Missões
Redemptoris Missio
Encíclica de São João Paulo II sobre a validade permanente do mandato missionário da Igreja, publicada 25 anos após o decreto conciliar Ad Gentes.
- Tipo
- Conceito
- Século
- século XX
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Publicada em 7 de dezembro de 1990 — data escolhida deliberadamente para coincidir com o vigésimo quinto aniversário do decreto conciliar Ad Gentes e o décimo quinto da exortação apostólica Evangelii Nuntiandi de Paulo VI —, a encíclica Redemptoris Missio ("A Missão do Redentor"), oitava do pontificado de João Paulo II, traz como subtítulo "sobre a validade permanente do mandato missionário" e nasceu de uma preocupação pastoral concreta do papa: a percepção de que, dentro da própria Igreja, crescia um certo desânimo ou relativização quanto à urgência de evangelizar povos que ainda não conheciam Cristo, alimentada por correntes teológicas que valorizavam o diálogo inter-religioso a ponto de questionar se o anúncio explícito do Evangelho ainda seria necessário ou mesmo legítimo num mundo plural.
O documento se abre reafirmando que a missão de Cristo Redentor, confiada por Ele à Igreja, "está ainda longe de sua plena realização": ao aproximar-se do fim do segundo milênio cristão, argumenta João Paulo II, um panorama de conjunto da humanidade mostra que a evangelização mundial está ainda em seus começos, e que seria um erro considerar a tarefa missionária concluída ou dispensável. Um dos contributos mais citados e duradouros da encíclica é a distinção clara entre três situações pastorais diferentes que a Igreja enfrenta simultaneamente: a missão ad gentes propriamente dita, dirigida a povos, grupos humanos e contextos socioculturais onde Cristo e seu Evangelho ainda não são conhecidos ou onde não existem comunidades eclesiais suficientemente maduras para viver e anunciar a fé por si mesmas; a cura pastoral ordinária, exercida junto a comunidades cristãs já dotadas de estruturas eclesiais sólidas e adequadas; e a chamada "nova evangelização", voltada a grupos de batizados que se afastaram da fé viva ou nunca chegaram a professá-la de modo pessoal e maduro, sobretudo em regiões de cristandade antiga secularizadas.
João Paulo II insiste que essas três situações, embora distintas, não são estanques nem hierarquizadas de modo simplista, mas que a primeira delas — a missão ad gentes — mantém uma prioridade e uma urgência que nenhuma das outras substitui, e alerta contra a tendência, que percebia crescer em setores da Igreja pós-conciliar, de dissolver essa especificidade sob o argumento de que "toda a Igreja é sempre missionária" em sentido genérico. Ao mesmo tempo, a encíclica dedica um capítulo importante ao Espírito Santo como "protagonista principal de toda a missão eclesial", presente e ativo não apenas na Igreja mas, de modos misteriosos, também na vida de pessoas, culturas e religiões fora dela — fundamento teológico que a encíclica usa para valorizar positivamente o diálogo inter-religioso sem, contudo, abrir mão da convicção de que a plenitude da revelação e da salvação se encontra unicamente em Jesus Cristo.
O texto está organizado em oito capítulos, com títulos que resumem bem seu percurso argumentativo: "Jesus Cristo, único Salvador", "O Reino de Deus", "O Espírito Santo, protagonista da missão", "Os imensos horizontes da missão ad gentes", "Os caminhos da missão", "Os responsáveis e agentes da pastoral missionária", "A cooperação na atividade missionária" e, por fim, "A espiritualidade missionária" — estrutura que vai da fundamentação cristológica e pneumatológica até a dimensão mais prática e espiritual do envio missionário.
O documento aborda ainda, no interior desses capítulos, os diversos "caminhos da missão" — o simples testemunho de vida, o primeiro anúncio explícito de Cristo, a conversão e o batismo, a formação de comunidades eclesiais locais, a inculturação do Evangelho nas diferentes culturas, o diálogo com seguidores de outras religiões e a promoção humana e do desenvolvimento integral dos povos como dimensão inseparável do anúncio evangélico. Trata também longamente dos "agentes" da atividade missionária — bispos, sacerdotes fidei donum, religiosos e religiosas, institutos missionários, leigos e voluntários — e da espiritualidade própria exigida do missionário, marcada pela docilidade ao Espírito, pelo amor apostólico à semelhança de Paulo e por uma santidade que a encíclica considera pressuposto indispensável, e não acessório, de qualquer ação evangelizadora eficaz.
Redemptoris Missio tornou-se, desde sua publicação, um dos textos de referência mais citados da missiologia católica contemporânea, sendo estudado em seminários e institutos missionários do mundo todo e frequentemente invocado em documentos posteriores — inclusive na exortação apostólica Evangelii Gaudium do papa Francisco (2013), que retoma e desenvolve vários de seus temas centrais, como a alegria do anúncio, a inculturação e a atenção aos mais pobres como destinatários privilegiados da missão.
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