Cardeais
Humberto de Silva Cândida
Cardeal-bispo do século XI cujo gesto em Constantinopla, em 1054, é tradicionalmente apontado como o marco do Cisma entre Roma e o Oriente cristão.

- Ordem cardinalícia
- Cardeal-bispo
- País
- Sacro Império Romano-Germânico (Lorena)
- Criação
- 1051
- Papa criador
- São Leão IX
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Nascido por volta do ano 1000, segundo algumas fontes já perto de 1015, na região da Lorena (há quem o diga natural da Borgonha), então parte do Sacro Império Romano-Germânico, Humberto entrou aos quinze anos como oblato no mosteiro beneditino de Moyenmoutier, nos Vosgos, onde professou os votos monásticos segundo a Regra de São Bento e chegou a ser eleito abade. Ali se formou em grego e latim — domínio raro entre os clérigos latinos do século XI e que se revelaria decisivo nas disputas com Constantinopla — e voltou seus estudos teológicos sobretudo para a questão das relações entre o poder eclesiástico e o poder secular, tema que marcaria toda a sua atuação posterior.
A amizade com Bruno de Toul, bispo que se tornaria papa com o nome de Leão IX em 1049, mudou o rumo de sua vida: Bruno o levou a Roma como colaborador direto. Em 1050 Leão IX chegou a nomeá-lo arcebispo de Sicília, posto que os governantes normandos da ilha impediram-no de assumir; em seu lugar, Humberto foi criado cardeal-bispo da sé suburbicária de Silva Cândida (Santa Rufina) em 1051 — tornando-se, segundo alguns historiadores, o primeiro francês a receber o barrete cardinalício — e passou a atuar como principal secretário papal, tornando-se o executor mais influente da política de reforma eclesiástica de Leão IX e, depois dele, de Vítor II, Estêvão IX e Nicolau II. Esteve ao lado de Leão IX mesmo na derrota: foi feito prisioneiro com o papa pelos normandos na Batalha de Civitate (1053) e passou cerca de nove meses detido com ele em Benevento.
Como teólogo da reforma, Humberto voltou-se com particular veemência contra dois males que via corroer a Igreja de seu tempo: a simonia, isto é, a compra e venda de cargos eclesiásticos, e o nicolaísmo, o concubinato do clero. Essas preocupações amadureceriam em sua obra mais influente, o tratado «Libri tres adversus Simoniacos» («Três livros contra os simoníacos»), escrito por volta de 1057, um dos textos programáticos da reforma gregoriana que se consolidaria sob o papa Gregório VII, décadas depois. Sua posição radical — a de que ordenações e sacramentos conferidos por clérigos simoníacos seriam inválidos — encontrou contestação dentro da própria corrente reformista, sendo refutada por Pedro Damião; os dois são, porém, frequentemente citados lado a lado como os principais reformadores do século XI.
Em 1053, viajando pela Apúlia, Humberto recebeu uma carta do arcebispo Leão de Ocrida criticando duramente práticas litúrgicas e disciplinares do Ocidente, entre elas o uso de pão ázimo (sem fermento) na Eucaristia e o jejum aos sábados — divergências que, somadas a antigas disputas sobre a primazia romana e sobre a cláusula «Filioque» no Credo, alimentavam havia séculos o distanciamento entre Roma e Constantinopla. Traduziu a carta para o latim, entregou-a ao papa e redigiu ele mesmo uma resposta, o tratado «Adversus Graecorum calumnias» («Contra as calúnias dos gregos»). A troca de acusações levou Leão IX a enviar, em 1054, uma legação a Constantinopla para negociar com o patriarca Miguel Cerulário, que também fechara as igrejas de rito latino na cidade. Humberto chefiou essa missão, acompanhado por Frederico de Lorena — futuro papa Estêvão IX — e por Pedro, arcebispo de Amalfi.
O papa Leão IX morreu em 19 de abril de 1054, antes de a missão se concluir, o que tecnicamente extinguia o mandato dos legados; ainda assim, Humberto e seus companheiros permaneceram em Constantinopla e continuaram as discussões teológicas, agora sem outra autoridade que não a própria. Frustrado com o impasse e com a recusa grega de aceitar suas exigências de submissão à Igreja latina, Humberto redigiu uma bula (charta excommunicationis) contra o patriarca Miguel Cerulário, acusando-o de heresia, e em 16 de julho de 1054, durante a celebração da liturgia divina, depositou-a sobre o altar-mor da Basílica de Santa Sofia — gesto acompanhado de uma condenação de tom genérico que se estendia a toda a Igreja grega. Conta-se que, ao deixar o templo, sacudiu o pó dos pés dizendo: «Que Deus veja e julgue».
Quatro dias depois, em 20 de julho de 1054, um sínodo reunido por Miguel Cerulário, com cerca de vinte e um metropolitas e bispos, respondeu excomungando não toda a cristandade ocidental, mas especificamente os três legados romanos — distinção que a memória posterior tenderia a apagar, simplificando o episódio como uma excomunhão mútua entre as duas Igrejas inteiras. Passados dois dias, a delegação papal deixou Constantinopla rumo a Roma. O ato, de validade jurídica discutível — visto que o papa que autorizara a missão já havia morrido —, tornou-se, com o tempo, o marco simbólico do Grande Cisma do Oriente, embora o afastamento entre as duas Igrejas fosse, na realidade, um processo gradual, tecido ao longo de séculos por diferenças litúrgicas, disciplinares, linguísticas e políticas, e só formalmente superado em parte quando Paulo VI e o patriarca Atenágoras I anularam reciprocamente as excomunhões de 1054, em 7 de dezembro de 1965.
De volta a Roma, Humberto continuou a servir a Cúria: o papa Estêvão IX, seu antigo companheiro de legação, nomeou-o bibliotecário e chanceler. Atribui-se-lhe papel decisivo na formulação do decreto eleitoral de 1059 («In Nomine Domini»), pelo qual a eleição papal passou a ser reservada aos cardeais, com papel preponderante dos cardeais-bispos — ainda que historiadores discutam o alcance real de sua mão no texto, obra também de outros colaboradores de Nicolau II. Humberto morreu em Roma em 5 de maio de 1061 e foi sepultado na Basílica de Latrão.
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