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Anjos e Demônios

A Queda dos Anjos

A doutrina sobre a rebelião original de Lúcifer e dos anjos que, por livre escolha, recusaram definitivamente servir a Deus.

A Queda dos Anjos
Tipo
Conceito doutrinal

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A Igreja ensina que Satanás e os demais demônios foram originalmente anjos bons, criados por Deus, que pecaram livre e irrevogavelmente ao se recusarem, num ato de soberba, a servir a Deus e ao seu plano (CIC 391-395). O IV Concílio de Latrão, em 1215, professou explicitamente que Deus criou do nada as criaturas espirituais e corporais e que o diabo e os outros demônios foram criados naturalmente bons, mas se tornaram maus por si mesmos. A definição tinha alvo preciso: corrigir o dualismo gnóstico-maniqueísta, que fazia do mal um princípio eterno e coeterno a Deus. Quem afirmasse que o diabo era "princípio e substância do mal" — como ensinaram Maniqueu e Prisciliano — era declarado anátema.

Diferentemente do pecado humano, que ocorre no tempo e pode ser perdoado, a escolha angélica é entendida como um ato espiritual instantâneo e definitivo, sem possibilidade de arrependimento, dada a natureza intelectual pura dos anjos. Santo Tomás de Aquino (Suma Teológica I, q. 63) analisa esse pecado em detalhe: o primeiro pecado dos anjos foi a soberba, o desejo de "ser algo divino que não lhes era devido"; ao orgulho seguiu-se a inveja, pela dor do bem do homem e da grandeza divina. Tomás sustenta ainda que o demônio não foi criado mau, mas criado no estado de graça santificadora, e que pecou imediatamente após a criação, rejeitando a graça que lhe permitiria merecer a beatitude. Em I, q. 64, explica por que os anjos caídos são obstinados no mal e não se arrependem: a escolha de um espírito puro é necessariamente final e imutável.

A associação da figura de Lúcifer ("portador de luz") à liderança dessa rebelião baseia-se em leituras patrísticas de Isaías 14 e Ezequiel 28. O nome não aparece literalmente como designação do demônio no texto bíblico original. Ambas as passagens referiam-se, em seu contexto histórico, a reis humanos: Isaías 14,4 fala do "rei da Babilônia", e Ezequiel 28 do "príncipe de Tiro". Orígenes (De Principiis, I, 5) e depois Cirilo de Jerusalém (Catequeses II) interpretaram-nas como referindo-se, além dos reis, a um poder adverso que outrora foi santo e caiu. Agostinho viu nelas, sobretudo, o arquétipo do orgulho que causou a queda original do diabo.

Um filão paralelo da tradição liga a queda dos anjos à narrativa dos "filhos de Deus" em Gênesis 6,1-4. O Primeiro Livro de Enoque (os capítulos 6-9, o "Livro dos Vigilantes") expande essa passagem numa rebelião de anjos motivada por desejo carnal e na geração dos nefilins. Autores como Justino Mártir recorreram a essa tradição, mas Júlio Africano e Santo Agostinho (A Cidade de Deus, XV) a rejeitaram, interpretando os "filhos de Deus" como os descendentes de Sete. O Apocalipse (12,7-9) apresenta, por fim, a imagem do dragão e de seus anjos lançados do céu na batalha contra Miguel e os anjos fiéis.

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Fontes

  • Catecismo da Igreja Católica, nn. 391-395
  • IV Concílio de Latrão (1215), profissão de fé Firmiter credimus
  • Tomás de Aquino, Suma Teológica I, qq. 63-64
  • Orígenes, De Principiis I, 5; Cirilo de Jerusalém, Catequeses II
  • Agostinho, A Cidade de Deus, XV
  • Isaías 14,4.12-15; Ezequiel 28,11-19; Gênesis 6,1-4; Apocalipse 12,7-9

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