Ir para o conteúdo
Compêndio CatólicoCatálogo de consulta · fé, doutrina e vida católica
Acender uma vela

Arte Sacra · Símbolo 7

O Pelicano Eucarístico

Uma lenda naturalista equivocada, fixada pelo Physiologus, sobre a ave que alimentaria os filhotes com o próprio sangue tornou-se símbolo tradicional do sacrifício eucarístico de Cristo, imortalizada no hino Adoro te devote de Tomás de Aquino.

O Pelicano Eucarístico
Workman — Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0

Tamanho do texto

O pelicano que fere o próprio peito para alimentar os filhotes com sangue é, na arte sacra, uma das mais duradouras metáforas visuais de Cristo que se entrega na Eucaristia. A crença não tem base zoológica: deriva de observação equivocada. Para alimentar a ninhada, o pelicano curva o bico longo contra o peito a fim de regurgitar o peixe capturado, e o sangue das presas mancha-lhe as penas de vermelho — dando a impressão de que rasga a própria carne. A lenda foi fixada por escrito no Physiologus, texto naturalista-teológico composto em Alexandria, no Egito, provavelmente por volta do ano 200, e escrito com finalidade de edificação cristã. Numa versão, a mãe alimenta os filhotes com seu sangue em tempo de fome; noutra, encontra-os mortos no ninho e os revive com o sangue, sacrificando a própria vida. O autor do Physiologus lia o pelicano à luz de um versículo obscuro do Salmo 101,7 da Septuaginta ("tornei-me como o pelicano do deserto"; Sl 102,6 na Vulgata), pondo na boca de Cristo essa expressão de solidão messiânica e de Paixão.

A metáfora consolidou-se na tradição patrística. Epifânio de Salamina lia no pelicano uma figura da Ressurreição e do poder vivificante do sangue de Cristo, e Jerônimo também retomou a imagem, associando-a à entrega amorosa de Cristo. João 19,34 — o lado de Cristo traspassado, do qual jorram sangue e água — forneceu o fundamento escriturístico mais direto da comparação: como observava Agostinho, a água para a purificação e o sangue para o perdão, nascendo a Igreja do lado aberto de Cristo, assim como Eva foi formada do lado de Adão adormecido. O Physiologus foi traduzido do grego para o latim entre os séculos IV e o início do VI e, dali, para o etíope, o armênio, o siríaco e uma multidão de línguas europeias e orientais; no fim do século XII, suas lendas foram absorvidas pelos bestiários, gênero de livro de história natural que combinava erudição enciclopédica e leitura moral — e assim o pelicano entrou nos vitrais góticos, nas iluminuras, nos relevos de altares e nos sacrários.

O ápice literário do símbolo está na estrofe final do hino eucarístico Adoro te devote, atribuído a Tomás de Aquino e provavelmente escrito por volta de 1260: "Pie pelicane, Iesu Domine, me immundum munda tuo sanguine, cuius una stilla salvum facere totum mundum quit ab omni scelere" — "Ó piedoso pelicano, Senhor Jesus, lava-me, impuro, com teu sangue, do qual uma só gota pode salvar o mundo inteiro de todo pecado". Ao contrário dos outros hinos compostos para a festa de Corpus Christi, instituída por Urbano IV em 1264 (como o Pange lingua e o Lauda Sion), o Adoro te devote não foi escrito para a liturgia e não figura em textos litúrgicos da época; alguns estudiosos supõem que o frade o tenha redigido para uso privado durante a Missa. Só foi incorporado ao Missal Romano em 1570. A estrofe do pelicano, designada pela abertura "Jesu pie pelicane" ou "Pie pelicane", às vezes é usada isoladamente como hino na bênção do Santíssimo Sacramento.

O pelicano aparece ainda na poesia de Dante Alighieri, que no Paraíso (canto XXV) chama Cristo de "nostro Pelicano", e na arte figurativa é sobretudo nas cenas da Crucificação que a ave costuma ser representada, entre as muitas espécies de bestiário. Em inglês, esse tipo de imagem é chamado de "pelican in her piety" (o pelicano em sua piedade) ou "vulning pelican", do latim vulnerare, "ferir", justamente porque a ave se fere para dar vida. Assim, uma observação zoológica mal compreendida converteu-se, ao longo de mais de um milênio, numa profissão de fé silenciosa na presença real de Cristo na Eucaristia.

Temas relacionados

Cada tema abre a busca por ele em todas as categorias do acervo.

Fontes

  • Physiologus (texto grego, composto em Alexandria c. 200; tradução latina entre os séc. IV e VI); leitura do Salmo 101,7 LXX / 102,6
  • Tomás de Aquino, hino Adoro te devote (c. 1260): "Pie pelicane, Iesu Domine, me immundum munda tuo sanguine..."; incorporado ao Missal Romano em 1570
  • Papa Urbano IV, instituição da festa de Corpus Christi (1264); hinos eucarísticos Pange lingua, Lauda Sion
  • Dante Alighieri, Divina Comédia, Paraíso, canto XXV (Cristo chamado "nostro Pelicano")
  • Santo Agostinho, In Iohannis Evangelium Tractatus 120,2 (sangue e água do lado aberto de Cristo; Jo 19,34)
  • The Catholic Encyclopedia (1913), verbetes "Pelican" e "Jesu Pie Pelicane Domine"
  • artandtheology.org — "The Vulning Pelican as an Allegory of Christ" (2025)
  • A12.com — "O significado do pelicano na tradição da Igreja Católica"

Continue sua leitura

← Todas as entradas de Arte Sacra