Cardeais
Thomas Wolsey
Cardeal inglês (criado por Leão X em 1515) e lorde chanceler de Henrique VIII, o homem mais poderoso da Inglaterra depois do rei até cair em desgraça por não conseguir a anulação do casamento real.

- Ordem cardinalícia
- Cardeal-presbítero
- País
- Inglaterra
- Criação
- 1515
- Papa criador
- Leão X
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Filho de Robert Wolsey, de Ipswich, e de Joan Daundy, Thomas Wolsey nasceu por volta de março de 1473. A tradição que o apresenta como filho de açougueiro tornou-se arma dos inimigos quando ele acumulou riqueza e poder, mas os estudos modernos matizam a origem humilde: o pai tinha vários negócios e a mãe era aparentada das influentes famílias Wingfield e Daundy, e foi com o apoio do tio Edmund Daundy que Wolsey chegou às escolas de Ipswich e Magdalen College School e, em seguida, à Universidade de Oxford, onde se distinguiu pela precocidade — tomou seu grau por volta dos quinze anos. Ordenou-se sacerdote em 10 de março de 1498, foi capelão de Henrique VII nos últimos anos do reinado e, já na corte do jovem Henrique VIII, tornou-se esmoler real (royal almoner) em novembro de 1509.
A ascensão eclesiástica acompanhou a política. Organizou a expedição inglesa contra a França em 1513 e, por recomendação do próprio rei, o papa Leão X o fez bispo de Lincoln em fevereiro de 1514 e arcebispo de York em setembro do mesmo ano — a segunda sé do reino. Em 10 de setembro de 1515 Leão X o criou cardeal, com o título de cardeal-presbítero de Santa Cecília, dando-lhe precedência sobre todo o clero inglês, inclusive sobre o arcebispo de Canterbury, William Warham, que o consagrara bispo. Em dezembro de 1515 tornou-se lorde chanceler; em 1518 recebeu a legação papal «a latere», com caráter praticamente permanente e jurisdição eclesiástica sobreposta à de todos os bispos do reino. O acúmulo de cargos eclesiásticos — o chamado pluralismo — foi notável mesmo para o padrão da época: além de York, foi administrador de Bath and Wells (1518–1523), de Durham (1523–1530) e de Winchester (1529–1530), bispo de Tournai e abade de St Albans. Essa monopolização de poder e rendas, somada à sua ligação com Roma, tornou-o o homem mais invejado e detestado da Inglaterra e alimentou o sentimento anticlerical que, após sua queda, seria um dos combustíveis da Reforma inglesa. Os contemporâneos o apelidaram «o outro rei», e a expressão latina «Ego et rex meus» («eu e meu rei») — colocando-se antes do soberano — ficou como símbolo de sua arrogância.
Como chanceler, Wolsey ampliou a jurisdição do Tribunal da Câmara Estrelada («Star Chamber»), usado para processar perjúrio, fraude e abusos de nobres locais em favor de súditos mais pobres, e criou o Tribunal de Requerimentos (Court of Requests) para causas de menor valor. Nomeou comissões contra os cercamentos ilegais de terras comunais («enclosures»), que levaram à abertura de processos contra 264 proprietários rurais — política abandonada já em 1523, quando precisou concentrar-se em arrecadar subsídios para as guerras do rei contra a França, taxando nobreza e clero. Conduziu a diplomacia inglesa em episódios de grande teatralidade, como o encontro entre Henrique VIII e Francisco I da França no Campo do Pano de Ouro (1520). Na vida pessoal não observou a castidade clerical: teve um filho, Thomas Wynter, e uma filha, Dorothy, a quem procurou garantir carreiras eclesiásticas e casamentos vantajosos — casos comentados por contemporâneos e depois convertidos em argumento anticlerical. Acumulou fortuna comparável à da Coroa, financiou obras e fundações e, a partir de 1514, ergueu o Palácio de Hampton Court sobre um antigo casarão dos Hospitalários, ampliando-o até superar em suntuosidade as residências reais; em 1528 doou-o ao rei, tentando em vão recuperar o favor. Fundou em 1528 uma escola de gramática em Ipswich e, em 1525, o Cardinal College em Oxford, sobre as terras do suprimido priorado agostiniano de St. Frideswide — para financiá-lo, suprimiu cerca de 29 mosteiros, cujas rendas destinou à nova instituição; após sua queda o colégio seria refundado como King Henry VIII's College e, mais tarde, tornar-se-ia o atual Christ Church.
Sua ruína começou com o «grande assunto» do rei («the King's Great Matter»): a anulação do casamento de Henrique VIII com Catarina de Aragão, que se arrastava desde 1527 sem que o papa Clemente VII, sob pressão do imperador Carlos V, sobrinho de Catarina, se dispusesse a concedê-la. Em 31 de maio de 1529 abriu-se em Blackfriars, Londres, a corte legatina presidida por Wolsey e pelo legado papal Lorenzo Campeggio para julgar o caso; Catarina de Aragão compareceu e apelou diretamente a Roma, e o processo acabou avocado à Santa Sé, deixando o rei sem decisão. O fracasso de Wolsey abriu caminho para a ruptura definitiva com Roma e para a Igreja da Inglaterra sob supremacia real, consumada pelo Ato de Supremacia de 1534.
Destituído da chancelaria em outubro de 1529 e indiciado por «praemunire» — a acusação de ter exercido autoridade papal em detrimento da jurisdição real —, Wolsey retirou-se primeiro para Esher e depois para York, tentando reconstruir sua base eclesiástica. Preso em novembro de 1530 por suspeita de traição, ligada a suposta correspondência com a corte francesa, morreu a caminho de Londres, em Leicester, a 29 de novembro de 1530, antes de ser formalmente julgado, sendo sepultado na abadia local. Suas últimas palavras, registradas por seu biógrafo e antigo criado George Cavendish, tornaram-se célebres como epitáfio de sua trajetória: «Se eu tivesse servido a Deus com metade do zelo com que servi ao rei, Ele não me teria abandonado nesta velhice». A frase, transmitida também pela crônica de Edward Hall, seria reproduzida quase literalmente por Shakespeare na peça «Henrique VIII».
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