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Ciência e Fé

Roger Bacon

Frade franciscano inglês do século XIII que defendeu a observação e a experimentação como fundamento do conhecimento da natureza, a chamada scientia experimentalis, precursor do método científico.

Roger Bacon
Tipo
Cientista
Área
filosofia natural
Século
XIII

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Roger Bacon nasceu por volta de 1214 ou 1220 na região inglesa de Ilchester, no Somerset — a data exata é incerta, pois a única indicação deixada por ele, numa passagem do Opus Tertium, é a de que “quarenta anos passaram desde que aprendi o alfabeto”, referência ambígua ao próprio alfabeto ou aos estudos elementares do trivium. Veio de família de posses, o que lhe permitiu financiar generosamente seus estudos e, mais tarde, dispendiosos experimentos científicos e a aquisição de manuscritos raros. Estudou e lecionou como mestre em Oxford e depois na Universidade de Paris, então o centro intelectual mais prestigiado da cristandade latina, onde comentou amplamente as obras de Aristóteles recém-traduzidas e difundidas no Ocidente. Por volta de 1247, sua atenção voltou-se decisivamente para a pesquisa experimental e para as línguas e os textos gregos e árabes sobre ótica. De volta à Inglaterra, ingressou por volta de 1256-1257 na Ordem dos Frades Menores fundada por São Francisco de Assis, decisão que, paradoxalmente, restringiu por algum tempo sua liberdade intelectual: superiores franciscanos desconfiados de seus interesses em alquimia, astrologia e línguas orientais chegaram a proibir a circulação de seus escritos sem autorização prévia da ordem.

Foi justamente contornando essa vigilância interna que Bacon produziu, entre 1266 e 1268, sua obra mais influente. Em julho de 1266 recebeu um mandato papal que o instava a enviar seus trabalhos, e no prazo de cerca de dezoito meses redigiu o Opus Majus (“Grande Obra”), escrito a pedido direto do papa Clemente IV — antigo cardeal Guy le Gros de Foulque, que fora legado papal na Inglaterra e se impressionara por sua erudição. Bacon enviou o volumoso manuscrito a Roma por volta de 1267-68, seguido de sínteses menores, o Opus Minus e o Opus Tertium. O tratado, de cerca de 878 páginas, dividia-se em sete partes e propunha uma ampla reforma dos estudos, incorporando o conhecimento de línguas e das ciências — então ausentes das universidades — ao currículo filosófico e teológico; sua sexta parte, De scientia experimentalis, é a que mais o consagraria. A morte de Clemente IV, em 1268, no entanto, interrompeu o que poderia ter sido uma recepção oficial de suas propostas, e o próprio papa provavelmente não chegou a ler tudo o que recebera.

No Opus Majus e em obras complementares, Bacon defendeu com veemência incomum para sua época que a observação direta da natureza e a experimentação controlada — e não apenas a autoridade de textos antigos comentados e recompilados — deveriam fundamentar o conhecimento científico, formulando para esse método a expressão scientia experimentalis. Insistiu ainda na aplicação da matemática à física e à ótica, campo em que produziu estudos pioneiros sobre lentes, espelhos e a natureza da luz, e chegou a especular sobre a construção futura de lentes corretivas de visão, embarcações movidas sem remadores, carruagens motorizadas e máquinas voadoras. Suas ideias sobre a luz e a perspectiva tiveram influência duradoura: a perspectiva acabou incorporada como matéria ao quadrivium universitário. Dedicou-se também ao estudo da alquimia, então indissociável da química nascente, e é geralmente citado como o primeiro europeu a registrar por escrito, com razoável precisão, a fórmula da pólvora — composto de origem chinesa que começava a circular no Ocidente medieval, embora Bacon não tenha tido qualquer papel em sua invenção original, ocorrida na China. Ganhou por sua vasta erudição o epíteto tardio e simbólico de Doctor Mirabilis (“Doutor Admirável”), título que, ao contrário do que se costuma supor, não correspondia a um grau acadêmico formal, mas a um reconhecimento póstumo de sua excepcionalidade intelectual; sua fama póstuma foi tamanha que o cercou de lendas, como a do autômato de bronze capaz de falar.

Sua relação com a hierarquia de sua própria ordem voltou a se deteriorar depois da morte de Clemente IV. Por volta de 1271, redigiu o polêmico Compendium Studii Philosophiae, atacando duramente teólogos e mestres de seu tempo. A tradição afirma que, entre 1277 e 1279, ele foi condenado ou posto sob reclusão disciplinar pelos superiores franciscanos por “suspected novelties” (suspeita de novidades doutrinais), possivelmente por ordem do Ministro Geral Jerônimo de Ascoli, futuro papa Nicolau IV — episódio situado no contexto das condenações de 1277, que proibiram o ensino de certas doutrinas filosóficas, inclusive a astrologia determinista. A fonte mais antiga dessa informação é uma crônica franciscana redigida cerca de oitenta anos após sua morte, e a historiografia recente discute se houve de fato uma prisão formal ou apenas uma restrição de liberdade, além de debater quais teriam sido as proposições condenadas. Morreu por volta de 1292, tendo permanecido por séculos como figura relativamente marginal na história da filosofia, ofuscado por pensadores posteriores como Copérnico, Descartes e seu homônimo bem mais tardio Francis Bacon — até que historiadores da ciência dos séculos XIX e XX o recuperassem como um dos primeiros e mais lúcidos defensores medievais daquilo que se tornaria, com o tempo, o método experimental moderno, ainda que estudiosos atuais lembrem que boa parte de seu saber “experimental” provinha de livros da tradição escolástica.

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Fontes

  • https://plato.stanford.edu/archives/spr2015/entries/roger-bacon/ (Stanford Encyclopedia of Philosophy, verbete 'Roger Bacon')
  • https://www.britannica.com/biography/Roger-Bacon
  • https://en.wikipedia.org/wiki/Roger_Bacon
  • https://en.wikipedia.org/wiki/Opus_Majus
  • https://www.aip.org/library/roger-bacons-optics

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