Cardeais
József Mindszenty
Cardeal húngaro, arcebispo de Esztergom e príncipe-primaz da Hungria, torturado e condenado em julgamento forjado pelo regime comunista, que passou quinze anos refugiado na embaixada americana em Budapeste.

- Ordem cardinalícia
- Cardeal-presbítero
- País
- Hungria
- Criação
- 1946
- Papa criador
- Pio XII
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József Mindszenty nasceu em 29 de março de 1892 em Csehimindszent, pequena aldeia do condado de Vas, então na Áustria-Hungria, filho de József Pehm e Borbála Kovács; o pai era magistrado. Estudou no ginásio premonstratense de Szombathely antes de entrar para o seminário diocesano em 1911, e adotou mais tarde como sobrenome o nome da aldeia natal em substituição ao original Pehm, de origem germânica, num gesto de afirmação nacional. Foi ordenado sacerdote em 12 de junho de 1915, festa do Sagrado Coração, por dom János Mikes, e publicou seu primeiro livro, sobre a maternidade, em 1917. Destacou-se cedo por oposição a governos autoritários de qualquer matiz: foi preso em fevereiro de 1919 sob o governo progressista de Mihály Károlyi e novamente em 31 de julho daquele ano, já sob a república soviética de Béla Kun, por atividades consideradas contrarrevolucionárias. Em 1939 exortou seus seguidores a votar contra o Partido das Cruzes Flechadas, e em 1940 publicou o panfleto «O comunismo verde», no qual qualificava o movimento nazista húngaro como diabólico e tão mau quanto o comunismo.
Consagrado bispo de Veszprém em 25 de março de 1944, foi detido no mesmo ano pelo regime pró-nazista das Cruzes Flechadas, que o manteve preso por opor-se à deportação de judeus húngaros e por defender a autonomia da Igreja. Em 2 de outubro de 1945 foi nomeado arcebispo de Esztergom — a sé primacial da Hungria — e príncipe-primaz do país, e criado cardeal pelo papa Pio XII em 18 de fevereiro de 1946, com o título presbiteral de Santo Stefano al Monte Celio. À frente da Igreja húngara tornou-se o mais firme opositor interno ao processo de sovietização que se seguiu, recusando-se sistematicamente a colaborar com o novo governo comunista, ao contrário do que ocorreria com parte do episcopado de outros países do bloco soviético.
O ponto de ruptura definitivo foi sua recusa em aceitar a estatização das escolas católicas húngaras, imposta pelo regime em 1948 como parte de um plano mais amplo de controle ideológico da educação. Em 26 de dezembro de 1948 a polícia política comunista (a ÁVH) prendeu Mindszenty; pouco antes, ele deixara escrito que não participara de qualquer conspiração e que toda confissão que viesse a fazer seria fruto de coação. Foi submetido, ao longo de semanas, a interrogatórios com privação de sono, espancamentos com bastões de borracha e outros maus-tratos — métodos hoje reconhecidos como técnicas clássicas de obtenção de confissões forçadas em julgamentos-espetáculo estalinistas. O julgamento iniciou-se em 3 de fevereiro de 1949 e durou três dias; baseou-se em provas fabricadas e numa confissão obtida sob coação, imputando-lhe acusações de traição, conspiração contra o Estado, espionagem e transações ilegais de câmbio, incluindo o suposto roubo das joias da coroa húngara e o projeto de assumir o poder após uma hipotética invasão americana. Em 8 de fevereiro de 1949 foi condenado à prisão perpétua; os seis correus receberam penas de três anos a prisão perpétua. O veredicto gerou condenação internacional praticamente unânime — inclusive de governos e organismos sem simpatia particular pela Igreja Católica — e motivou uma resolução das Nações Unidas. A revista «Time» estampou-o na capa em 14 de fevereiro de 1949, sob o mote «To die is to gain» («Morrer é ganho»).
Mindszenty permaneceu preso até a Revolução Húngara de outubro de 1956, quando foi libertado em 30 de outubro e voltou a Budapeste no dia seguinte, dirigindo-se à nação por rádio em apoio ao levante. Com o retorno das tropas soviéticas e o esmagamento da revolta em 4 de novembro daquele ano, seguiu o conselho do primeiro-ministro Imre Nagy e refugiou-se na embaixada dos Estados Unidos em Budapeste, onde permaneceria em confinamento voluntário por quinze anos consecutivos — incapaz de sair sem se expor a nova prisão e, ao mesmo tempo, símbolo vivo, para o Ocidente, da resistência católica ao comunismo na Europa Oriental. O governo húngaro só lhe permitiu deixar o país em 28 de setembro de 1971, fruto de um acordo diplomático que envolveu o Vaticano — já então empenhado, sob Paulo VI, na política de aproximação pragmática conhecida como Ostpolitik —, o governo húngaro e o governo norte-americano, com insistência do presidente Richard Nixon. A partir de 23 de outubro de 1971 passou a viver em Viena, como hóspede do Vaticano.
Já no exílio, Mindszenty recusou-se a renunciar formalmente ao cargo de arcebispo de Esztergom, entrando em atrito com a diplomacia vaticana, que buscava normalizar as relações com os governos comunistas do Leste Europeu. Paulo VI declarou vaga a sé de Esztergom em 1973, contra a vontade do cardeal — decisão que este viveu como nova ferida e que só seria preenchida por dom László Lékai em 1976. Como gesto de aproximação, a Santa Sé anulou a excomunhão que pesava sobre os envolvidos no processo contra o cardeal e passou a designá-lo «vítima da história», e não do comunismo. Mindszenty manteve-se firme em não reconhecer validade à confissão que lhe fora extorquida, chegando a assiná-la, segundo relatos, acrescentando em latim a expressão «coactus feci» («fi-lo sob coação»). Publicou suas memórias em 1974 e morreu em Viena em 6 de maio de 1975, aos 83 anos. Seus restos mortais foram trasladados de volta à Basílica de Esztergom em 1991, já após a queda do comunismo na Hungria. A causa de beatificação foi aberta em 1993, com a fase diocesana correndo em Esztergom entre 1994 e 1996; o papa Francisco declarou-o venerável em 12 de fevereiro de 2019, reconhecendo suas virtudes heroicas, e a causa aguarda agora o reconhecimento de um milagre para avançar à beatificação.
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