Devoções
Devoção ao Menino Jesus de Praga
Devoção centrada numa pequena estátua de cera sobre madeira do Menino Jesus, de origem espanhola, doada em 1628 a um convento carmelita de Praga e hoje venerada na igreja de Nossa Senhora da Vitória.

- Origem
- Tradição carmelita de Praga, a partir do início do século XVII
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A estátua do Menino Jesus de Praga é, segundo as fontes históricas, uma imagem de madeira revestida de cera, de cerca de 48 centímetros, representando o Menino Jesus vestido como um príncipe, com a mão direita erguida em bênção e a esquerda segurando um globo encimado pela cruz («globus cruciger»). De origem espanhola e datação incerta — atribuída por diferentes tradições ao século XIV ou, mais comumente, ao século XVI —, apareceu pela primeira vez na Boêmia em 1556, trazida por Maria Maximiliana Manrique de Lara e Mendoza, dama da nobreza espanhola, ao casar-se com o nobre boêmio Vratislav II de Pernštejn. Uma antiga lenda da família Lobkowicz afirma que a peça teria pertencido a Santa Teresa de Ávila — hipótese piedosa não comprovada, mas coerente com o fato de a estátua se assemelhar às do Menino Jesus veneradas por Santa Teresa e São João da Cruz. A imagem passou depois como herança a Polyxena de Lobkowicz (1566-1642), que a recebeu de sua mãe como presente de casamento.
Em 1628, já viúva e sem numerosos herdeiros diretos, Polyxena doou a imagem aos frades carmelitas descalços de Praga, recém-instalados na igreja de Nossa Senhora da Vitória, no bairro de Malá Strana. Segundo a tradição da ordem, ao entregá-la, a princesa teria dito aos religiosos: «Veneráveis Padres, trago-lhes o meu bem mais precioso. Honrai esta imagem e nunca vos faltará nada». Os carmelitas colocaram-na na capela do noviciado, onde os jovens religiosos professavam seus votos diante dela, prestando-lhe devoção duas vezes ao dia. O imperador Fernando II, da Casa de Habsburgo, teria contribuído com o equivalente a 2.000 florins e uma bolsa mensal para o sustento do culto.
A trajetória da imagem sofreu um golpe grave durante a Guerra dos Trinta Anos. Em 15 de novembro de 1631, tropas protestantes saxãs tomaram Praga; os carmelitas foram expulsos e o convento saqueado, e a estátua foi jogada, danificada, entre os escombros atrás do altar, com as duas mãos quebradas. Só em 1637 os carmelitas puderam retornar à cidade; entre eles estava o padre Cirilo da Mãe de Deus, originário de Luxemburgo (falecido em 1675), que, lembrando-se da devoção de seus tempos de noviço, encontrou a imagem entre o entulho. Segundo o relato tradicional da ordem, ao rezar diante da estátua mutilada, o padre Cirilo ouviu as palavras: «Tende piedade de mim e eu terei piedade de vós. Dai-me as mãos e eu vos darei a paz. Eu vos abençoarei tanto quanto me honrardes». Ele mesmo providenciou o restauro das mãos da imagem e devolveu-a à veneração pública. Em abril de 1639, quando um exército sueco iniciou novo cerco a Praga, os habitantes correram ao santuário do Menino Jesus; com a retirada dos sitiantes, atribuída à intercessão da imagem, a devoção ganhou novo impulso.
O conde Bernardo Inácio de Martinic, grão-marechal da Boêmia, ofereceu à estátua uma coroa de ouro cravejada de pedras preciosas, apresentada em 14 de janeiro de 1651 durante uma procissão que levou a imagem à igreja de Nossa Senhora da Vitória. Anos depois, em 4 de abril de 1655, a imagem foi solenemente coroada por Monsenhor José Corti (Josef Corta), bispo auxiliar de Praga, que representava o cardeal Harrach, então doente. Esse episódio é lembrado anualmente numa missa festiva, celebrada no tempo da Ascensão, por ocasião da festa do Menino Jesus de Praga.
Relatos de graças e curas atribuídas à sua intercessão espalharam a devoção por toda a Europa e, depois, pelo mundo, sobretudo por meio da obra dos carmelitas descalços, tornando-a uma das representações do Menino Jesus mais reproduzidas em lares e igrejas católicas. A estátua original, mantida até hoje na igreja de Nossa Senhora da Vitória, é ritualmente cuidada, limpa e vestida pelas irmãs carmelitas com um dos cerca de cem mantos doados pelos fiéis; em setembro de 2009, durante viagem apostólica à República Tcheca, o papa Bento XVI visitou aquela igreja e doou à imagem uma coroa de ouro. Cópias e réplicas da imagem são veneradas atualmente em santuários de vários países, inclusive no Brasil.
Fontes
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