Ciência e Fé
Nicolau Copérnico
Cônego polonês e astrônomo que formulou a teoria heliocêntrica; o achado de seu túmulo em Frombork (2005) e o decreto do Índex de 1616 marcam a história de sua obra.

- Tipo
- Cientista
- Área
- astronomia
- Século
- XV-XVI
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Nascido em Toruń, cidade da Prússia Real polonesa, em 19 de fevereiro de 1473, Nicolau Copérnico ficou órfão de pai ainda criança e foi criado sob a tutela de um tio materno, Lucas Watzenrode, futuro bispo de Warmia, que costeou e orientou toda a sua formação. Ingressou em 1491 na Universidade de Cracóvia, onde estudou artes liberais, matemática e astronomia, e seguiu depois para a Itália, então centro do renascimento cultural europeu, matriculando-se em direito canônico na Universidade de Bolonha — onde conviveu de perto com o astrônomo Domenico Maria Novara, que o iniciou nas críticas ao sistema geocêntrico ptolomaico então dominante — e completando estudos de medicina em Pádua antes de doutorar-se em direito canônico em Ferrara, em 1503. Nomeado cônego da catedral de Frauenburg (hoje Frombork, na Polônia) ainda antes de partir para a Itália, por indicação do próprio tio-bispo, Copérnico assumiu efetivamente o cargo à sua volta, exercendo-o de forma praticamente ininterrupta pelo resto da vida ao lado de funções administrativas diocesanas, da prática da medicina entre o clero e a população local, e de estudos de astronomia conduzidos a partir de um observatório improvisado numa das torres do muro fortificado que cercava o complexo catedralício.
Ainda que tenha esboçado as linhas gerais de sua teoria heliocêntrica já por volta de 1510, num pequeno manuscrito de circulação restrita conhecido como Commentariolus — cerca de quarenta páginas que circularam manuscritas entre amigos —, Copérnico levaria décadas para desenvolver e, sobretudo, decidir publicar sua obra definitiva. Consciente da controvérsia filosófica e teológica que a tese poderia suscitar — deslocar a Terra do centro do cosmos contrariava não apenas a física aristotélica então ensinada nas universidades, mas também leituras literais de certas passagens bíblicas —, adiou repetidamente a divulgação de seus cálculos, mesmo depois de o próprio papa Clemente VII ter manifestado interesse por suas ideias astronômicas já em 1533, ouvindo-as apresentadas por um secretário papal em jardins do Vaticano, e de o cardeal Nikolaus von Schönberg tê-lo instado por carta, em 1536, a publicar sua obra o quanto antes. A decisão final de publicar deveu-se sobretudo à insistência do jovem matemático luterano Georg Joachim Rheticus, que em 1539 viajou até Frauenburg para estudar diretamente com Copérnico e se tornou seu único discípulo declarado. Antes mesmo de a obra principal sair, Rheticus publicou em Danzig, em 1540, uma síntese das ideias do mestre, a Narratio prima (reeditada em Basel em 1541), que é o primeiro impresso a divulgar o heliocentrismo copernicano. O manuscrito definitivo passou ainda pelas mãos do amigo Tiedemann Giese, bispo de Kulm, antes de seguir para a tipografia de Nuremberga.
Publicada sob o título «De revolutionibus orbium coelestium» (Sobre as revoluções dos orbes celestes) e dedicada ao papa Paulo III num prefácio em que o próprio Copérnico buscava antecipar e desarmar objeções teológicas, insistindo que a obra se apoiava na matemática e não na física, a primeira edição chegou às mãos de Copérnico — segundo relato tradicional, repetido desde o século XVI — apenas horas antes de sua morte, em 24 de maio de 1543, de modo que ele talvez nunca tenha visto de fato o livro impresso. Um prefácio anônimo e não autorizado, inserido pelo teólogo luterano Andreas Osiander sem conhecimento do autor, apresentava o heliocentrismo como mera hipótese matemática de cálculo, e não como descrição literal da realidade física — artifício que ajudou a obra a circular sem maior resistência eclesiástica nas décadas seguintes, até que o debate se acirrasse no início do século XVII com Galileu Galilei e Johannes Kepler. O Index de livros proibidos só incluiria a obra em decreto de 1º de março de 1616, pela Congregação do Índex sob Paulo V, suspendendo o «De revolutionibus» «até correção» — medida ligada à condenação do heliocentrismo no processo de Galileu, e não à época da publicação. Uma segunda edição, de 1566, foi a primeira a reunir a obra de Copérnico e a Narratio prima de Rheticus.
Desconhecia-se por séculos o local exato de seu sepultamento, até que em 2005 escavações sob o piso da catedral de Frombork, guiadas por radar e próximas ao altar cuja capela lhe coubera como cônego, revelaram restos humanos atribuídos a ele. A identificação foi reforçada por análise de DNA mitocondrial que comparou um dente e um fêmur ao material genético de fios de cabelo encontrados num exemplar do «Calendarium Romanum Magnum» de Johannes Stoeffler que lhe pertencera — resultado publicado em 2009 no periódico PNAS, com base em trabalho de equipe polonesa e sueca. Em 22 de maio de 2010, os restos foram sepultados solenemente na mesma catedral, com honras eclesiásticas, num ato que simbolizou o reconhecimento tardio, pela Igreja, de um de seus próprios cônegos. O heliocentrismo copernicano tornou-se, com o tempo, um dos pilares fundadores da revolução científica moderna, dando nome ao próprio conceito de mudança radical de paradigma científico — a chamada “revolução copernicana”.
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