Cardeais
Nicolau de Cusa
Cardeal alemão do século XV, filósofo e teólogo da «douta ignorância», figura central do humanismo cristão na transição entre a Idade Média e o Renascimento.

- Ordem cardinalícia
- Cardeal-presbítero
- País
- Sacro Império Romano-Germânico (Alemanha)
- Criação
- 1448
- Papa criador
- Nicolau V
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Nicolau Krebs nasceu em 1401 em Kues, às margens do Mosela, filho de um próspero barqueiro e balseiro que pôde custear-lhe uma educação incomum para a época. Estudou na escola preparatória dos Irmãos da Vida Comum em Deventer, ingressou na Faculdade de Artes da Universidade de Heidelberg em 1416 e doutorou-se em direito canônico em Pádua, em 1423, onde travou amizade com dois futuros cardeais, Giuliano Cesarini e Domenico Capranica, e com o matemático Paolo dal Pozzo Toscanelli — convívio que marcaria seu interesse duradouro por matemática e astronomia. Completou a formação na Universidade de Colônia a partir de 1425 e, de volta à sua região natal, serviu como secretário do arcebispo-eleitor Otto von Ziegenhain, tornando-se cônego e decano do cabido de Koblenz.
Já nesse período revelou o rigor filológico que marcaria toda a sua obra: em 1433, por meio de crítica textual, demonstrou que a «Doação de Constantino» — documento que servia de base jurídica a pretensões temporais do papado — era uma falsificação medieval, conclusão que o humanista Lorenzo Valla confirmaria de modo independente pouco depois. Participou do Concílio de Basileia (1432-1438) representando pretendentes rivais à sé arquiepiscopal de Trier e ali escreveu sua primeira obra de fôlego, «De Concordantia Catholica», em que buscava equilibrar autoridade hierárquica e consenso conciliar no governo da Igreja e do Império. Inicialmente conciliarista, afastou-se progressivamente dessa posição, defendendo que a assembleia de Basileia não dispunha de consenso eclesial universal para se sobrepor ao papa; entre 1437 e 1438 integrou a delegação enviada a Constantinopla para trazer o imperador bizantino ao Concílio de Ferrara-Florença, viagem em que afirmou ter vivido, a bordo do navio de regresso, uma experiência de iluminação espiritual que inspiraria diretamente sua obra filosófica mais célebre.
Criado cardeal por Nicolau V em 1448 ou 1449, foi nomeado bispo-príncipe de Bressanone (Brixen), no Tirol, em 1450, e no mesmo ano recebeu comissão de legado papal para as terras germânicas, à frente da chamada «Grande Legação» (1450-1452): quase cinco mil quilômetros percorridos em pregação, ensino e reforma eclesiástica, que lhe valeram dos contemporâneos o epíteto de «Hércules da causa eugeniana» (fiel ao papa de Roma, Eugênio IV, contra o conciliarismo). Como bispo de Brixen, entre 1452 e 1458, impôs reformas disciplinares e tentou recuperar rendas diocesanas alienadas, o que o pôs em rota de colisão com o duque Segismundo do Tirol, descontente também com nomeações eclesiásticas de Nicolau. O conflito se agravou até a prisão do cardeal em 1460; em represália, o papa Pio II excomungou o duque e lançou interdito sobre suas terras. Nicolau nunca recuperaria de fato o governo efetivo da diocese, retirando-se para Roma, embora Segismundo tenha capitulado pouco depois da morte do cardeal.
Como pensador, é conhecido sobretudo por sua doutrina da «douta ignorância» («De Docta Ignorantia», 1440): a certeza de que o intelecto humano finito jamais alcança plenamente a essência do Deus infinito — o «Máximo» —, e que reconhecer com lucidez os limites do próprio conhecimento é já, paradoxalmente, uma forma superior de sabedoria, alicerçada tanto no neoplatonismo quanto na teologia apofática. Após a queda de Constantinopla em 1453, escreveu «De Pace Fidei», diálogo visionário em que representantes de diferentes povos e religiões debatem, num concílio celestial imaginado, os fundamentos de uma «única religião na variedade dos ritos» — obra que respeitava tradições não cristãs sem abrir mão da centralidade de Cristo. No mesmo ano compôs «De Visione Dei», meditação sobre a visão mística de Deus escrita a pedido de monges beneditinos.
Sua especulação tocou também a ciência: sustentou, décadas antes de Copérnico, que a Terra não é o centro imóvel do universo, mas um astro em movimento como os demais; propôs ainda um método de contagem de pulsação por meio de relógios de água, precursor da observação clínica cronometrada, e formulou, já em 1433, um sistema de votação por pontos semelhante ao que o matemático Jean-Charles de Borda desenvolveria de modo independente três séculos depois — proposta que a Igreja de seu tempo não adotou. Politicamente, defendeu que toda autoridade legítima nasce do consentimento dos governados, ideia que ecoaria muito além de seu século.
Nicolau morreu em 11 de agosto de 1464 em Todi, na Úmbria, a caminho de uma missão papal. Foi sepultado em San Pietro in Vincoli, em Roma — túmulo hoje perdido, embora reste ali o relevo esculpido por Andrea Bregno em sua memória —, mas, por vontade própria, seu coração foi levado a Kues, para a capela do hospício que fundara para idosos pobres da região, o Cusanusstift, instituição de caridade que subsiste até hoje e que preserva, junto ao legado de sua biblioteca pessoal, uma das mais importantes coleções de manuscritos medievais da Alemanha. Uma cratera lunar recebeu seu nome em reconhecimento à amplitude de sua contribuição intelectual.
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