Ciência e Fé
Georges Lemaître
Padre e físico belga que propôs a expansão do universo (1927) e formulou a hipótese do átomo primordial (1931), precursora da teoria do Big Bang; a lei de Hubble foi renomeada Hubble-Lemaître em 2018.

- Tipo
- Cientista
- Área
- física / cosmologia
- Século
- XX
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Georges Henri Joseph Édouard Lemaître nasceu em Charleroi, na Bélgica, em 17 de julho de 1894. Interrompeu os estudos de engenharia para servir como oficial de artilharia do exército belga durante a Primeira Guerra Mundial, experiência de combate que o marcaria profundamente e que precedeu sua decisão de seguir dois caminhos simultâneos e, para muitos de seus contemporâneos, aparentemente inconciliáveis: o sacerdócio católico e a física teórica de ponta. Formou-se em matemática e física na Universidade Católica de Lovaina, ingressou no seminário arquidiocesano de Malinas e foi ordenado sacerdote em 1923, ano em que também obteve autorização de seus superiores eclesiásticos para prosseguir estudos avançados de astronomia e cosmologia no exterior — um raro exemplo institucional de incentivo direto da Igreja à pesquisa científica de fronteira. Passou depois períodos de estudo em Cambridge, na Inglaterra, sob orientação do astrofísico Arthur Eddington, um dos primeiros a confirmar observacionalmente a relatividade geral de Einstein, e no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e no Harvard College Observatory, nos Estados Unidos, onde defendeu sua tese de doutorado em 1927, imergindo-se nas mais recentes técnicas observacionais da astronomia extragaláctica da época. De volta à Bélgica, tornou-se professor na Universidade Católica de Lovaina, cargo que ocuparia pelo resto de sua carreira acadêmica.
Ao aplicar as equações da relatividade geral de Einstein ao universo como um todo, Lemaître demonstrou, num artigo publicado em 1927 nos Annales de la Société Scientifique de Bruxelles, revista belga de circulação restrita, que o universo não poderia ser estático, como a maioria dos físicos — incluindo o próprio Einstein — ainda supunha, mas estava necessariamente em expansão; o trabalho incluía uma estimativa da taxa dessa expansão matematicamente equivalente à relação que o astrônomo americano Edwin Hubble tornaria célebre dois anos depois, com base em dados observacionais independentes, e que ficaria mundialmente conhecida como “Lei de Hubble” — atribuição que só começou a ser revista academicamente décadas mais tarde. Ao apresentar suas conclusões pessoalmente a Einstein num congresso em Bruxelas em 1927, Lemaître recebeu do físico alemão uma resposta célebre e nada favorável: “seus cálculos estão corretos, mas sua compreensão da física é abominável” — Einstein, à época, ainda resistia à ideia de um universo em expansão, embora reconhecesse a validade formal da matemática de Lemaître. Em 29 de outubro de 2018, a União Astronômica Internacional (IAU) votou por recomendar a renomeação da lei como “Lei de Hubble-Lemaître”, reconhecendo oficialmente a precedência da contribuição de Lemaître.
Em 1931, num breve artigo de apenas quatro parágrafos publicado na revista Nature sob o título “The beginning of the world from the point of view of quantum theory” (vol. 127, p. 706), Lemaître deu um passo além e propôs o que chamou de “hipótese do átomo primitivo”: se o universo está em expansão, argumentou, retroceder no tempo implica que toda a matéria e energia hoje observáveis estiveram um dia concentradas num único “quantum” de densidade e temperatura extremas, cuja desintegração inicial — que ele comparou a um imenso núcleo atômico em processo super-radioativo — teria dado origem ao próprio espaço, ao tempo e à expansão cósmica que continua em curso. Era a primeira formulação científica rigorosa do que décadas depois se convencionaria chamar de teoria do Big Bang, termo cunhado de forma pejorativa pelo astrônomo britânico Fred Hoyle, crítico da hipótese. O próprio Einstein, inicialmente cético também quanto a essa proposta mais radical, teria revisto sua posição ao longo dos anos; segundo relato amplamente citado, chegou a se levantar ao final de uma palestra de Lemaître no Instituto de Tecnologia da Califórnia, em janeiro de 1933, para declarar que aquela era “a mais bela e satisfatória explicação da criação” que já havia ouvido.
Lemaître evitava, porém, qualquer instrumentalização apologética direta de sua teoria científica em favor de argumentos teológicos sobre a criação do mundo, insistindo na completa autonomia metodológica entre ciência e fé: segundo suas próprias palavras, a fé do cientista cristão “nada tem a ver diretamente com sua atividade científica”. Essa posição pública de reserva ficou clara quando o papa Pio XII, em discurso à Pontifícia Academia das Ciências em 22 de novembro de 1951, sugeriu uma ligação entre as descobertas cosmológicas recentes e o relato do Gênesis — comparando a teoria do universo em expansão ao “Fiat lux” da primeira página da Bíblia. Lemaître, que era membro da Academia (embora ausente naquela sessão), não aprovou o tom assertivo com que a hipótese científica era apresentada como prova da Criação, e evitou endossar publicamente essa leitura. Tornou-se presidente da Pontifícia Academia das Ciências em 1960, sucedendo ao padre Agostino Gemelli e exercendo o cargo até sua morte. Em 1965, já em seus últimos meses, teve notícia da descoberta da radiação cósmica de fundo em micro-ondas por Arno Penzias e Robert Wilson — a primeira evidência observacional decisiva a favor da hipótese que formulara trinta e cinco anos antes. Faleceu em Lovaina em 20 de junho de 1966, aos 71 anos.
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