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Catálogo de consulta · fé, doutrina e vida católica

CompêndioCatólico

Ciência e Fé

Pontifícia Academia das Ciências

Academia científica da Santa Sé que reúne oitenta cientistas de todo o mundo, católicos e não católicos, para o estudo e a promoção das ciências.

Tipo
Instituição
Área
ciências naturais
Século
XVII (origem em 1603); atual denominação desde 1936

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A origem da Pontifícia Academia das Ciências remonta a 17 de agosto de 1603, quando o jovem nobre romano Federico Cesi, então com dezoito anos, fundou em Roma, com o incentivo do papa Clemente VIII, a Accademia dei Lincei (Academia dos Linces), ao lado de Giovanni Heck, Francesco Stelluti e Anastasio de Filiis — nome inspirado na visão aguçada do lince, escolhido para simbolizar a acuidade que a ciência exige. Considerada a primeira academia científica do mundo dedicada exclusivamente ao estudo da natureza, contou entre seus primeiros e mais ilustres membros com Galileu Galilei. A data exata de sua admissão diverge entre as fontes: a própria Pontifícia Academia das Ciências registra 25 de agosto de 1610, enquanto outras instituições apontam a primavera de 1611, durante sua visita a Roma. Galileu adotou a assinatura «Galileo Galilei Linceo» e figurou como centro intelectual da agremiação, cujas publicações mais célebres foram suas próprias obras, como as «Cartas sobre as manchas solares» (1613) e «O Ensaiador» (1623). A morte prematura de Cesi, em 1630 — sem herdeiro que sustentasse financeiramente a instituição, que ele custeava com recursos próprios — levou a Accademia dei Lincei original a se dissolver em meados do século XVII.

A ideia de uma academia papal de ciências ressurgiu ao longo do século XIX: o papa Pio IX refundou-a em 1847 sob o nome de Pontificia Accademia dei Nuovi Lincei (Academia Pontifícia dos Novos Linces), e Leão XIII ampliou-a em 1887. Em 1922, a instituição foi instalada em sua sede atual, a Casina Pio IV, elegante vila renascentista erguida no século XVI nos Jardins Vaticanos para o papa Pio IV. Somente em 28 de outubro de 1936, porém, por meio do motu proprio «In multis solaciis», o papa Pio XI deu à instituição sua configuração e denominação atuais — Pontificia Academia Scientiarum —, dotando-a de novos estatutos. Não se tratou de simples mudança de nome: a Academia recebeu um novo corpo de membros, escolhido entre os cientistas mais proeminentes da época, e a missão de constituir-se em «Senado científico» da Igreja Católica. Desde então, ela é juridicamente distinta da atual Accademia Nazionale dei Lincei, entidade civil italiana que herdou o mesmo nome histórico. O texto estatutário determina que os acadêmicos sejam escolhidos «sem qualquer discriminação étnica ou religiosa», cláusula que a instituição cita como fundamento de sua abertura a cientistas de todas as crenças e nacionalidades.

Inicialmente composta por oitenta acadêmicos, dos quais setenta nomeados em caráter vitalício, a Academia teve esse número elevado pelo papa João Paulo II em 1986, que fixou em oitenta os membros vitalícios, ao lado de um número limitado de acadêmicos honorários e de membros em razão do cargo que ocupam — entre eles o próprio diretor do Observatório Vaticano. Os estatutos foram atualizados por Paulo VI em 1976 e novamente por João Paulo II em 1986. Os acadêmicos são eleitos pelo próprio corpo e nomeados oficialmente pelo papa, sem qualquer exigência de credo. Justamente por não impor barreiras confessionais a seus membros, a Academia reuniu ao longo do século XX e no atual uma parcela expressiva dos maiores nomes da ciência mundial. Sua lista de membros inclui cientistas como Ernest Rutherford, Guglielmo Marconi, Max Planck, Niels Bohr, Werner Heisenberg, Paul Dirac, Erwin Schrödinger, Alexander Fleming, Max Perutz e John Eccles — muitos deles nomeados acadêmicos ainda antes de receberem o Nobel, e hoje estima-se em cerca de noventa o número de laureados com o Nobel que passaram pela instituição. Entre os membros plenos figuraram também cientistas declaradamente agnósticos ou ateus, como o físico britânico Stephen Hawking, que participou de diversas sessões plenárias no Vaticano. O Brasil conta com representantes entre seus acadêmicos, entre eles o físico Vanderlei Salvador Bagnato, do Instituto de Física de São Carlos da USP.

