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Anjos e Demônios

Possessão Demoníaca

O fenômeno, reconhecido pela tradição da Igreja com extrema cautela, de um espírito maligno dominando o corpo e, durante a crise, parte das faculdades de uma pessoa — a ser sempre distinguido de doença natural.

Possessão Demoníaca
Tipo
Conceito doutrinal

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A possessão demoníaca — a ação extraordinária pela qual um espírito maligno assume o controle do corpo de uma pessoa e, durante a crise, bloqueia suas faculdades superiores — é atestada nos Evangelhos em vários episódios de libertação realizados por Jesus. O relato mais desenvolvido é o do endemoninhado de Gerasa (Mc 5,1-20; paralelos em Mt 8,28-34 e Lc 8,26-39): um homem que vivia entre os túmulos, de força incontrolável, que se fería com pedras e a quem ninguém conseguia dominar. Interrogado por Jesus sobre seu nome, o espírito responde "Legião, porque somos muitos", e a manada de porcos para a qual suplica entrar — cerca de dois mil, segundo o texto — precipita-se no mar. Exegetas observam que o nome "Legião" evoca as tropas romanas que, à época, ocupavam a região, e que o episódio de Gerasa se dá em território pagão da Decápole, fora das fronteiras de Israel.

A tradição teológica distingue com cuidado quatro modalidades da ação diabólica extraordinária: a *infestação*, que recai sobre lugares, casas ou objetos; a *vexação*, que são agressões externas ao corpo sem domínio das faculdades; a *obsessão*, assédio insistente da imaginação e do pensamento, com a vontade permanecendo livre; e, por fim, a *possessão* propriamente dita, em que há domínio do corpo com bloqueio das faculdades superiores durante a crise. Essa classificação, tratada por exorcistas como Francesco Bamonte, exorcista da diocese de Roma, organiza o discernimento pastoral e evita que se confundam fenômenos de intensidade muito diversa.

Entre os sinais que a Igreja examina num suposto caso de possessão — e que figuram na praxe consagrada pelo Ritual Romano — estão falar ou compreender línguas desconhecidas da pessoa, conhecer fatos que ela não poderia saber, força física ou peso anormal e aversão ao sagrado. Nenhum desses sinais, isoladamente, é decisivo: exige-se excluir primeiro as causas naturais, em colaboração com médicos e psiquiatras. Existem, aliás, guias de discernimento redigidos por psiquiatras precisamente para esse confronto interdisciplinar. Nem todos os teólogos aceitam uma fronteira absolutamente nítida entre possessão e doença: Karl Rahner sustentava que, do ponto de vista religioso, não é possível nem particularmente importante traçá-la com precisão, já que a enfermidade pode ser sintoma ou porta de entrada. A praxe canônica da Igreja, porém, mantém a distinção justamente para reservar o exorcismo solene aos casos de certeza moral.

Bamonte trata ainda de outra distinção que evita muito sofrimento: a que existe entre cura e libertação, quando a ação extraordinária do demônio se cruza com uma doença. Nem tudo o que adoece é obra do maligno, e nem tudo o que é obra do maligno se cura com remédio — de modo que o cuidado pastoral caminha junto com o cuidado médico, nunca em substituição a ele.

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Fontes

  • Marcos 5,1-20; Mateus 8,28-34; Lucas 8,26-39 (o endemoninhado de Gerasa)
  • Francesco Bamonte, 'Possessões diabólicas e exorcismos' (distinção entre possessão, obsessão, vexação e infestação)
  • Silvio Rogerio Zurawski, 'Porcos ao Mar: interpretação de Marcos 5,1-20' (dissertação, PUC Goiás, 2010)
  • 'O discernimento da ação extraordinária do demônio: alguns critérios' (tradução da AIEL, sobre os sinais examinados)
  • Karl Rahner, sobre a dificuldade de distinguir possessão de doença natural (referido em literatura sobre o discernimento)

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