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História da Igreja

O Grande Cisma do Oriente (1054)

Ruptura de comunhão entre a Igreja de Roma e as Igrejas do Oriente bizantino, com raízes em diferenças teológicas, litúrgicas e de jurisdição.

O Grande Cisma do Oriente (1054)
Mapa: Barrikader — Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0
Período
Idade Média (1054)

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Em julho de 1054, o cardeal Humberto de Silva Cândida, chefe de uma legação enviada a Constantinopla pelo papa Leão IX (que morrera pouco antes, ainda no curso da missão), depositou sobre o altar da Basílica de Santa Sofia uma bula de excomunhão contra o patriarca Miguel Cerulário. Dias depois, um sínodo reunido pelo próprio Cerulário respondeu excomungando os legados romanos. Esse episódio pontual — tecnicamente restrito a algumas pessoas, não às duas Igrejas inteiras — ficou simbolicamente associado ao início do chamado Cisma do Oriente: a ruptura de plena comunhão entre a Igreja latina, centrada em Roma, e as Igrejas bizantinas de língua grega, que vieram a formar o que hoje se conhece como Ortodoxia.

As causas da ruptura eram anteriores e bem mais profundas do que o episódio de 1054, que funcionou antes como estopim do que como origem real do cisma. Desde o século IX já havia tensões sérias entre Roma e Constantinopla, como o chamado Cisma de Fócio (867-870/879-880), motivado por disputas sobre a jurisdição eclesiástica nos Bálcãs e sobre a legitimidade de sucessivos patriarcas. Entre as causas de fundo, destaca-se a controvérsia sobre o «Filioque»: o Credo niceno-constantinopolitano original afirmava que o Espírito Santo «procede do Pai», e a Igreja latina, ao longo dos séculos VI a XI, passou a acrescentar unilateralmente a fórmula «e do Filho» (Filioque) — uma explicitação teológica que, para o Oriente, violava tanto a integridade literal de um credo fixado por concílio ecumênico quanto o princípio de que mudanças na fé comum exigiriam consenso conciliar, não decisão unilateral de uma sé.

A questões teológicas se somavam diferenças litúrgicas e disciplinares que, embora hoje pareçam secundárias, tinham grande peso simbólico na época: o uso de pão ázimo (sem fermento) na Eucaristia latina, contra o pão fermentado da tradição bizantina; o celibato obrigatório do clero latino, distinto da praxe oriental que permite o matrimônio de padres (mas não de bispos); diferenças no jejum, no calendário litúrgico e em pontos de disciplina canônica. Por trás de tudo isso estava a questão de fundo, e a mais irredutível: a autoridade e o primado do bispo de Roma. Enquanto Roma sustentava um primado de jurisdição universal, fundado na sucessão de Pedro, Constantinopla reconhecia ao papa apenas um primado de honra entre iguais — «primus inter pares» — sem poder de intervenção direta sobre as demais sés patriarcais do Oriente.

O contexto político e cultural também contribuiu decisivamente para o afastamento: a progressiva divisão do antigo Império Romano em uma metade ocidental latina, cristianizada sob influência de Roma e depois dos reinos germânicos e do Sacro Império, e uma metade oriental grega, centrada em Constantinopla, que se via como continuadora direta do Império Romano. A coroação de Carlos Magno como imperador do Ocidente pelo papa Leão III, em 800, já havia sido recebida em Constantinopla como uma usurpação, aprofundando a desconfiança mútua entre as duas cristandades que se afastavam cultural e linguisticamente havia séculos.

Após 1054, a ruptura não foi imediatamente sentida em toda a sua extensão pelos fiéis comuns, e por décadas as relações entre Roma e Constantinopla continuaram a existir, ainda que tensas. O episódio que tornou o cisma irreversível na percepção popular foi bem posterior: o saque cristão de Constantinopla pelos cruzados da Quarta Cruzada, em 1204, quando exércitos ocidentais, desviados de seu destino original na Terra Santa, saquearam a capital bizantina, profanaram igrejas e instalaram um Império Latino do Oriente por décadas — um trauma que a memória ortodoxa preserva até hoje como símbolo maior da hostilidade latina.

As excomunhões mútuas de 1054 permaneceram formalmente em vigor por mais de novecentos anos, até serem solenemente levantadas em 7 de dezembro de 1965, na véspera do encerramento do Concílio Vaticano II, num gesto simultâneo do papa Paulo VI, em Roma, e do patriarca ecumênico Atenágoras I, em Constantinopla, por meio de uma Declaração Comum assinada pelos dois. O gesto, fruto do encontro histórico entre os dois líderes em Jerusalém, em 1964, não restabeleceu a plena comunhão eclesial entre a Igreja Católica e as Igrejas Ortodoxas — que continuam a divergir sobre o primado papal e outras questões —, mas abriu um diálogo teológico e um relacionamento fraterno que se mantém até os pontificados seguintes, incluindo encontros entre os papas Francisco e Bento XVI e os patriarcas ecumênicos Bartolomeu I.

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Fontes

  • Paulo VI e Atenágoras I, Declaração Comum (7 de dezembro de 1965)
  • Denzinger-Hünermann, contexto do século XI
  • Infopédia, "Grande Cisma (1054)"
  • Arete — Centro de Estudos Helênicos, "O Cisma entre a Igreja do Oriente e Ocidente"

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