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Cardeais

Francisco Jiménez de Cisneros

Cardeal espanhol, arcebispo de Toledo, reformador do clero, fundador da Universidade de Alcalá, grande inquisidor e regente de Castela por duas vezes.

Francisco Jiménez de Cisneros
Ordem cardinalícia
Cardeal-presbítero
País
Espanha
Criação
1507
Papa criador
Júlio II

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Francisco Jiménez de Cisneros nasceu em 1436 em Torrelaguna, na Castela, filho dos hidalgos Alfonso Jiménez de Cisneros e María de la Torre; recebeu no batismo o nome de Gonzalo. Estudou no Studium generale de Alcalá de Henares e na Universidade de Salamanca, onde obteve o bacharelado em direito em 1456. Em 1459 foi a Roma exercer o ofício de advogado consistorial, onde atraiu a atenção do papa Pio II, e voltou à Espanha em 1465 com uma carta pontifícia que lhe garantia o primeiro benefício vago; este acabou sendo o de Uceda, mas o arcebispo de Toledo, Alfonso Carrillo de Acuña, recusou-se a reconhecê-lo. De volta à Espanha, entrou para a Ordem dos Frades Menores Observantes, adotando um regime de austeridade extrema — jejuns rigorosos, cilício e recusa inicial de qualquer cargo de destaque. Foi essa fama de rigor espiritual que chamou a atenção da corte: tornou-se confessor pessoal da rainha Isabel, a Católica, cargo que manteve até a morte da soberana, em 1504, e por meio do qual passou a influenciar diretamente as decisões da Coroa castelhana.

Em 20 de fevereiro de 1495 foi nomeado arcebispo de Toledo, a sé primacial da Espanha e uma das mais ricas da cristandade — nomeação que a princípio tentou recusar e da qual só tomou posse após consagração em 11 de outubro de 1495, pelas mãos de Hernando de Talavera. À frente da arquidiocese, impôs reformas rigorosas tanto ao clero secular quanto às ordens religiosas, entre elas os próprios franciscanos: exigiu residência efetiva dos párocos em suas paróquias, obrigou ao fim do concubinato clerical (o chamado nicolaísmo) e determinou que os religiosos observassem as regras originais de suas ordens sem as dispensas acumuladas ao longo dos séculos — política que gerou resistência aberta em alguns conventos, a ponto de frades fugirem para o norte da África para escapar da disciplina imposta. Editou ainda as primeiras edições impressas do missal (1500) e do breviário (1502) do rito moçárabe.

Sua atuação teve também um lado mais sombrio e controverso. Chamado a Granada no final de 1499 para apoiar a evangelização dos muçulmanos remanescentes do antigo reino nasrida, Cisneros rompeu com a abordagem gradual e respeitosa até então seguida pelo primeiro arcebispo de Granada, Hernando de Talavera — que aprendera árabe e apostava na catequese paciente — e adotou métodos de coerção direta: mandou prender e maltratar líderes muçulmanos que resistiam à conversão até que cedessem. Ordenou então a queima pública, na praça de Bib-Rambla, dos manuscritos árabes confiscados de mesquitas, escolas, bibliotecas e casas particulares; a data exata é incerta e as fontes a situam entre 1499 e 1500. O cronista Juan de Vallejo, amigo e testemunha direta do episódio, registra que os corões e demais livros recolhidos dos alfaquis «foram mais de quatro ou cinco mil volumes», queimados em grandes fogueiras, poupando-se apenas os textos de medicina, cerca de quarenta volumes, que Cisneros mandou levar para a biblioteca de Alcalá de Henares. A indignação da população muçulmana desembocou na revolta mourisca das Alpujarras (1499-1501), reprimida com a imposição, aos rebelados, da escolha entre batismo ou exílio — episódio que contrariava, na prática, os termos de tolerância religiosa firmados no Tratado de Granada de 1491. Foi criado cardeal em 17 de maio de 1507 pelo papa Júlio II, no mesmo ano em que assumiu o cargo de grande inquisidor-geral de Castela, posição que ocuparia com a mesma severidade disciplinar de seu governo diocesano. Em 1509 organizou e financiou pessoalmente uma expedição militar que conquistou a cidade norte-africana de Orão, episódio que uniu sua ambição de cruzada contra o Islão a interesses estratégicos da Coroa.

Seu legado mais duradouro, porém, é intelectual: fundou a Universidade de Alcalá de Henares, reunindo ali os principais humanistas, teólogos e hebraístas de seu tempo, com cátedras dedicadas tanto à teologia escotista e nominalista quanto às línguas orientais. Sob sua direção e financiamento pessoal, essa equipe de eruditos produziu a «Bíblia Poliglota Complutense», concluída em 1517 e publicada por volta de 1520-1522: edição crítica da Escritura que apresentava lado a lado, em colunas paralelas, os textos hebraico, grego, aramaico e latino — um dos grandes monumentos da erudição bíblica do Renascimento europeu e projeto que antecipou, em vários aspectos, os métodos da filologia bíblica moderna.

Cisneros exerceu ainda papel político de primeira grandeza: regeu Castela como regente em duas ocasiões, nomeado por Fernando, o Católico. A primeira regência, em 1506-1507, deu-se na incapacidade da rainha Joana, a Louca, após a morte de Filipe, o Belo, até a chegada de Fernando; a segunda e mais decisiva ocorreu entre 1516 e 1517, após a morte de Fernando, quando, já octogenário, organizou tropas para sufocar revoltas urbanas e a oposição de nobres dissidentes, garantindo a sucessão pacífica do jovem Carlos de Habsburgo — neto de Fernando e Isabel e futuro imperador Carlos V — ao trono de Castela. Cisneros preparava-se para receber e aconselhar o novo rei quando este finalmente desembarcou na Espanha, em setembro de 1517, mas morreu a caminho desse encontro, em 8 de novembro de 1517, em Roa de Duero, sem chegar a se avistar pessoalmente com o soberano cuja ascensão havia assegurado.

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