Ciência e Fé
Observatório Vaticano
Instituto científico da Santa Sé dedicado à pesquisa astronômica, hoje sediado em Castel Gandolfo e com telescópio no Arizona (EUA), conduzido por jesuítas.

- Tipo
- Instituição
- Área
- astronomia
- Século
- XVI (origem em 1582); refundado em 1891
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As origens do Observatório Vaticano remontam ao século XVI. Em 1578, o papa Gregório XIII mandou erguer no Vaticano uma torre — projetada pelo arquiteto bolonhês Ottaviano Mascherino e concluída por volta de 1580 — para abrigar os estudos que embasariam a reforma do calendário juliano então em vigor. Foi o jesuíta Christoph Clavius, do Colégio Romano, quem sugeriu o novo sistema de observações; a torre, de cerca de 73 metros, recebeu uma linha meridiana traçada por Ignazio Danti, cujas leituras comprovaram o erro do cômputo antigo. O resultado foi promulgado em 1582 como o calendário gregoriano, hoje adotado universalmente, e a Torre dos Ventos (ou Torre Gregoriana) permanece um dos símbolos mais antigos do vínculo entre a Santa Sé e a astronomia. A essa primeira tradição seguiram-se, ainda sob patrocínio papal, o Observatório do Colégio Romano (1774-1878), o Observatório do Capitólio (1827-1870) e uma Specola Vaticana na própria Torre dos Ventos (1787-1821).
A continuidade dessa tradição esteve seriamente ameaçada no século XIX. O observatório do Colégio Romano, dirigido a partir de cerca de 1850 pelo padre Angelo Secchi — pioneiro da espectroscopia astronômica, primeiro a classificar as estrelas segundo seu espectro e um dos primeiros a afirmar com autoridade que o Sol é uma estrela —, viu-se sob risco de confisco após a anexação de Roma ao Reino da Itália em 1870, quando o novo Estado italiano declarou o prédio do colégio propriedade pública. Por respeito a seu trabalho, Secchi foi autorizado a seguir usando o observatório até sua morte, em 1878, mas o governo italiano tomou posse definitiva das instalações logo depois, rebatizando-as Observatório Real do Colégio Romano e deixando a Santa Sé sem instituição astronômica própria por mais de uma década.
Foi para sanar esse vácuo — e num contexto em que a Igreja enfrentava a difundida acusação de hostilidade à ciência, memória ainda viva do caso Galileu — que o papa Leão XIII decidiu dar à instituição uma base permanente. Em 14 de março de 1891, publicou o motu proprio «Ut Mysticam», que refundou formalmente o observatório sob o nome de Specola Vaticana e o instalou numa elevação atrás da Basílica de São Pedro. Para dirigi-lo, chamou o padre barnabita Francesco Denza, meteorologista de renome e fundador da Sociedade Meteorológica Italiana, que concebeu a Specola não apenas como centro de astronomia, mas também de meteorologia, sismologia e magnetismo terrestre. Um dos primeiros projetos internacionais em que a instituição se envolveu foi o levantamento fotográfico do céu conhecido como Carte du Ciel, empreendido em colaboração com observatórios de vários países, e em 1893 seu equipamento foi enriquecido com um heliógrafo, telescópio concebido para fotografar o Sol.
