Anjos e Demônios
Legião
Nome evocado por um homem possuído pela multidão de espíritos impuros que o dominavam, no episódio evangélico do endemoninhado geraseno.

- Tipo
- Demônio
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Os três Evangelhos sinóticos narram o episódio de um homem que vivia entre os túmulos, na região a leste do mar da Galileia, dominado por espíritos impuros a tal ponto que ninguém conseguia acorrentá-lo: ele quebrava as cadeias e vagava pelos sepulcros e pelos montes, gritando e ferindo-se com pedras (Mt 8,28-34; Mc 5,1-20; Lc 8,26-39). Ao ser interpelado por Jesus sobre seu nome, o homem responde pelos espíritos que o possuíam: "Legião é o meu nome, porque somos muitos" — referência ao termo militar romano. Na época do Novo Testamento, uma legião reunia cerca de cinco mil a seis mil soldados, organizados em dez coortes; o nome, portanto, não funciona como um nome próprio de um demônio, mas expressa a multidão e a força organizada dos espíritos, como se dissessem: "somos muitos, estamos unidos e prontos para lutar". Os sinóticos acrescentam que os demônios suplicavam a Jesus que não os expulsasse da região e que lhes fosse permitido entrar numa manada de porcos próxima.
A localização do episódio gerou uma célebre dificuldade textual. Marcos e Lucas dizem "país dos gerasenos"; Mateus, "país dos gadarenos"; alguns manuscritos trazem ainda "gergesenos". Como Gerasa (a moderna Jerash) fica a mais de cinquenta quilômetros do lago, e Gadara (a moderna Umm Qais) fica a sudeste dele, os copistas antigos — e depois os exegetas — tentaram harmonizar geografia e narrativa, produzindo as variantes que ainda hoje dividem os textos. Eusébio de Cesareia, em seu *Onomasticon* (séc. IV), não satisfeito com as opções de Gerasa e Gadara, acrescentou um terceiro candidato: Gergesa, "uma aldeia situada junto ao lago de Tiberíades, para onde os porcos se precipitaram". A tradição local e a arqueologia associam hoje o episódio a Kursi, na margem leste do lago, palavra que alguns propõem ser a transliteração de "Gergesa" — o sítio geograficamente mais plausível, por estar junto à margem e defronte a Cafarnaum.
Em Kursi, escavações iniciadas por acaso em 1970, durante obras rodoviárias, e conduzidas entre 1971 e 1974 pelo arqueólogo israelense Dan Urman e pelo grego Vassilios Tzaferis, revelaram o maior complexo monástico bizantino já encontrado em Israel. O mosteiro, datado do século V (com uma capela mais antiga num morro próximo, cujo piso de mosaico trazia cruzes, proibidas nos pavimentos de igrejas por decreto imperial de Teodósio II a partir de 427), foi cercado por muralhas de pedra de 145 por 123 metros, com torre de vigia, termas, igreja basilical e uma escada que descia ao lago, onde peregrinos podiam atracar. O complexo foi destruído nas invasões persas do século VII. A identificação tradicional do lugar com o milagre é, contudo, discutida: arqueólogos observam que não foram encontrados em Kursi restos do século I, o que torna incerta a ligação direta com o episódio evangélico.
Jesus permite a saída dos demônios, e estes entram nos porcos: segundo Marcos 5,13, a manada tinha "cerca de dois mil" animais, que se precipitam pelo escarpado e se afogam no mar. Os porcos eram animais impuros na tradição judaica, e o mar representava, simbolicamente, o caos e a morada das forças hostis a Deus; a cena reforça a derrota do mal diante do poder de Cristo. O homem, curado, é encontrado depois "assentado, vestido e em perfeito juízo" (Mc 5,15), e pede para seguir Jesus, mas é enviado de volta para anunciar à Decápole, região de maioria gentílica, "tudo o que o Senhor lhe havia feito" — um dos primeiros envios missionários fora do mundo judaico.
O relato é um dos episódios evangélicos mais invocados quanto à autoridade de Jesus sobre os espíritos malignos, e já aparece esculpido num mosaico do século VI da Basílica de Sant'Apollinare Nuovo, em Ravena. O nome "Legião" tornou-se, na linguagem cristã posterior, expressão corrente para designar uma possessão especialmente grave ou múltipla. O episódio também atraiu leituras de cunho histórico-político: o emprego do termo "legião", que designava a força de ocupação romana, foi lido por alguns exegetas — entre eles o teórico literário René Girard, em "O Demônio de Gerasa" — como cifra simbólica da opressão coletiva da época, sobre a qual Cristo manifesta seu poder.
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