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Heresias e Cismas

Gnosticismo

Movimento religioso dos primeiros séculos que via a matéria como má e pregava uma salvação por conhecimento (gnosis) secreto e reservado a poucos.

Gnosticismo
Tipo
Heresia
Século
I-III
Condenação
Refutada por Irineu de Lyon e outros apologistas; nunca convocou concílio ecumênico específico

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Mais do que uma heresia única, o gnosticismo foi um mosaico de seitas e escolas dos primeiros séculos cristãos, com forte concentração em Alexandria — cidade cosmopolita onde se cruzavam a filosofia grega, o misticismo judaico e as religiões egípcias, e que os historiadores costumam chamar de "viveiro do gnosticismo". Ali floresceram mestres como Basílides, por volta de 120, e sobretudo Valentino, que ensinou em Roma em meados do século II e construiu o sistema mais sofisticado e influente do movimento, dando origem à extensa escola valentiniana.

O núcleo comum a essas escolas era o dualismo radical entre espírito e matéria. Para os gnósticos, o mundo material não podia ter sido obra do Deus verdadeiro e supremo, perfeito e imaterial; ele seria antes produto de um ser inferior e ignorante, o "demiurgo" — em muitos sistemas identificado com o Deus do Antigo Testamento —, que teria aprisionado centelhas do divino dentro de corpos de matéria corruptível. A salvação, nessa visão, não dependia da fé nem da graça, mas de um conhecimento secreto e reservado (a "gnosis") sobre a verdadeira origem celeste da alma e sobre os meios de escapar da prisão material, conhecimento este transmitido apenas a uma elite espiritual iniciada, deixando a maioria da humanidade — os "psíquicos" e "hílicos", nas categorias valentinianas — num patamar inferior de salvação ou perdição.

Essa cosmovisão levava a consequências cristológicas graves: como a matéria era intrinsecamente má, muitos gnósticos recusavam admitir que o Filho de Deus tivesse assumido um corpo humano real, sustentando que Cristo apenas parecia possuir carne (heresia conhecida como docetismo) ou que a divindade teria descido sobre o homem Jesus apenas no batismo, abandonando-o antes da paixão. Negava-se, assim, tanto a real Encarnação quanto a factualidade da Cruz e da Ressurreição na carne. Textos como os codices descobertos em Nag Hammadi, no Egito, em 1945 — entre eles o Evangelho de Tomé e o Evangelho da Verdade, este atribuído à escola de Valentino — deram no século XX acesso direto a essa literatura, até então conhecida principalmente pelas citações e refutações de seus adversários.

O principal desses adversários foi Irineu de Lyon, bispo de origem grega que, por volta de 180, dedicou sua obra magna "Adversus Haereses" (Contra as Heresias) a expor em detalhe os sistemas gnósticos — sobretudo o valentiniano — e a refutá-los ponto a ponto. Irineu argumentou que o mesmo Deus único é criador do mundo material e Pai de Jesus Cristo, que a criação é boa por vir de um Deus bom, e que a verdadeira salvação se realiza pela recapitulação de toda a humanidade em Cristo encarnado, morto e ressuscitado na carne — não por uma fuga elitista da matéria. Outros padres, como Tertuliano e Hipólito de Roma, somaram-se a esse esforço de refutação. Ainda que o gnosticismo nunca tenha sido objeto de um concílio ecumênico específico, por ter surgido antes da era conciliar, a resposta antignóstica de Irineu tornou-se um dos pilares da teologia patrística sobre a criação, a Encarnação e a regra da fé transmitida pelos apóstolos, e ecos do dualismo gnóstico reapareceriam mais tarde em movimentos como o maniqueísmo e o catarismo medieval.

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Fontes

  • https://pt.wikipedia.org/wiki/Valentim_(gn%C3%B3stico)
  • https://ministeriopastoral.com.br/o-gnosticismo/
  • https://teologico.club/termos-teologicos/gnosticismo

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