Cardeais
Reginald Pole
Cardeal inglês de sangue real, exilado por opor-se ao rompimento de Henrique VIII com Roma; voltou como legado papal para reconciliar a Inglaterra de Maria I com a Igreja Católica, sendo o último arcebispo católico de Canterbury.

- Ordem cardinalícia
- Cardeal-diácono
- País
- Inglaterra
- Criação
- 1536
- Papa criador
- Paulo III
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Nascido em 12 de março de 1500 no castelo de Stourton, em Staffordshire, Reginald Pole era filho de Sir Richard Pole e de Margaret Pole, oitava condessa de Salisbury, e descendia por linha materna dos Plantageneta — era bisneto de Jorge, duque de Clarence, e sobrinho-neto de Eduardo IV e Ricardo III; seu nome foi dado em homenagem a São Reginaldo de Orleães. Esse parentesco com a casa reinante, somado ao fato de ser primo distante de Henrique VIII, fazia dele próprio, aos olhos de muitos contemporâneos, um pretendente latente ao trono inglês. Estudou em Oxford e depois na Itália, em Pádua e Veneza, onde mergulhou no ambiente humanista e travou contato com os futuros reformadores católicos que integrariam, com ele, a corrente dos «spirituali», partidária de renovação espiritual da Igreja sem ruptura com Roma — entre eles Gasparo Contarini e Gian Pietro Carafa.
O rompimento com Henrique VIII veio quando o rei buscava a anulação de seu casamento com Catarina de Aragão e, diante da recusa romana, decidiu afirmar por lei a supremacia real sobre a Igreja na Inglaterra. Pole, que já recusara em 1530 as sedes de Iorque e Winchester oferecidas pelo rei, retirou-se para a Itália em 1532 e ali redigiu, sob pressão do próprio Henrique, o tratado «Pro Ecclesiasticae Unitatis Defensione» (1536), endereçado ao rei, no qual defendia a autoridade papal e descrevia a ruptura como ato tirânico e herético. O gesto teve consequências dramáticas: Henrique mandou prender e executar, em represália, parentes próximos que permaneciam na Inglaterra — seu irmão, Lord Montague, em 1538, e sua mãe, Margaret Pole, decapitada em 1541 já em idade avançada. Exilado, Pole foi criado cardeal em 22 de dezembro de 1536 pelo papa Paulo III, na ordem dos diáconos e contra a própria vontade declarada, como um dos catorze purpurados daquele consistório; só receberia a ordenação sacerdotal vinte anos depois.
Como cardeal, integrou a comissão presidida por Contarini que redigiu o influente relatório «Consilium de Emendanda Ecclesia» (1537), diagnóstico interno dos abusos que afligiam a Igreja às vésperas da Reforma protestante. Entre 1537 e 1539 foi enviado em missões diplomáticas para persuadir as monarquias católicas a se aliarem contra Henrique VIII, tentativas inteiramente fracassadas, e em 1541 foi nomeado governador papal do Patrimônio de São Pedro, fixando residência em Viterbo, onde reuniu em torno de si um círculo de reformadores espirituais. A partir de 1545, presidiu como legado papal as primeiras sessões do Concílio de Trento, retirando-se da assembleia por motivos de saúde antes de sua conclusão.
Após a morte de Paulo III, em 10 de novembro de 1549, Pole foi um dos principais candidatos ao papado no conclave seguinte, o segundo mais longo do século XVI e o maior em número de eleitores até então (51 presentes em certo momento). O colégio dividia-se entre as facções de Henrique II da França, do imperador Carlos V — que apoiava Pole — e dos Farnese. Na votação com «accessus» de 5 de dezembro, faltou-lhe apenas um voto para os dois terços exigidos; a eleição não se consumou em parte pela intervenção do cardeal Carafa, que declarou publicamente ser Pole suspeito de heresia e portanto inelegível, e pela chegada tardia de cardeais franceses, que devolveu o impasse. A 7 de fevereiro de 1550 foi eleito, como candidato de compromisso, o cardeal Giovanni Maria Ciocchi del Monte, que tomou o nome de Júlio III, a quem Pole chegou a dar seu voto de modo decisivo.
Com a subida ao trono de Maria I, filha católica de Henrique VIII, em 1553, Pole retornou à Inglaterra como legado papal, chegando em 1554 para coordenar a reconciliação formal do reino com a Igreja de Roma: em novembro daquele ano, em cerimônia no Parlamento, absolveu os parlamentares do cisma, revogando as leis de supremacia real. Em 20 de março de 1556 foi ordenado sacerdote e, dois dias depois, a 22 de março, sagrado arcebispo de Canterbury por Nicholas Heath, sucedendo a Thomas Cranmer — executado pouco antes, em 21 de março, por heresia — e tornando-se o último arcebispo católico a ocupar essa cadeira. Seus últimos anos à frente da arquidiocese foram marcados por tensões crescentes com a própria Roma: o novo papa Paulo IV (o mesmo Carafa que o atacara no conclave), desconfiado de seu passado entre os «spirituali», revogou sua legação papal em 1557 e convocou-o a Roma para responder a suspeitas de heterodoxia — convocação que Maria I impediu de se cumprir.
Historiadores debatem até hoje o papel pessoal de Pole nas chamadas perseguições marianas, a onda de execuções de protestantes por heresia que marcou o reinado de Maria I: alguns cronistas e estudiosos o descreveram como voz relativamente moderada dentro do governo eclesiástico da rainha, favorável a uma reconciliação que privilegiasse a persuasão; outros documentos, porém, mostram-no incentivando a própria Maria a usar a «espada da justiça» contra os hereges, e cabe a ele, como arcebispo de Canterbury, a responsabilidade formal pelo processo de seu predecessor Cranmer. Ao todo, cerca de trezentos protestantes foram executados sob o reinado de Maria I, número que valeu à rainha o epíteto histórico de «Bloody Mary» («Maria Sanguinária»). Pole morreu em 17 de novembro de 1558, no palácio de Lambeth, por volta das 19h, durante uma epidemia de gripe, cerca de doze horas depois da própria rainha — num desfecho quase simbólico. Seu corpo foi levado de Lambeth a Canterbury a 10 de dezembro e sepultado em 15 de dezembro de 1558 no lado norte da Corona (a «Coroa de Becket») da catedral de Canterbury, sendo o último prelado a ser enterrado ali; a reconciliação com Roma que ele e Maria haviam construído seria desfeita já no ano seguinte pelo Parlamento de Elizabeth I.
Fontes
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