeiras expedições seguiam religiosos: franciscanos e dominicanos chegaram entre os primeiros colonizadores no Caribe e no México, seguidos por agostinianos e mercedários, e a partir de meados do século XVI pela Companhia de Jesus, fundada em 1540 e rapidamente lançada à ação missionária em praticamente todo o continente.

Essas ordens organizaram um extenso sistema de doutrinas, conventos, colégios e reduções para catequizar os povos indígenas — muitas vezes aprendendo e sistematizando suas línguas em gramáticas e catecismos bilíngues, um trabalho linguístico e etnográfico de grande valor histórico. O exemplo mais conhecido desse modelo missionário são as reduções jesuítico-guaranis, iniciadas em 1610 na região que hoje corresponde à fronteira entre Brasil, Argentina e Paraguai — a Redução de São Nicolau, fundada em 1626 pelo padre Roque González de Santa Cruz às margens do rio Uruguai, foi uma das primeiras no atual território gaúcho. Nessas comunidades, dezenas de milhares de guaranis viviam sob organização social, produtiva e religiosa própria, relativamente protegida da escravização direta por colonos e bandeirantes, num modelo que a historiografia atual discute tanto como experiência de proteção quanto como forma de tutela cultural.

O período foi marcado por tensões profundas entre a missão evangelizadora e a lógica da conquista e da colonização. Ao lado de missionários que denunciaram publicamente os abusos cometidos contra os povos indígenas — o caso mais conhecido é o do dominicano Bartolomé de Las Casas (1484-1566), que após anos como colono na ilha de Hispaniola se tornou frade e dedicou o resto da vida a defender os direitos dos indígenas perante a Coroa espanhola, documentando maus-tratos e mortandades em obras como a «Brevíssima Relação da Destruição das Índias» (1552) —, houve também violência sistemática, imposição cultural forçada, destruição de códices e tradições religiosas nativas, e cumplicidade de parte considerável do clero colonial com o sistema de encomiendas e, mais tarde, com a escravidão de africanos trazidos ao continente. A avaliação histórica desse período permanece objeto de debate acadêmico e eclesial, reconhecida inclusive por papas recentes: João Paulo II pediu perdão pelos pecados cometidos na evangelização das Américas, e o próprio papa Francisco, durante viagem à Bolívia em 2015, pediu humildemente perdão pelos «graves pecados» cometidos contra os povos indígenas durante a chamada conquista da América.

A ação missionária não se limitou à América espanhola: no Brasil português, jesuítas como Manuel da Nóbrega e José de Anchieta chegaram já em 1549 com o primeiro governador-geral, Tomé de Sousa, fundando os primeiros colégios e aldeamentos indígenas na Bahia e depois em São Paulo, e desenvolvendo, como na América espanhola, uma extensa produção de gramáticas e catecismos em línguas indígenas, sobretudo o tupi.

Dessa evangelização, marcada por tantas contradições, nasceram também devoções populares que se tornariam centrais na identidade católica latino-americana e sobreviveriam a todas as mudanças políticas posteriores. A mais antiga e influente é Nossa Senhora de Guadalupe, cuja aparição ao indígena Juan Diego, no monte Tepeyac, próximo à Cidade do México, é tradicionalmente datada de dezembro de 1531 — um culto que combinou elementos da devoção mariana europeia com uma iconografia e uma narrativa profundamente enraizadas na experiência indígena, tornando-se padroeira de todo o continente americano. No Brasil, a devoção a Nossa Senhora Aparecida nasceu do achado de uma imagem de terracota por pescadores no rio Paraíba do Sul, em 1717, e cresceria ao longo dos séculos seguintes até tornar-se, já no século XX, padroeira nacional do país.

Os séculos de evangelização produziram, ao final, o resultado demográfico mais visível desse processo: a América Latina concentra hoje a maior população católica do mundo, ainda que enfrente, desde as últimas décadas do século XX, um crescimento acelerado de igrejas evangélicas pentecostais e de descrentes, que vem reconfigurando de modo significativo o mapa religioso do continente.

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Fontes

  • Bartolomé de Las Casas, «Brevíssima Relação da Destruição das Índias» (1552)
  • Concílio Vaticano II, Decreto «Ad Gentes», sobre a atividade missionária (1965)
  • Portal Jesuítas Brasil, "Reduções Jesuítico-Guarani"
  • Papa Francisco, discurso ao II Encontro Mundial dos Movimentos Populares, Santa Cruz de la Sierra, Bolívia (9 de julho de 2015)

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