Catecismo · Parte 52
O Pai-Nosso: quinta petição — «Perdoai-nos as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido»
O comentário do Catecismo (nn. 2838-2845) à quinta petição do Pai-Nosso, que liga o perdão recebido de Deus à disposição de perdoar quem nos ofendeu, sem limite nem medida.

- Parte
- 52
- Parágrafos
- CIC 2838-2845
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No comentário à quinta petição do Pai-Nosso (nn. 2838-2845), o Catecismo começa por chamar esta petição «surpreendente» (n. 2838). Se comportasse apenas o seu primeiro membro — «Perdoai-nos as nossas ofensas» —, poderia estar contida nas três primeiras petições, pois o sacrifício de Cristo é «para a remissão dos pecados». Mas o segundo membro, «assim como nós perdoamos», introduz uma exigência: a nossa petição não será atendida sem que primeiro tenhamos satisfeito essa condição. A expressão «assim como», observa o texto, liga uma resposta que deve preceder a oração.
O n. 2839 descreve a petição como um recomeço: apesar de revestidos da veste baptismal, os fiéis continuam a pecar e a desviar-se de Deus. Nesta petição voltam para Ele «como o filho pródigo» e reconhecem-se pecadores «como o publicano». A oração começa por uma confissão em que «confessamos a nossa miséria e a sua misericórdia»; a esperança firme apoia-se em Cristo, «em quem temos a redenção, a remissão dos nossos pecados» (Cl 1,14), e nos sacramentos da Igreja, «sinal eficaz e indubitável do seu perdão». O Catecismo recorda ainda que o perdão é «uma força que ressuscita para uma nova vida e infunde a coragem para olhar o futuro com esperança».
A segunda parte da petição é comentada a partir do n. 2842. O «como» de Jesus não é uma injunção para imitar Deus «do exterior», mas um convite a uma participação vital, «vinda do fundo do coração», na santidade, na misericórdia e no amor de Deus. É o Espírito Santo — «que é nossa vida» (Ga 5,25) — que pode fazer nossos «os mesmos sentimentos que existiram em Cristo Jesus». A unidade do perdão torna-se então possível, «perdoando-nos mutuamente como Deus nos perdoou em Cristo» (cf. Ef 4,32). Daí o n. 2843: a oração não pode chegar ao Pai sem a disposição de perdoar; a recusa endurece o coração e o fecha ao amor misericordioso. É o Espírito que «muda a ferida em compaixão e purifica a memória, transformando a ofensa em intercessão».
Os dois parágrafos finais elevam o tema ao seu cume. O n. 2844 afirma: «O perdão é o cume da oração cristã»; vai até ao perdão dos inimigos, «transfigura o discípulo, configurando-o com o seu Mestre», e testemunha que «no nosso mundo o amor é mais forte que o pecado» — testemunho que, nota o Catecismo, os mártires dão «de ontem e de hoje». É também «condição fundamental da reconciliação» dos filhos com o Pai e dos homens entre si. O n. 2845 conclui que «não há limite nem medida para este perdão essencialmente divino», recordando que somos sempre devedores: «Não devais a ninguém coisa alguma, a não ser o amor de uns para com os outros» (Rm 13,8).
A referência ao «setenta vezes sete» de Mt 18,21-22 — a resposta de Jesus a Pedro, que perguntara quantas vezes devia perdoar — confirma que a medida do perdão cristão não é o cálculo humano, mas a própria misericórdia de Deus. O Catecismo apoia-se assim em textos primários do Novo Testamento: o Pai-Nosso de Mateus (6,12, onde se diz «dívidas») e de Lucas (11,4, onde se diz «pecados»), a parábola do servo impiedoso (Mt 18,23-35) e a exortação paulina ao perdão mútuo.
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