O trabalho da Academia organiza-se em torno de grandes áreas temáticas — ciência fundamental, ciência e tecnologia aplicadas a problemas globais, ciência para os desafios do mundo em desenvolvimento, política científica, bioética e epistemologia —, refletindo a ambição de servir tanto à pesquisa de ponta quanto às urgências práticas da humanidade. Como órgão consultivo científico da Santa Sé, sem qualquer pretensão de autoridade magisterial sobre questões de fé, organiza sessões plenárias, semanas de estudo e conferências sobre temas que vão da física fundamental à genética, da cosmologia às mudanças climáticas e à bioética, produzindo documentos e recomendações dirigidos ao papa e à opinião pública. Coube a ela, por exemplo, receber e discutir em 1992 as conclusões da comissão presidida pelo cardeal Paul Poupard sobre o processo movido contra Galileu Galilei, ocasião em que João Paulo II reconheceu publicamente os erros cometidos pelos julgadores do cientista italiano; e foi também perante seus membros que o mesmo papa, em 1996, reconheceu que a teoria da evolução biológica dispunha já de convergência de evidências suficiente para ser considerada «mais que uma hipótese». Em 1994, João Paulo II criou, ao lado dela e também sediada na Casina Pio IV, uma instituição irmã dedicada às ciências humanas — a Pontifícia Academia das Ciências Sociais —, ampliando o modelo de diálogo direto entre a Santa Sé e especialistas de todas as origens religiosas e filosóficas.

Entre seus presidentes figuram o frade franciscano e psicólogo Agostino Gemelli, fundador da Universidade Católica do Sagrado Coração de Milão, que chefiou a Academia desde a refundação, em 28 de outubro de 1936, até sua morte, em 15 de julho de 1959; o padre Georges Lemaître, formulador da hipótese do átomo primordial, que a presidiu de 19 de março de 1960 a 20 de junho de 1966; o jesuíta irlandês Daniel J. K. O'Connell (1968-1972); o brasileiro Carlos Chagas Filho, neurofisiologista e filho do descobridor da doença de Chagas (1972-1988); o químico italiano Giovanni Battista Marini-Bettòlo (1988-1993); o físico Nicola Cabibbo (1993-2010); e o microbiologista suíço Werner Arber, ganhador do Nobel de Medicina e cristão reformado, que em 2010 se tornou o primeiro presidente não católico da história da instituição — escolha que ilustra bem o caráter deliberadamente não confessional que a Academia assumiu desde sua refundação em 1936. Desde 2017 a preside o economista agrícola alemão Joachim von Braun.

Fontes

(11)
  • https://www.pas.va/en/about.html
  • https://www.pas.va/en/about/history.html
  • https://www.pas.va/en/about/council.html
  • https://www.pas.va/en/events/1936/final_session.html
  • https://www.pas.va/content/dam/casinapioiv/pas/pdf-volumi/acta/acta17pas.pdf
  • https://www.pas.va/content/dam/casinapioiv/pas/pdf-volumi/extra-series/es40pas.pdf
  • https://en.wikipedia.org/wiki/Pontifical_Academy_of_Sciences
  • https://en.wikipedia.org/wiki/Accademia_dei_Lincei
  • https://inters.org/pontifical-academy-sciences
  • https://council.science/member/vatican-city-state-pontificia-academia-scientiarum
  • https://galileo.library.rice.edu/gal/lincei.html

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