Cardeais
Cardeal de Richelieu
Cardeal francês e principal ministro de Luís XIII, arquiteto do absolutismo real francês e da política externa que enfraqueceu os Habsburgo na Guerra dos Trinta Anos.

- Ordem cardinalícia
- Cardeal-presbítero
- País
- França
- Criação
- 1622
- Papa criador
- Gregório XV
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Armand Jean du Plessis nasceu em 9 de setembro de 1585, quarto de cinco filhos e último de três varões, numa família de pequena nobreza do Poitou. O local exato do nascimento é objeto de debate: a certidão de batismo, lavrada em Paris em 5 de maio de 1586, registra a data e o batismo, mas não o local, e por isso historiadores oscilam entre Paris e a localidade poitevina hoje chamada Richelieu. O pai, François du Plessis, senhor de Richelieu, foi soldado e cortesão, grão-prevoste da França; a mãe, Susanne de La Porte, era filha de um jurista. O pai morreu de febre nas guerras de religião quando Richelieu tinha cinco anos, deixando a família endividada. Aos nove anos foi enviado ao Colégio de Navarra, em Paris, para estudar filosofia, e em seguida iniciou preparação militar. Destinado primeiro às armas, viu-se obrigado a assumir a via eclesiástica para preservar em família o bispado de Luçon, benefício que a Coroa havia concedido a seus antepassados: seu irmão Alfred renunciou ao cargo em 1605 e retirou-se à Grande Chartreuse. Em 1606, Henrique IV nomeou-o bispo de Luçon, mas, por não ter ainda a idade canônica mínima (cerca de 26 anos), Richelieu teve de viajar a Roma para obter dispensa do papa Paulo V; obteve-a, e foi consagrado bispo em 17 de abril de 1607, com pouco mais de vinte e um anos. Na diocese, uma das mais pobres da França, tornou-se o primeiro bispo do país a aplicar as reformas disciplinares do Concílio de Trento. Em 1614 foi eleito deputado do clero nos Estados Gerais, onde se destacou como força conciliadora entre os três estamentos.
Ingressou no Conselho de Estado em 1616, como secretário de Estado para assuntos externos e militares durante a regência de Maria de Médici, mãe de Luís XIII, no ministério do favorito Concino Concini; caiu em desgraça no ano seguinte com a queda da regente, sendo exilado primeiro em Avignon e depois enviado a Roma. Soube, no entanto, reconstruir sua posição como mediador entre a rainha-mãe e o jovem rei, o que lhe valeu a indicação ao cardinalato pelo próprio Luís XIII — nomeação que o papa Gregório XV confirmou em 1622. Em 1624 tornou-se principal ministro de Estado do rei, cargo que exerceria até sua morte, em 1642, tornando-se de fato o segundo homem mais poderoso da França depois do monarca e ganhando o apelido de «Eminência Vermelha».
Como estadista, Richelieu perseguiu dois objetivos entrelaçados: a centralização do poder real, submetendo a nobreza feudal — chegou a proibir e reprimir duelos aristocráticos como afronta direta à autoridade da Coroa —, e a supressão da autonomia política e militar dos protestantes huguenotes, embora lhes garantisse, pela Paz de Alès (1629), a liberdade de culto já concedida pelo Édito de Nantes. O episódio mais dramático dessa política foi o cerco de La Rochelle, iniciado em 10 de setembro de 1627 e concluído em 28 de outubro de 1628: a fortaleza huguenote, centro do poderio naval protestante e ponto-chave de resistência ao governo real católico, resistiu por mais de um ano. Richelieu comandou pessoalmente as tropas sitiantes na ausência do rei e mandou erguer cerca de doze quilômetros de trincheiras, onze fortes e dezoito redutos guarnecidos por um exército de trinta mil homens, além de um dique para impedir o socorro naval inglês. A capitulação pôs fim, de modo definitivo, à autonomia político-militar protestante na França.
Sua posição, porém, nunca esteve de todo segura: em 10 de novembro de 1630, episódio conhecido como «Dia dos Enganados» («Journée des Dupes»), a rainha-mãe Maria de Médici, aproveitando uma doença grave que quase matara o rei, exigiu de Luís XIII a destituição definitiva do cardeal, contando com o apoio de uma facção devota da corte que via em Richelieu um obstáculo à aliança com a Espanha católica. Contra todas as expectativas, o rei escolheu manter Richelieu no cargo — episódio que consolidou de modo irreversível o predomínio do cardeal sobre qualquer facção rival na corte e selou a queda política da própria rainha-mãe.
No plano internacional, voltou-se ao enfraquecimento da dinastia dos Habsburgo, que cercava a França pela Espanha e pelo Sacro Império Romano-Germânico; seu objetivo central era pôr fim à hegemonia hispano-austríaca na Europa. Para isso, não hesitou em apoiar financeira e depois militarmente potências protestantes — a Suécia de Gustavo Adolfo, os principados alemães protestantes e as Províncias Unidas — contra os Habsburgo católicos durante a Guerra dos Trinta Anos, subordinando cálculos confessionais à razão de Estado; a França entraria diretamente no conflito em 1635. Essa política valeu-lhe fortes críticas dentro da própria Igreja e da devota «facção dos santos» na corte francesa, mas consolidaria a França como potência dominante na Europa da geração seguinte.
Além da política, Richelieu deixou marca duradoura na cultura francesa: foi provisor (reitor) da Sorbonne a partir de 1622, promoveu a reforma e a reconstrução do colégio e de sua capela — onde está sepultado — e fundou, por patente real de 29 de janeiro de 1635, a Academia Francesa, sociedade literária oficial composta por quarenta membros, apelidados «os quarenta imortais», encarregados de zelar pela pureza da língua francesa e de compor seu dicionário oficial, cuja primeira edição só sairia em 1694. Morreu em Paris em 4 de dezembro de 1642, aos 57 anos, deixando como sucessor político seu protegido, o cardeal Mazarino, que daria continuidade a boa parte de seu projeto de Estado.
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