Catecismo · Parte 46
O Pai-Nosso: «o resumo de todo o Evangelho»
A abertura do comentário do Catecismo ao Pai-Nosso (nn. 2761-2776): a tradição patrística que o chama «resumo de todo o Evangelho», sua centralidade na Escritura e seu lugar na liturgia da Igreja.

- Parte
- 46
- Parágrafos
- CIC 2761-2776
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O Catecismo inicia o comentário à oração dominical sob o título «O resumo de todo o Evangelho». A fórmula é tomada de Tertuliano, que no *De Oratione* (1,6) escreve que «a oração dominical é verdadeiramente o resumo de todo o Evangelho»; no mesmo passo, o autor africano acrescenta que, depois de nos legar essa fórmula, o Senhor nos mandou «pedir e receber» (Jo 16,24), de modo que cada um pode dirigir ao céu outras orações segundo as suas necessidades, «mas começando sempre pela oração do Senhor, que continua a ser a oração fundamental» (n. 2761).
O texto situa o Pai-Nosso «no centro da Sagrada Escritura» (n. 2762). Retomando a reflexão de Santo Agostinho — que, depois de mostrar como os Salmos convergem para as petições da oração dominical, conclui que não há nas Escrituras oração que não esteja nela contida —, o Catecismo mostra que a oração ensinada por Jesus recolhe e resume toda a oração cristã. São Tomás de Aquino, na *Summa theologiae* (II-II, q. 83, a. 9), chama-a «a mais perfeita das orações»; e o Catecismo observa que a versão transmitida por Mateus (6,9-13), mais ampla que a de Lucas (11,2-4), foi a adotada desde os primeiros séculos na liturgia e na catequese.
Diversas fontes antigas atestam o uso da oração desde a Igreja primitiva. A *Didaché* ou «Ensino dos Doze Apóstolos» (séc. I-II), no capítulo 8, ordena rezá-la «três vezes ao dia», explicitando a sua função catequética antes do Batismo; já as *Constituições Apostólicas* (7,24,1) e as homilias de São João Crisóstomo confirmam a sua presença constante na vida da comunidade. O Catecismo observa que a maior parte dos comentários patrísticos ao Pai-Nosso foi dirigida aos catecúmenos e aos neófitos, porque é o povo dos «recém-nascidos» no Batismo que ora e alcança misericórdia (n. 2769).
É chamada «Oração Dominical» porque nos vem do Senhor Jesus, mestre e modelo da nossa oração (n. 2775). O Catecismo sublinha a sua centralidade litúrgica: é a oração da Igreja por excelência, faz parte integrante das «horas» principais do Ofício Divino e dos sacramentos da iniciação cristã — Batismo, Confirmação e Eucaristia (n. 2776). Inserida na liturgia eucarística, entre a anáfora e a liturgia da comunhão, recapitula todas as petições da celebração e, ao mesmo tempo, «bate à porta do festim do Reino» que a Comunhão antecipa (n. 2770). Nessa posição manifesta também o caráter escatológico das suas petições: é a oração própria dos «últimos tempos», iniciados com a efusão do Espírito e destinados a terminar com o regresso do Senhor (n. 2771). A tradição litúrgica romana, como narram fontes devocionais, atribui a São Gregório Magno (papa de 590 a 604) a fixação do Pai-Nosso imediatamente antes da fração do pão, posição que a Missa conserva até hoje — embora o dado seja transmitido como tradição, sem documentação contemporânea inequívoca.
A Igreja reza, assim, «até que Ele venha» (1 Cor 11,26): a Eucaristia e o Pai-Nosso tendem juntos para a vinda do Senhor, e as sete petições exprimem os gemidos do tempo presente, durante o qual «ainda não se manifestou o que havemos de ser» (1 Jo 3,2).
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