Cardeais
Francis Arinze
Cardeal nigeriano, um dos mais altos prelados africanos da Igreja contemporânea, prefeito da liturgia universal e apontado como papável no conclave de 2005.

- Ordem cardinalícia
- Cardeal-presbítero
- País
- Nigéria
- Criação
- 1985
- Papa criador
- João Paulo II
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Francis Arinze nasceu em 1º de novembro de 1932 em Eziowelle, no atual estado de Anambra, no sudeste da Nigéria, arquidiocese de Onitsha, terceiro de sete filhos de Arinze Nwankwu e Bernadette Mgbafor Arinze. Nascido numa família de religião tradicional igbo e batizado originalmente com o nome Anizoba — formado a partir de Ani, a divindade da terra e das tradições —, converteu-se ainda menino e foi batizado no próprio dia de seu nono aniversário, 1º de novembro de 1941, pelo padre Cyprian Michael Iwene Tansi; este sacerdote seria beatificado por João Paulo II em 1998 como o primeiro beato nigeriano, e na homilia da cerimônia o próprio papa mencionou, como fruto de seu ministério, que Arinze havia sido batizado por ele. A conversão, segundo os relatos biográficos, partiu da iniciativa do próprio menino, e não de pressão de adultos, tendo a família inicialmente se oposto. Estudou nos seminários de Onitsha, onde teve o padre Tansi como educador, e Enugu, antes de completar a formação em Roma. Foi ordenado sacerdote em 23 de novembro de 1958 por dom Gregorio Pietro Agagianian, no Pontifício Ateneu Urbaniano «De Propaganda Fide». Permaneceu em Roma, concluindo o mestrado em teologia em 1958 e o doutorado em teologia sagrada em 1960, summa cum laude: sua tese, «Igbo Sacrifice as an Introduction to the Catechesis of Holy Mass», estudava o sacrifício na religião tradicional igbo como ponte para a catequese sobre o sacrifício da missa, e seria publicada em 1970 pela Ibadan University Press sob o título «Sacrifice in Ibo Religion», tornando-se referência nos estudos sobre inculturação litúrgica na África.
Sua ascensão eclesiástica foi extraordinariamente rápida: nomeado em 6 de julho de 1965 bispo titular de Fissiana e coadjutor do arcebispo de Onitsha, foi consagrado em 29 de agosto de 1965, aos 32 anos, por dom Charles Heerey, tornando-se então o bispo católico mais jovem do mundo. Sua consagração ocorreu a tempo de participar, ainda como o mais jovem entre mais de 2.500 padres conciliares, da sessão final do Concílio Vaticano II, em 1965 — e, segundo o cardeal John Onaiyekan, é hoje o único padre conciliar nigeriano sobrevivente. Assumiu plenamente a arquidiocese de Onitsha em 26 de junho de 1967, bem no início da Guerra Civil Nigeriana (1967-1970), conflito que opôs o governo federal à autoproclamada República de Biafra, região majoritariamente igbo à qual pertencia a própria Onitsha — anos de enorme sofrimento humanitário, marcados por fome generalizada e deslocamento em massa, em que Arinze precisou conduzir sua diocese sob bombardeios e escassez extrema. Terminada a guerra em 1970, dedicou-se à reconstrução material e pastoral da arquidiocese e a um vigoroso esforço de evangelização que ajudou a consolidar Onitsha como uma das regiões de maior densidade católica da Nigéria. Foi presidente da Conferência Episcopal da Nigéria de 1979 a 1984.
Chamado a Roma pelo papa João Paulo II, foi nomeado em 8 de abril de 1984 pro-prefeito do então Secretariado para os Não-Cristãos, renomeado Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-Religioso, que dirigiria até 2002. Foi criado cardeal no consistório de 25 de maio de 1985, como cardeal-diácono de San Giovanni della Pigna — ordem que, em 1996, passou a cardeal-presbítero, e que desde 2005 ele detém como cardeal-bispo de Velletri-Segni, uma das sés suburbicárias reservadas aos cardeais-bispos. Deixou a arquidiocese de Onitsha em 9 de março de 1985. Em Roma, ocupou ainda a prefeitura da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos entre 2002 e 2008, dicastério responsável pela supervisão da liturgia em toda a Igreja latina, posição em que se tornou conhecido por defender uma celebração litúrgica marcada por reverência e fidelidade às rubricas, incluindo reservas expressas a certas inovações litúrgicas pós-conciliares que considerava desviarem do espírito da reforma pretendida pelo Concílio Vaticano II. Foi sob sua assinatura, como prefeito, que a Congregação publicou a instrução «Redemptionis Sacramentum», documento normativo sobre a correta celebração da missa e o culto à Eucaristia diante de abusos litúrgicos então relatados em diferentes partes do mundo: aprovada por João Paulo II em 19 de março de 2004, solenidade de São José, e assinada em 25 de março, solenidade da Anunciação, foi apresentada pelo próprio Arinze em coletiva de imprensa no Vaticano em 22 de abril de 2004, como desdobramento disciplinar da encíclica «Ecclesia de Eucharistia», que diagnosticara, após a reforma litúrgica conciliar, «abusos motivados por um sentido equivocado de criatividade e adaptação». É autor de numerosos livros de espiritualidade e teologia pastoral — entre eles «Sacrifice in Ibo Religion», «The Church in Dialogue: Walking with Other Believers», «Religions for Peace», «Meeting Other Believers» e «The Evangelizing Parish» — e recebeu diversos doutorados honorários, incluindo da Catholic University of America (1998) e da University of Nigeria (1986), além da Grã-Cruz da Ordem do Níger, uma das mais altas honrarias civis da Nigéria.
Como um dos rostos mais visíveis do episcopado africano na Cúria Romana, seu nome circulou insistentemente entre os papáveis no conclave de 2005, que elegeria Bento XVI — especulação que a imprensa internacional amplificou como possibilidade concreta de eleição de um papa não europeu na era moderna, hipótese que só se concretizaria oito anos depois, em 2013, com a eleição do argentino Jorge Mario Bergoglio. Arinze participou como eleitor do conclave de 2005 e permaneceu cardeal eleitor até completar 80 anos, em 1º de novembro de 2012, deixando de ser votante em 2013. Já nonagenário, continuou a intervir publicamente em defesa da fé e a viajar para conferências — em novembro de 2024, aos 92 anos, viajou sozinho à Nigéria para falar no Bigard Memorial Seminary, em Enugu —, sendo até hoje uma das figuras mais respeitadas e requisitadas da hierarquia católica africana.

