Missões
Ad Gentes (Decreto Conciliar sobre a Atividade Missionária)
Decreto do Concílio Vaticano II que reafirma a natureza intrinsecamente missionária da Igreja e estabelece as bases da moderna teologia da missão.
- Tipo
- Conceito
- Século
- século XX
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O decreto Ad Gentes ("Para as Nações", das primeiras palavras do texto latino) foi um dos últimos documentos promulgados pelo Concílio Vaticano II, aprovado por 2.394 votos a favor contra apenas cinco contrários e assinado pelo papa Paulo VI em 7 de dezembro de 1965, véspera do encerramento solene do Concílio. Sua redação final foi precedida por um percurso conturbado: um primeiro esquema apresentado em 1962 foi considerado fraco demais e devolvido para reelaboração, e somente na quarta e última sessão conciliar, sob a coordenação de uma comissão que incluiu peritos como o então jovem teólogo Joseph Ratzinger, o texto ganhou a densidade teológica que o tornaria referência duradoura sobre a natureza missionária da Igreja.
Até o Concílio, o governo romano da atividade missionária cabia sobretudo à Sagrada Congregação de Propaganda Fide, criada em 1622 pelo papa Gregório XV — o mesmo ano em que Gregório XV canonizou Francisco Xavier — como órgão centralizado para coordenar e supervisionar toda a evangelização em territórios não cristãos; Ad Gentes não aboliu essa estrutura administrativa (hoje Dicastério para a Evangelização dos Povos), mas forneceu-lhe, mais de três séculos depois, uma fundamentação teológica sistemática que antes lhe faltava.
O núcleo teológico do documento está já no primeiro parágrafo: a Igreja é "missionária por sua própria natureza" ("Ecclesia... natura sua missionaria est"), pois tem origem na missão do Filho e do Espírito Santo enviados pelo Pai, segundo o desígnio de Deus de reunir toda a humanidade dispersa pelo pecado. Essa afirmação foi uma virada em relação a formulações anteriores que tratavam a missão como uma atividade entre outras da Igreja, delegada a especialistas ou ordens religiosas específicas: para o Concílio, a atividade missionária ad gentes decorre diretamente da identidade da Igreja como "sacramento universal de salvação", sinal e instrumento da união íntima com Deus e da unidade de todo o gênero humano.
O decreto está estruturado em seis capítulos. O primeiro apresenta os princípios doutrinais, enraizando a missão na própria vida trinitária de Deus e no mandato de Cristo aos apóstolos ("ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações"); o segundo, "A obra missionária em si mesma", desce ao concreto — o testemunho de vida cristã, a pregação e reunião do povo de Deus, a formação da comunidade cristã e a atividade de caridade que devem acompanhar todo anúncio evangelizador. Os capítulos seguintes tratam das igrejas particulares que devem nascer e amadurecer em território de missão até se tornarem plenamente responsáveis por si mesmas (capítulo III), dos missionários propriamente ditos, sua vocação e formação espiritual e técnica (capítulo IV), da organização da atividade missionária, incluindo o papel de dicastérios romanos e da cooperação entre bispos e institutos religiosos (capítulo V), e por fim da cooperação de toda a Igreja com a missão — bispos, sacerdotes, religiosos e, de modo explícito e então relativamente novo para um documento conciliar, dos leigos, chamados a colaborar ativamente na evangelização dos povos (capítulo VI).
Entre as afirmações mais discutidas do documento, no número 11, está o reconhecimento de que "sementes do Verbo" (semina Verbi) e elementos de verdade e graça podem estar presentes nas tradições religiosas e culturais dos povos ainda não evangelizados — ideia que, sem diluir a necessidade do anúncio explícito de Cristo, abriu caminho para uma valorização mais positiva do diálogo inter-religioso e da inculturação nas décadas seguintes. O decreto também insiste que a atividade missionária deve respeitar a liberdade de consciência das pessoas e adaptar-se, sem perder a fidelidade doutrinal, aos valores culturais autênticos de cada povo — uma reflexão que dialoga diretamente com a prática histórica de missionários como Matteo Ricci ou José de Anchieta, ainda que sem citá-los nominalmente.
A recepção de Ad Gentes ao longo das décadas seguintes foi ambígua: parte da reflexão pós-conciliar, influenciada também pela constituição Gaudium et Spes e pela ênfase no diálogo inter-religioso, levou alguns teólogos a relativizar a urgência da missão ad gentes explícita; foi em parte para reafirmar essa urgência, vinte e cinco anos depois, que o papa João Paulo II publicou em 1990 a encíclica Redemptoris Missio, que se apresenta explicitamente como atualização e reafirmação dos princípios de Ad Gentes diante de um mundo que mudara profundamente desde o Concílio. Até hoje, Ad Gentes permanece o documento de referência oficial da Igreja Católica sobre os fundamentos teológicos, os métodos e a organização institucional da atividade missionária ad gentes.
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