Arte Sacra · Símbolo 7
O Pelicano Eucarístico
Uma lenda naturalista equivocada, fixada pelo Physiologus, sobre a ave que alimentaria os filhotes com o próprio sangue tornou-se símbolo tradicional do sacrifício eucarístico de Cristo, imortalizada no hino Adoro te devote de Tomás de Aquino.

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O pelicano que fere o próprio peito para alimentar os filhotes com sangue é, na arte sacra, uma das mais duradouras metáforas visuais de Cristo que se entrega na Eucaristia. A crença não tem base zoológica: deriva de observação equivocada. Para alimentar a ninhada, o pelicano curva o bico longo contra o peito a fim de regurgitar o peixe capturado, e o sangue das presas mancha-lhe as penas de vermelho — dando a impressão de que rasga a própria carne. A lenda foi fixada por escrito no Physiologus, texto naturalista-teológico composto em Alexandria, no Egito, provavelmente por volta do ano 200, e escrito com finalidade de edificação cristã. Numa versão, a mãe alimenta os filhotes com seu sangue em tempo de fome; noutra, encontra-os mortos no ninho e os revive com o sangue, sacrificando a própria vida. O autor do Physiologus lia o pelicano à luz de um versículo obscuro do Salmo 101,7 da Septuaginta ("tornei-me como o pelicano do deserto"; Sl 102,6 na Vulgata), pondo na boca de Cristo essa expressão de solidão messiânica e de Paixão.
A metáfora consolidou-se na tradição patrística. Epifânio de Salamina lia no pelicano uma figura da Ressurreição e do poder vivificante do sangue de Cristo, e Jerônimo também retomou a imagem, associando-a à entrega amorosa de Cristo. João 19,34 — o lado de Cristo traspassado, do qual jorram sangue e água — forneceu o fundamento escriturístico mais direto da comparação: como observava Agostinho, a água para a purificação e o sangue para o perdão, nascendo a Igreja do lado aberto de Cristo, assim como Eva foi formada do lado de Adão adormecido. O Physiologus foi traduzido do grego para o latim entre os séculos IV e o início do VI e, dali, para o etíope, o armênio, o siríaco e uma multidão de línguas europeias e orientais; no fim do século XII, suas lendas foram absorvidas pelos bestiários, gênero de livro de história natural que combinava erudição enciclopédica e leitura moral — e assim o pelicano entrou nos vitrais góticos, nas iluminuras, nos relevos de altares e nos sacrários.
O ápice literário do símbolo está na estrofe final do hino eucarístico Adoro te devote, atribuído a Tomás de Aquino e provavelmente escrito por volta de 1260: "Pie pelicane, Iesu Domine, me immundum munda tuo sanguine, cuius una stilla salvum facere totum mundum quit ab omni scelere" — "Ó piedoso pelicano, Senhor Jesus, lava-me, impuro, com teu sangue, do qual uma só gota pode salvar o mundo inteiro de todo pecado". Ao contrário dos outros hinos compostos para a festa de Corpus Christi, instituída por Urbano IV em 1264 (como o Pange lingua e o Lauda Sion), o Adoro te devote não foi escrito para a liturgia e não figura em textos litúrgicos da época; alguns estudiosos supõem que o frade o tenha redigido para uso privado durante a Missa. Só foi incorporado ao Missal Romano em 1570. A estrofe do pelicano, designada pela abertura "Jesu pie pelicane" ou "Pie pelicane", às vezes é usada isoladamente como hino na bênção do Santíssimo Sacramento.
O pelicano aparece ainda na poesia de Dante Alighieri, que no Paraíso (canto XXV) chama Cristo de "nostro Pelicano", e na arte figurativa é sobretudo nas cenas da Crucificação que a ave costuma ser representada, entre as muitas espécies de bestiário. Em inglês, esse tipo de imagem é chamado de "pelican in her piety" (o pelicano em sua piedade) ou "vulning pelican", do latim vulnerare, "ferir", justamente porque a ave se fere para dar vida. Assim, uma observação zoológica mal compreendida converteu-se, ao longo de mais de um milênio, numa profissão de fé silenciosa na presença real de Cristo na Eucaristia.
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