Missões
Matteo Ricci
Missionário jesuíta italiano que introduziu o cristianismo na China imperial através do método da inculturação, adotando a língua e os costumes chineses.
- Tipo
- Missionário
- Região
- China
- Século
- séculos XVI-XVII
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Matteo Ricci nasceu em Macerata, nos Estados Pontifícios, em 6 de outubro de 1552, e ingressou no noviciado jesuíta em Roma em 1571, aos dezenove anos. Entre 1571 e 1577 estudou no Colégio Romano sob a orientação do matemático e astrônomo Christopher Clavius, formando-se não apenas em teologia e filosofia, mas também em matemática, astronomia, cosmologia e cartografia — um conjunto de saberes técnicos que, sem que ele então pudesse prever, se tornaria decisivo para sua futura missão. Enviado ao Extremo Oriente, chegou a Goa em 1578 e depois a Macau em 1582, base portuguesa a partir da qual os jesuítas tentavam, havia anos sem sucesso duradouro, penetrar no território chinês.
Já em Macau, Ricci e seu superior Alessandro Valignano perceberam que o método então usado nas Índias e no Japão — pregação direta, roupas religiosas ocidentais — não funcionaria numa civilização que se via como centro do mundo civilizado e tratava todo estrangeiro como bárbaro. Ricci dedicou-se então, com uma disciplina incomum, ao estudo do mandarim clássico, dos clássicos confucionistas e da etiqueta letrada chinesa, chegando a dominar a escrita a ponto de compor textos e catecismos diretamente em chinês; adotou inicialmente trajes de monge budista e, ao perceber que os letrados confucionistas gozavam de mais prestígio social, passou a vestir-se como um deles, com túnica de seda e barba comprida, hábito que manteria pelo resto da vida.
Esse método, batizado décadas depois de "acomodação" ou inculturação, previa não impor vocabulário e liturgia latinos, mas buscar pontes entre a doutrina cristã e a ética confuciana — um exemplo célebre é o próprio termo chinês escolhido por Ricci para Deus, "Tianzhu" (Senhor do Céu), e sua obra O Verdadeiro Significado do Senhor do Céu (Tianzhu Shiyi), de 1603, que discute filosofia e religião em forma de diálogo com um letrado chinês fictício. Ricci também usou sua formação científica como porta de entrada: apresentou relógios mecânicos, prismas, instrumentos astronômicos e, sobretudo, em 1602, produziu a Kunyu Wanguo Quantu ("Mapa Completo de Miríades de Países"), o primeiro mapa-múndi em estilo europeu impresso em chinês e a primeira representação cartográfica a apresentar as Américas ao público chinês — um objeto de fascínio na corte que abriu portas que a pura pregação jamais teria aberto.
Após anos de tentativas e recuos, viajando entre Zhaoqing, Nanchang e Nanquim, Ricci obteve em janeiro de 1601 autorização para entrar na Cidade Proibida de Pequim e apresentar-se à corte do imperador Wanli, da dinastia Ming, que ficou fascinado sobretudo pelos relógios mecânicos ocidentais que os jesuítas trouxeram de presente. Embora nunca tenha sido recebido pessoalmente pelo imperador, Ricci obteve permissão para residir na capital com um estipêndio imperial, tornando-se o primeiro europeu a viver de modo estável e reconhecido dentro do círculo próximo do poder chinês; ali converteu figuras influentes da burocracia mandarinal, entre elas o matemático e alto funcionário Xu Guangqi, batizado Paulo, com quem traduziu para o chinês os primeiros seis livros dos Elementos de Euclides.
Xu Guangqi, o oficial e cartógrafo Li Zhizao (batizado Leão) e o magistrado Yang Tingyun (batizado Miguel) tornaram-se conhecidos na tradição católica chinesa como os "três grandes pilares" do catolicismo no país, cada um usando sua posição na elite letrada para proteger e divulgar a nova fé e as obras científicas que os jesuítas traziam consigo; foi com a colaboração técnica de Li Zhizao, aliás, que Ricci preparou a terceira e a quarta edições, ampliadas, de seu mapa-múndi em 1603 e 1604.
Ricci morreu em Pequim em 11 de maio de 1610, aos 57 anos, e o imperador concedeu-lhe uma honra até então inédita para um estrangeiro: um terreno para sepultamento em solo chinês, hoje preservado dentro do campus da Escola do Partido Comunista em Pequim. É considerado o fundador das missões católicas modernas na China e o método de inculturação que desenvolveu tornou-se, décadas mais tarde, o centro da célebre "controvérsia dos ritos chineses", quando outras ordens questionaram em Roma se as adaptações rituais e terminológicas de Ricci — como permitir a veneração de ancestrais e de Confúcio — comprometiam a doutrina católica; a disputa, que se estendeu por todo o século XVIII, terminou com a proibição das práticas por Roma em 1704 e 1742, um golpe que enfraqueceu profundamente a presença católica na China por gerações. Sua causa de canonização avançou lentamente: em 2022 o papa Francisco reconheceu suas virtudes heroicas, declarando-o Venerável.
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