Ir para o conteúdo
Compêndio CatólicoCatálogo de consulta · fé, doutrina e vida católica
Acender uma vela

Catecismo · Parte 53

O Pai-Nosso: sexta petição — «Não nos deixeis cair em tentação»

O comentário do Catecismo à sexta petição do Pai-Nosso (nn. 2846-2849), que esclarece que Deus não tenta ninguém para o mal, distingue a provação da tentação e pede o Espírito de discernimento, a vigilância do coração e a perseverança final.

O Pai-Nosso: sexta petição — «Não nos deixeis cair em tentação»
Parte
53
Parágrafos
CIC 2846-2849

Tamanho do texto

A sexta petição do Pai-Nosso, comentada nos nn. 2846-2849 do Catecismo, «atinge a raiz» da petição anterior, pois os pecados são fruto do consentimento na tentação. O Catecismo observa que traduzir com uma só palavra o termo grego do original — «me eisenénkes» — é difícil: significa «não permitas que entremos em», «não nos deixes sucumbir à tentação». O ponto teológico central é a distinção entre ser tentado e ser causa da tentação: «Deus não é tentado pelo mal, nem tenta ninguém» (Tg 1,13). O que se pede ao Pai não é que nos livre de toda prova, mas que «não nos deixe seguir pelo caminho que conduz ao pecado», no combate entre «a carne e o Espírito».

O n. 2847 desdobra esse pedido em três discernimentos. O Espírito Santo permite distinguir, primeiro, «a provação, necessária ao crescimento do homem interior» — ligada à «virtude comprovada» de que falam Lc 8,13-15, At 14,22, 2Tm 3,12 e Rm 5,3-5 — «e a tentação que conduz ao pecado e à morte» (cf. Tg 1,14-15). Segundo, entre «ser tentado» e «consentir» na tentação. Terceiro, o discernimento «desmascara a mentira da tentação»: o seu objeto parece «bom, agradável à vista, desejável» (Gn 3,6), quando na realidade o seu fruto é a morte. Aqui o Catecismo cita uma página de Orígenes, do tratado De oratione (29,15 e 17): «Deus não quer impor o bem, quer seres livres […]. Para alguma coisa serve a tentação. Ninguém, senão Deus, sabe o que a nossa alma recebeu de Deus, nem nós próprios. Mas a tentação manifesta-o para nos ensinar a conhecermo-nos e desse modo descobrir a nossa miséria e obrigar-nos a dar graças pelos bens que a tentação nos manifestou».

O n. 2848 mostra que «não entrar em tentação» implica «uma decisão do coração»: «onde estiver o teu tesouro, aí estará também o teu coração […] ninguém pode servir a dois senhores» (Mt 6,21.24). É nesse «consentimento» ao Espírito Santo que o Pai nos dá a força, conforme a promessa de São Paulo: «Deus é fiel e não permitirá que sejais tentados acima das vossas forças, mas, com a tentação, vos dará os meios de sair dela e a força para a suportar» (1Cor 10,13). O n. 2849 conclui que «tal combate e tal vitória» só são possíveis pela oração: «foi por sua oração que Jesus venceu o Tentador, desde o começo» — nas tentações do deserto (Mt 4,1-11; Mc 1,12-13) — «e no último combate da sua agonia», no Getsêmani. É a esse combate de Cristo que o fiel é unido nesta petição. O Catecismo associa então a petição à «vigilância do coração», que é a «guarda do coração»: Jesus pede ao Pai que «nos guarde em seu nome», e o Espírito Santo procura despertar-nos para ela.

A petição «adquire todo o seu sentido dramático» quando relacionada com «a tentação final do nosso combate na terra»: ela pede a perseverança final, sob a advertência do Apocalipse, «Olhai que vou chegar como um ladrão: feliz de quem estiver vigilante!» (Ap 16,15). O Compêndio do Catecismo (§ 596) sintetiza: ao pedir «não nos deixes cair em tentação», o fiel pede a Deus Pai que «não nos deixe sós e à mercê da tentação», e implora ao Espírito «a graça da vigilância e da perseverança final».

A tradução desta petição tornou-se objeto de debate público no pontificado de Francisco. Em entrevista de 2017 ao programa Padre Nostro (TV2000), o Papa afirmou que «Deus que nos induz em tentação não é uma boa tradução» e explicou: «Sou eu quem cai em tentação; não é Deus que me joga nela». A Conferência Episcopal Italiana aprovou em novembro de 2018 nova versão, «non abbandonarci alla tentazione» («não nos abandoneis à tentação»), confirmada pela Santa Sé e em uso no Missal Romano italiano desde o primeiro Domingo do Advento de 2019. A fórmula brasileira «não nos deixeis cair em tentação» já expressava proximidade com esse sentido, e a versão francesa havia passado, anos antes, de «não nos submetais à tentação» para «não nos deixeis entrar em tentação». A imagem que acompanha a entrada é o afresco Tentações de Cristo, de Sandro Botticelli (1480-1482), na Capela Sistina, no qual as três tentações do deserto figuram no registro superior da composição.

Temas relacionados

Cada tema abre a busca por ele em todas as categorias do acervo.

Fontes

  • Catecismo da Igreja Católica, Quarta Parte, Segunda Seção, Artigo 3, VI, nn. 2846-2849 (edição oficial, vatican.va)
  • Compêndio do Catecismo da Igreja Católica, § 596 (vatican.va, 2005)
  • Tg 1,13-15; 1Cor 10,13; Mt 6,21.24; Gn 3,6; Lc 8,13-15; At 14,22; 2Tm 3,12; Rm 5,3-5; Ap 16,15
  • Orígenes, De oratione, 29, 15 e 17 (citado no n. 2847)
  • Notas 133-142 do Catecismo (referências do n. 2846-2849)
  • BBC Brasil, «Por que o papa Francisco decidiu mudar um trecho do Pai Nosso em italiano» (2020)
  • Avvenire, «Non abbandonarci alla tentazione: il nuovo Padre Nostro arriva in Avvento» (2019)

Continue sua leitura

← Todas as entradas de Catecismo