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Anjos e Demônios

Satanás

O "acusador", o anjo caído que a tradição cristã identifica como a principal fonte espiritual do mal e da tentação, cujo poder, porém, permanece finito e submetido a Deus.

Satanás
Tipo
Demônio

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O nome "Satanás" translitera o hebraico *śāṭān*, derivado da raiz semítica *šṭn*, que significa "adversário", "opositor" ou "acusador" (a mesma raiz do árabe *shayṭān*). No Antigo Testamento, porém, o termo designa menos um nome próprio do que uma função: no prólogo do livro de Jó (Jó 1,6-12; 2,1-7), o *ha-satan* ("o satanás") é descrito como um membro da corte celeste que desafia a integridade do justo diante de Deus, e em Zacarias 3,1 é ele quem acusa o sumo sacerdote Josué. Nessa etapa literária, a figura ainda age como agente subordinado a Deus, que põe à prova. Note-se que os tradutores da Septuaginta, a tradução pré-cristã da Bíblia hebraica para o grego, costumavam verter o hebraico *śāṭān* pela palavra *diábolos* ("oponente", "acusador"), raiz do termo português "Diabo" — de modo que *satanás* e *diábolos* passaram a ser usados indistintamente no Novo Testamento.

Entre o Antigo e o Novo Testamento, o judaísmo do Segundo Templo desenvolveu a figura de modo notável. Na literatura apocalíptica — sobretudo no Livro dos Vigilantes (1 Enoque, capítulos 1-36), composto entre os séculos II a.C. e I d.C. —, atribuiu-se a queda a um grupo de duzentos anjos, os Vigilantes, que desceram ao monte Hermon e desposaram as filhas dos homens; aqui o líder dos rebeldes é chamado Azazel (ao lado de Semyaza), e não ainda Satanás. Muitos estudiosos veem nesse período, sob possível influência do dualismo zoroastriano, a transformação do *ha-satan* bíblico — antes promotor celestial subordinado — numa entidade malévola em oposição radical a Deus. É no Novo Testamento que "Satanás" se consolida como nome próprio e como chefe dos anjos rebeldes: Jesus o chama "pai da mentira" e "homicida desde o princípio" (Jo 8,44); ele vê a queda de Satanás como um relâmpago do céu (Lc 10,18), e é ele quem tenta o próprio Cristo no deserto (Mt 4,1-11). No Apocalipse, a figura recebe uma série de títulos acumulados: "o grande dragão, a antiga serpente, chamada Diabo e Satanás, que engana todo o mundo", lançado à terra por Miguel e seus anjos após a batalha no céu (Ap 12,7-9), ao passo que é também chamado "o acusador de nossos irmãos" (Ap 12,10).

A doutrina católica sustenta a existência real de Satanás como espírito pessoal, não como mera personificação simbólica do mal. O Catecismo (nn. 391-395) ensina, com base no Antigo e no Novo Testamento, que ele foi primeiramente um anjo bom, criado por Deus, e que se fez mau por sua própria escolha. O "Diabo e os outros demônios foram, na verdade, criados por Deus naturalmente bons, mas eles próprios se fizeram maus", definiu o IV Concílio de Latrão (1215), citado no próprio Catecismo (DS 800). O Catecismo recorda ainda que "a Escritura fala de um pecado destes anjos" (cf. 2Pd 2,4, onde Deus "não poupou os anjos que pecaram, mas os entregou a abismos tenebrosos", e Jd 6). A queda consistiu numa recusa livre e radical de Deus e de seu Reino — eco da sedução refletida em Gênesis 3,5, "sereis como Deus". Segundo a Tradição, essa opção é irrevogável: como observa São João Damasceno, "não há arrependimento para eles depois da queda, tal como não há arrependimento para os homens depois da morte". O Catecismo salienta que é o caráter irrevogável dessa escolha, e não uma falha da misericórdia divina, que torna o pecado dos anjos imperdoável.

O Catecismo insiste, contudo, em que o poder de Satanás não é infinito. Ele é "uma simples criatura, poderosa pelo fato de ser puro espírito, mas criatura: impotente para impedir a edificação do Reino de Deus" (CIC 395). Sua ação no mundo — movida por ódio contra Deus e seu Reino — é permitida pela Providência divina, que "com vigor e doçura dirige a história do homem e do mundo", e Deus a faz concorrer para o bem daqueles que o amam (Rm 8,28). É essa soberania divina que fundamenta a esperança cristã: "Foi para destruir as obras do Diabo que apareceu o Filho de Deus" (1Jo 3,8), de modo que a vitória definitiva de Cristo já foi selada na cruz e na Ressurreição, ainda que a luta espiritual perdure na história até o fim dos tempos. No imaginário cristão posterior, a figura foi muitas vezes representada a partir da descrição de Isaías 14,12 — a "estrela da manhã" (*lucifer*) que cai do céu —, leitura que a Vulgata latina tornou célebre e que aproximou "Lúcifer" a Satanás.

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Fontes

  • Catecismo da Igreja Católica, nn. 391-395 (a queda dos anjos e o poder do Diabo), disponível em vatican.va
  • IV Concílio de Latrão (1215), citado em CIC 391 (DS 800)
  • Livro de Jó 1-2; Zacarias 3,1; Isaías 14,12; João 8,44; Lucas 10,18; 1 João 3,8; 2 Pedro 2,4; Judas 6; Apocalipse 12,7-10
  • São João Damasceno, De fide orthodoxa, sobre a irrevogabilidade da queda angélica
  • 1 Enoque (Livro dos Vigilantes, caps. 1-36), sobre Azazel e os duzentos Vigilantes do monte Hermon
  • Wikipédia, 'Satanás'/'Satan' (etimologia hebraica śāṭān e sua tradução por diábolos na Septuaginta)

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