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Catecismo · Parte 47

O Pai-Nosso: «Pai nosso que estais nos Céus»

O comentário do Catecismo à invocação inicial do Pai-Nosso (nn. 2777-2802): a ousadia filial de chamar Deus de Pai, o sentido de «nosso» e da expressão «que estais nos Céus».

O Pai-Nosso: «Pai nosso que estais nos Céus»
Foto: brionv from San Francisco, United States — Wikimedia Commons, CC BY-SA 2.0
Parte
47
Parágrafos
CIC 2777-2802

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Antes de comentar as sete petições, o Catecismo detém-se na invocação que abre a oração dominical, sob o título «Pai nosso, que estais nos céus» (nn. 2777-2802). O texto começa pela confiança com que a Igreja se dirige a Deus: na liturgia romana, a assembleia eucarística é convidada a rezar ao Pai «com ousadia filial», e as liturgias orientais usam expressões análogas — «atrever-nos com toda a confiança», «fazei-nos dignos». Diante da sarça ardente foi dito a Moisés: «Não te aproximes. Descalça as sandálias» (Ex 3,5); esse umbral da santidade divina só Jesus podia franquear, e é Ele que, tendo realizado a purificação dos pecados (Hb 1,3), nos introduz na presença do Pai (n. 2777).

O Catecismo dá a esse impulso filial o nome grego que as liturgias do Oriente e do Ocidente consagraram: *parrhesía*, isto é, «simplicidade sem desvio, confiança filial, segurança alegre, ousadia humilde, certeza de ser amado» (n. 2778). São Pedro Crisólogo, no Sermão 71, exprime esse paradoxo: «a consciência que temos da nossa situação de escravos far-nos-ia sumir sob o chão, a nossa condição terrena dissolver-se-ia em pó, se a autoridade do próprio Pai e o Espírito do seu Filho não nos levasse a soltar este grito: "Abba, ó Pai!"» (Rm 8,15). Antes de fazer sua essa primeira palavra, o Catecismo pede que se purifique o coração de falsas imagens paternas ou maternas, pois Deus «transcende as categorias do mundo criado» e transpor para Ele as nossas ideias seria «fabricar ídolos, a adorar ou a derrubar» (n. 2779).

Passando à palavra «Pai», o texto explica que podemos invocar Deus assim porque Ele nos foi revelado pelo seu Filho feito homem e porque o Espírito no-Lo faz conhecer. A relação pessoal do Filho com o Pai — que o homem não pode conceber nem os anjos entrever — é participada pelo Espírito do Filho aos que creem em Jesus (n. 2780). A tradução «Pai» corresponde ao termo aramaico *abbâ*, que exprime a intimidade e a confiança de uma relação filial vivida por Jesus e comunicada aos discípulos.

A primeira palavra da oração é, antes de súplica, uma bênção de adoração: «a glória de Deus é que nós O reconheçamos como Pai, Deus verdadeiro» (n. 2781). O pronome «nosso» exclui toda apropriação individualista da oração: ao dizermos «Pai nosso», invocamos a Nova Aliança em Cristo, a comunhão com a Santíssima Trindade e a caridade divina que, através da Igreja, se estende às dimensões do mundo (n. 2801). Chamar Deus de Pai supõe a filiação adotiva recebida no Batismo, pelo qual somos incorporados a Cristo e feitos filhos no Filho único (n. 2798). A oração do Senhor põe-nos em comunhão com o Pai e com o Filho e, ao mesmo tempo, revela-nos a nós mesmos (n. 2799).

Quanto à expressão «que estais nos céus», o Catecismo sublinha que ela «não designa um lugar, mas a majestade de Deus e sua presença no coração dos justos». O céu, a Casa do Pai, é a verdadeira pátria para onde caminhamos e à qual já pertencemos (n. 2802): os cristãos «estão na carne, mas não vivem segundo a carne; passam a vida na terra, mas são cidadãos do céu». A oração dominical aparece, assim, integrada na Eucaristia, manifestando o caráter escatológico das suas petições, na esperança do Senhor, «até que Ele venha!» (1 Cor 11,26).

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Fontes

  • Catecismo da Igreja Católica, Quarta Parte, Seção II, Artigo 2, nn. 2777-2802 (texto oficial em vatican.va)
  • Rm 8,15; Gl 4,6; Hb 1,3; Hb 2,13; Ex 3,5; Mt 11,25-27; 1 Jo 1,3; Ef 3,12; 1 Cor 11,26
  • São Pedro Crisólogo, Sermão 71, 3 (citado no n. 2777)
  • Concílio Vaticano II, Gaudium et Spes 22 (citado no n. 2799)

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