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Heresias e Cismas

Hussitismo

Movimento reformista boêmio de Jan Hus, precursor da Reforma Protestante, condenado e reprimido após a execução de seu fundador.

Hussitismo
Tipo
Heresia
Século
XV
Condenação
Concílio de Constança (1414-1418)

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Jan Hus, padre e reitor da Universidade de Praga, tornou-se a partir de 1402 pregador da Capela de Belém, em Praga, onde passou a dirigir-se aos fiéis em checo, em vez do latim, atraindo multidões com sermões que denunciavam a riqueza, a simonia e a vida moralmente relaxada de parte do clero. Fortemente influenciado pelas ideias do teólogo inglês John Wyclif — cujos escritos chegaram à Boêmia por meio de estudantes que haviam estudado em Oxford —, Hus defendia uma reforma radical da Igreja centrada na autoridade das Escrituras, a tradução da liturgia e da Bíblia para a língua vernácula e, sobretudo, a comunhão sob as duas espécies (pão e vinho, "utraquismo") também para os leigos, prática até então reservada ao clero. O cálice tornou-se o símbolo visual do movimento hussita, estampado em bandeiras e escudos.

Convocado a comparecer ao Concílio de Constança (1414-1418) para explicar suas posições, Hus aceitou viajar sob promessa de salvo-conduto concedida pelo próprio imperador Segismundo. Poucas semanas após sua chegada, porém, foi preso e mantido em cárcere no mosteiro dominicano da cidade, sob acusação de heresia por posições atribuídas a Wyclif, já condenadas anteriormente pela Igreja. Julgado sem oportunidade real de defesa satisfatória diante da assembleia conciliar, Hus recusou-se a retratar-se de doutrinas que, segundo ele, jamais havia sustentado nos termos em que lhe eram atribuídas, e foi condenado à fogueira, sendo executado em Constança em 6 de julho de 1415; suas cinzas foram lançadas no rio Reno para impedir qualquer culto a relíquias.

A execução, que a Boêmia entendeu como traição ao salvo-conduto imperial, provocou revolta profunda: já em 1419 eclodiu em Praga a chamada "Primeira Defenestração", em que uma multidão hussita atirou pela janela da prefeitura vereadores católicos, dando início às Guerras Hussitas. Ao longo da década seguinte, os exércitos hussitas — organizados sob comandantes como o general cego Jan Žižka, que desenvolveu táticas inovadoras com carroças de guerra fortificadas — infligiram derrotas sucessivas a nada menos que cinco cruzadas papais convocadas contra a Boêmia entre 1420 e 1431, tornando-se por um tempo uma das forças militares mais temidas da Europa central. O conflito terminou por um meio-termo negociado nos Compactos de Praga (Concílio de Basileia, 1436), que reconheceu aos utraquistas boêmios o direito à comunhão sob as duas espécies, embora facções mais radicais, como os taboritas, tenham continuado a resistência até serem derrotadas na Batalha de Lipany, em 1434.

Jan Hus é hoje reconhecido, inclusive por historiadores católicos, como um dos precursores diretos da Reforma Protestante, mais de cem anos antes de Martinho Lutero — que reconheceria publicamente sua dívida intelectual para com o reformador boêmio. Em 1999, o papa João Paulo II expressou "profundo pesar" pela morte cruel de Hus, reconhecendo seu papel de reformador e a injustiça processual de seu julgamento, sem contudo reverter formalmente a condenação doutrinal.

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