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Heresias e Cismas

Jansenismo

Movimento teológico rigorista de inspiração agostiniana, condenado por posições sobre a graça consideradas próximas ao predestinacionismo protestante.

Jansenismo
Tipo
Heresia
Século
XVII
Condenação
Bulas Cum Occasione (1653) e Unigenitus (1713)

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Cornelius Jansen (Jansênio), bispo holandês de Ypres, dedicou boa parte de sua vida acadêmica a um estudo exaustivo dos escritos antipelagianos de Agostinho de Hipona, convencido de que a teologia jesuíta da graça, então em ascensão na Contrarreforma, havia se afastado perigosamente do rigor agostiniano em nome de uma visão mais otimista da liberdade humana. O fruto desse estudo, a obra monumental "Augustinus", foi publicada apenas postumamente, em 1640, dois anos após sua morte, e rapidamente se tornou referência de um movimento teológico e espiritual de grande influência na França do século XVII.

A obra defendia uma leitura rigorista da doutrina agostiniana da graça, segundo a qual a graça divina, quando concedida, opera de modo praticamente irresistível sobre os eleitos, ao passo que, na ausência dela, o esforço humano seria impotente para o bem sobrenatural — posição que seus críticos, sobretudo jesuítas, viam como perigosamente próxima do determinismo predestinacionista de Calvino e como uma ameaça à liberdade humana afirmada pelo Concílio de Trento. Já em 1641 a Inquisição proibiu a leitura do "Augustinus", e em 1643 o papa Urbano VIII condenou a obra pela bula "In Eminenti"; dez anos depois, em 1653, o papa Inocêncio X condenou nominalmente cinco proposições extraídas do livro na bula "Cum Occasione".

O centro intelectual e espiritual do movimento foi o mosteiro cisterciense feminino de Port-Royal, nos arredores de Paris, ligado a uma rede de teólogos, escritores e educadores conhecidos como os "solitários de Port-Royal" — entre eles Antoine Arnauld, principal porta-voz teológico do jansenismo, e o próprio Blaise Pascal, cuja irmã era religiosa na casa e que escreveu em defesa do movimento as célebres "Cartas Provinciais" (1656-1657), sátira mordaz contra a moral jesuítica que se tornou clássico da literatura francesa. A espiritualidade jansenista promovia uma prática sacramental de extremo rigor, exigindo disposições de contrição quase inalcançáveis para a absolvição e a comunhão frequente, o que na prática afastava muitos fiéis da vida sacramental regular.

A disputa se arrastou por décadas em meio a manobras teológicas e políticas — os jansenistas alegavam aceitar a condenação das cinco proposições "em direito", mas negavam que estivessem de fato presentes "em fato" no livro de Jansênio, distinção que Roma rejeitou como subterfúgio. O rei Luís XIV, hostil ao movimento por vê-lo como foco de dissidência política e religiosa, ordenou em 1709 a dispersão forçada das últimas freiras de Port-Royal e, em 1710, a destruição completa do mosteiro, chegando a mandar exumar e profanar os túmulos do cemitério. O golpe final veio com a bula "Unigenitus" (1713), do papa Clemente XI, que condenou 101 proposições extraídas dos escritos do padre oratoriano Pasquier Quesnel, então principal divulgador do jansenismo; a promulgação da bula como lei do reino em 1730 selou o declínio definitivo do movimento como força organizada, embora ecos de seu rigorismo moral tenham persistido informalmente na piedade francesa por gerações.

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Fontes

  • https://www.newworldencyclopedia.org/entry/Cornelius_Jansen
  • https://en.wikipedia.org/wiki/Augustinus_(Jansenist_book)
  • https://www.seminariojmc.br/o-jansenismo/

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