O crescimento urbano e a iluminação elétrica cada vez mais intensa de Roma tornaram progressivamente inviável observar dali estrelas de brilho tênue. Diante desse obstáculo — agravado, segundo os relatos da própria instituição, ainda na década de 1920 —, o papa Pio XI ofereceu como nova sede sua residência de verão em Castel Gandolfo, nos montes Albanos, a cerca de 22 quilômetros a sudeste de Roma. O projeto foi confiado à firma Carl Zeiss, de Jena, com o objetivo de dotar o observatório de instrumentos de ponta; as obras começaram em 1932 e foram concluídas em 1935. Em 29 de setembro de 1935, na véspera de sua partida de Castel Gandolfo, Pio XI inaugurou solenemente a nova sede na presença do secretário de Estado, cardeal Pacelli (futuro Pio XII), do cardeal Bisleti e de numerosos dignitários e cientistas. Inspirando-se nos Reis Magos, deu ao observatório o lema «Deum Creatorem, venite adoremus» — «Vinde, adoremos a Deus Criador». A partir dessa reforma, a direção passou a ser confiada de modo permanente à Companhia de Jesus. O laboratório de astrofísica criado então iniciou suas atividades pela análise espectroquímica da coleção de meteoritos do observatório e depois se especializou na produção de espectros de referência, fundamentais à pesquisa espectroscópica; a produção de atlas espectrais, sobretudo do arco do ferro, granjeou renome internacional à instituição. A ênfase crescente no estudo de estrelas variáveis foi tal que uma classe particular delas passou a ser chamada de «Vatican Variables».
Décadas mais tarde, o mesmo problema voltou a se impor, agravado pela necessidade de instrumentos de maior abertura: em parceria com o Observatório Steward, da Universidade do Arizona, a Specola concebeu o Telescópio Vaticano de Tecnologia Avançada (VATT, sigla de Vatican Advanced Technology Telescope). Conhecido oficialmente como Telescópio Alice P. Lennon e sua Instalação de Astrofísica Thomas J. Bannan, trata-se de um telescópio gregoriano aplanático de 1,83 m de diâmetro primário e distância focal de 16,48 m, com inovador espelho primário em borossilicato de construção alveolar e razão focal f/1,0 — configuração «rápida» que permite foco excepcionalmente nítido em todo o campo. A limpeza do terreno no Monte Graham iniciou-se em 1990 e o telescópio obteve sua «primeira luz» em setembro de 1993, seguindo-se a dedicação no mesmo mês; ele integra o Observatório Internacional do Monte Graham, a 3.178 m de altitude. Desde então, os astrônomos jesuítas do Vaticano dividem o ano entre a Itália e os Estados Unidos, mantendo em Castel Gandolfo a sede histórica, uma biblioteca que reúne obras originais de Copérnico, Galileu, Newton e Kepler e uma das mais importantes coleções de meteoritos do mundo — cerca de 1.200 espécimes que representam aproximadamente 500 quedas distintas e somam mais de 150 kg de material extraterrestre. O embrião dessa coleção foi a doação de 104 exemplares feita em 1907 pelo nobre francês Adrien-Charles, marquês de Mauroy, ampliada em 1912 e, em 1935, pelo legado de sua viúva, Marie Caroline Eugénie, que doou quase um milhar de peças.
A Specola dedica-se hoje a pesquisas em evolução estelar, cosmologia, meteorítica e história da astronomia, e mantém desde 1986 a Escola de Verão do Observatório Vaticano (VOSS), que forma jovens astrônomos vindos de países em desenvolvimento de todos os continentes. Entre seus diretores mais conhecidos estão o padre George Coyne, que chefiou a instituição de 1978 a 2006 e conduziu o projeto do VATT, e o irmão jesuíta Guy Consolmagno, cientista planetário e ex-curador da coleção de meteoritos, nomeado diretor pelo papa Francisco em 2015. A sede do Vaticano funciona como obra oficial do Estado da Cidade do Vaticano e reúne cerca de uma dezena de sacerdotes e irmãos jesuítas e diocesanos de quatro continentes. Em 2023, as cúpulas históricas do palácio pontifício de Castel Gandolfo foram reabertas ao público. Para sustentar financeiramente as pesquisas e os programas educativos ligados ao braço norte-americano, foi criada em 1986, no Arizona, a Vatican Observatory Foundation, entidade sem fins lucrativos que capta doações privadas para custear equipamentos, bolsas e a manutenção do telescópio — modelo que permitiu à Specola manter, ao longo das últimas décadas, um dos poucos programas de pesquisa astronômica do mundo conduzidos por uma instituição religiosa em pé de igualdade com centros universitários seculares.
Fontes
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