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Agostino Casaroli

Cardeal e secretário de Estado do Vaticano, arquiteto da «Ostpolitik» — a diplomacia de diálogo pragmático da Santa Sé com os governos comunistas da Guerra Fria.

Agostino Casaroli
Foto: Seminario Mayor de Medellín — Wikimedia Commons, CC BY 2.0
Ordem cardinalícia
Cardeal-presbítero
País
Itália
Criação
1979
Papa criador
João Paulo II

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Agostino Casaroli nasceu em 24 de novembro de 1914 em Castel San Giovanni, na província de Piacenza, norte da Itália, filho de um alfaiate, numa família de piedade simples e classe média. Formou-se no seminário menor de Bedonia, estudou teologia no Colégio Alberoni de Piacenza e direito canônico na Pontifícia Universidade Lateranense em Roma, entre 1936 e 1940, passando ainda pela Pontifícia Academia Eclesiástica. Ordenado sacerdote em 1937, ingressou muito jovem no serviço diplomático da Santa Sé, começando como arquivista na Secretaria de Estado — carreira que faria integralmente dentro da Cúria Romana, sem nunca ter governado uma diocese como bispo residencial antes de ser nomeado arcebispo titular de Cartago e, mais tarde, cardeal.

Em fevereiro de 1961, o papa João XXIII o nomeou subsecretário do Departamento para os Assuntos Eclesiásticos Extraordinários (o antigo escritório de relações com os Estados dentro da Secretaria de Estado). A partir daí, e sobretudo no pontificado de Paulo VI, formulou e executou a chamada «Ostpolitik» vaticana: uma política de diálogo pragmático e discreto com os governos comunistas do Leste Europeu, que situava a diplomacia da Santa Sé numa linha de «neutralidade ativa» entre os blocos, buscando garantir, mesmo por meio de concessões táticas em questões consideradas não essenciais, algum espaço de sobrevivência institucional para dioceses, seminários e fiéis sob regimes oficialmente ateus. Suas primeiras incursões atrás da Cortina de Ferro datam de 1963, quando foi enviado à Tchecoslováquia e à Hungria, terreno em parte preparado pelo cardeal Franz König, de Viena. Em 15 de setembro de 1964 assinou com o governo húngaro um acordo — cujos termos nunca foram plenamente publicados — que permitiu a nomeação de alguns bispos e o envio de seminaristas ao Colégio Húngaro em Roma, em troca da secularização das escolas católicas. Em junho de 1966, em Belgrado, assinou o primeiro de uma série de acordos que deram alguma legalidade à Igreja Católica na Iugoslávia, e em 1970 voltou à mesma cidade para firmar o estabelecimento de relações diplomáticas normais com um país comunista.

O episódio mais delicado dessa diplomacia foi o caso do cardeal húngaro József Mindszenty, que vivia refugiado na embaixada americana em Budapeste desde 1956. Casaroli desempenhou papel central na sua saída negociada — o prelado deixou a embaixada em 1971 e partiu para o exílio em Roma, o que permitiu ao Vaticano normalizar em parte a situação da Igreja húngara, mas foi vivido por muitos como abandono de um confessor da fé. Já como arcebispo à frente do Conselho para os Assuntos Públicos da Igreja, chefiou a delegação da Santa Sé e presidiu as sessões de abertura e encerramento da Conferência sobre Segurança e Cooperação na Europa, em Helsinque, de 30 de julho a 1 de agosto de 1975, na assinatura da Ata Final, documento que comprometeu formalmente os países signatários — inclusive os do bloco soviético — a respeitar direitos humanos e liberdades fundamentais, entre elas a liberdade religiosa, cláusula que a diplomacia vaticana passaria a invocar sistematicamente nos anos seguintes. Em junho de 1978, já como autoridade reconhecida nos assuntos internacionais, falou à Assembleia Geral das Nações Unidas em Nova York.

Essa abordagem gerou, já então, fortes divisões dentro da própria Igreja: cardeais e bispos que haviam sofrido diretamente a perseguição comunista — como Mindszenty, na Hungria, ou os bispos clandestinos da Ucrânia e da Tchecoslováquia — viam nela concessões excessivas que legitimavam regimes hostis à fé e sacrificavam a liberdade de ação de hierarquias inteiras em troca de garantias frágeis; para seus defensores, tratava-se da única via realista disponível para preservar a vida sacramental da Igreja atrás da Cortina de Ferro, quando a alternativa era o silêncio imposto ou a destruição institucional completa.

Criado cardeal por João Paulo II em 30 de junho de 1979, no primeiro consistório daquele pontificado, no mesmo ano foi nomeado secretário de Estado do Vaticano — o mais alto cargo da diplomacia vaticana depois do papa —, posição que ocupou por doze anos, até 1990, quando foi sucedido por Angelo Sodano. Em 1985 tornou-se cardeal-bispo da sé suburbicária de Porto-Santa Rufina e, de 1993 até a morte, foi vice-decano do Colégio dos Cardeais. Seu período no cargo coincidiu com a fase final da Guerra Fria e incluiu o apoio discreto da Santa Sé ao movimento polonês Solidariedade, os acordos preparatórios para viagens papais a países do bloco soviético e, por fim, o colapso dos regimes comunistas do Leste Europeu entre 1989 e 1991 — desfecho que, para muitos observadores, validou retrospectivamente parte da paciência diplomática que Casaroli havia praticado por décadas, ainda que o próprio João Paulo II, ao contrário de seu antecessor, tenha combinado a diplomacia discreta de Casaroli com uma postura pública muito mais assertiva de apoio aos dissidentes católicos do Leste.

Deixou o cargo em dezembro de 1990, já com quase 76 anos, e morreu em Roma em 9 de junho de 1998, de doença cardiorrespiratória. Antes de morrer, deixou preparadas suas memórias sobre o período, publicadas postumamente em 2000 pela editora Einaudi sob o título «Il Martirio della Pazienza: la Santa Sede e i paesi comunisti (1963-1989)» («O martírio da paciência: a Santa Sé e os países comunistas»), com introdução do cardeal Achille Silvestrini, seu colaborador de longa data — título que resume, na própria formulação do autor, o custo pessoal e institucional daquela diplomacia de décadas de espera e concessões calculadas. Sua obra e método de trabalho seguem sendo objeto de debate historiográfico intenso: para uns, o arquiteto que preparou o terreno diplomático para as transições democráticas de 1989; para outros, o símbolo de uma diplomacia de concessões que custou caro demais a bispos e fiéis perseguidos que não tiveram sua voz plenamente defendida por Roma.

Fontes

(6)
  • Encyclopedia.com, «Casaroli, Agostino» (Encyclopedia of Religion)
  • Wikipedia (en), «Agostino Casaroli»
  • Vatican.va, homilia do cardeal Angelo Sodano em memória de Agostino Casaroli (26 de junho de 2003)
  • J. M. Kramer, «The Vatican's Ostpolitik», Journal of Church and State (1980)
  • Hungarian Conservative, «Learning from the Fallacy of Ostpolitik» (acordo húngaro de 15 de setembro de 1964)
  • Agostino Casaroli, «Il Martirio della Pazienza» (Einaudi, 2000)

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