História da Igreja
O Cisma Anglicano
Ruptura entre a Igreja da Inglaterra e Roma no século XVI, desencadeada pela recusa papal em anular o casamento de Henrique VIII.

- Período
- Época moderna (1534)
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A crise que rompeu a Igreja da Inglaterra com Roma nasceu de uma questão dinástica: casado desde 1509 com Catarina de Aragão, viúva de seu irmão mais velho e tia do poderoso imperador Carlos V, o rei Henrique VIII via com angústia crescente que o casamento não lhe dava um herdeiro homem sobrevivente — apenas uma filha, Maria. A partir de 1527, convencido de que o casamento era invalidado por um impedimento bíblico (Levítico 20,21), Henrique pediu ao papa Clemente VII a anulação da união, pedido que se arrastou por anos sem resposta definitiva, em parte porque o papa, àquela altura, estava sob forte pressão política e até militar do imperador Carlos V, sobrinho de Catarina, cujas tropas haviam saqueado Roma em 1527.
Cansado da demora e já envolvido com Ana Bolena, dama de sua corte, Henrique optou pela ruptura unilateral. Em 1533, o novo arcebispo de Cantuária, Thomas Cranmer, declarou nulo o casamento com Catarina, permitindo que o rei se casasse secretamente com Ana Bolena. Em resposta, o papa excomungou Henrique. O rompimento institucional veio em novembro de 1534, quando o Parlamento inglês aprovou o «Ato de Supremacia», reconhecendo Henrique VIII e seus sucessores como «único chefe supremo na terra da Igreja da Inglaterra», com autoridade sobre doutrina, nomeações eclesiásticas e disciplina — um golpe que na prática nacionalizou a Igreja inglesa e subordinou o clero à Coroa, mais do que uma ruptura doutrinal imediata, já que Henrique, até sua morte, manteve boa parte da teologia e da liturgia católicas, perseguindo tanto católicos fiéis a Roma quanto protestantes considerados radicais.
A resistência à ruptura custou a vida a figuras de grande relevo: o ex-chanceler Tomás More, autor de «Utopia», e o bispo João Fisher, de Rochester, recusaram-se a jurar aceitação do Ato de Supremacia e foram decapitados em 1535, condenados por traição; ambos seriam canonizados pela Igreja Católica em 1935. A dissolução dos mosteiros ingleses, entre 1536 e 1541, confiscou vastas propriedades eclesiásticas em favor da Coroa e da nobreza, consolidando financeiramente a ruptura e tornando praticamente irreversível qualquer retorno rápido a Roma.
Após a morte de Henrique VIII, em 1547, o reinado de seu filho ainda menor, Eduardo VI, sob regentes de forte inclinação protestante, radicalizou a reforma religiosa inglesa, introduzindo o «Livro de Oração Comum» de Cranmer e uma teologia cada vez mais próxima do protestantismo continental. A morte prematura de Eduardo, em 1553, trouxe ao trono Maria I, filha católica de Catarina de Aragão, que restaurou por decreto a comunhão com Roma e perseguiu duramente os protestantes — mais de trezentos foram queimados como hereges durante seu reinado, o que lhe valeu o apelido histórico de «Maria, a Sanguinária» (Bloody Mary). Esse retorno católico, porém, foi breve: com a morte de Maria em 1558 e a ascensão de sua meia-irmã Isabel I, filha de Ana Bolena, o Parlamento restabeleceu o Ato de Supremacia em 1559, consolidando de forma definitiva a separação da Igreja da Inglaterra em relação a Roma.
Daí em diante, a Igreja da Inglaterra desenvolveu uma identidade própria, o anglicanismo, que buscou um caminho intermediário («via media») entre o catolicismo romano e o protestantismo continental, preservando estrutura episcopal e boa parte da liturgia tradicional ao mesmo tempo em que adotava elementos teológicos reformados. A expansão colonial britânica levaria o anglicanismo a todo o mundo nos séculos seguintes, dando origem à atual Comunhão Anglicana, uma federação de igrejas nacionais autônomas — entre elas a Igreja Episcopal nos Estados Unidos — que reconhece o arcebispo de Cantuária como referência simbólica de unidade, sem a autoridade jurisdicional central que caracteriza o papado católico.
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