Arte Sacra · Símbolo 6
O Cordeiro Pascal
Imagem bíblica que une o sacrifício do cordeiro na Páscoa judaica ao sacrifício redentor de Cristo, o "Agnus Dei", e que a liturgia romana repetiu antes da comunhão até ligá-la à rejeição de um concílio oriental.

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A imagem do Cordeiro remonta ao cordeiro pascal imolado no Êxodo, cujo sangue, aspergido nos umbrais das casas hebreias, protegia-as da décima praga (Ex 12). A prescrição era rigorosa: a carne devia ser comida na mesma noite e "não quebrareis osso algum" (Ex 12,46; cf. Nm 9,12). A figura é retomada por João Batista ao ver Jesus: "Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo" (Jo 1,29), e aplicada a Cristo por São Paulo — "Cristo, nossa Páscoa, foi imolado" (1Cor 5,7) — e por São Pedro, que fala do "Cordeiro sem mancha" e do sangue precioso da redenção (1Pd 1,19). A tradição joanina aproxima ainda o relato da Paixão do rito pascal: segundo Jo 19,14, quando Jesus foi sentenciado era a hora sexta da Parasceve (meio-dia), momento em que, no Templo, começava a imolação dos cordeiros pascais; e, ao contrário dos dois ladrões, a Jesus "não lhe quebraram as pernas" (Jo 19,33), cumprindo a antiga prescrição sobre o cordeiro.
O Apocalipse faz da figura o centro da liturgia celeste: o Cordeiro "como imolado" apresenta-se de pé diante do trono, com sete chifres e sete olhos — "que são os sete Espíritos de Deus enviados a toda a terra" (Ap 5,6) —, recebendo a adoração dos anciãos, dos seres viventes e das multidões. Assim a imagem reúne, num só símbolo, o sofrimento redentor e a vitória pascal. É esse Cordeiro imolado e vencedor que a liturgia da Missa invoca pouco antes da comunhão, no cântico "Cordeiro de Deus, que tirais o pecado do mundo".
O cântico do Agnus Dei foi introduzido na Missa de rito romano pelo Papa Sérgio I (687–701). Contexto pouco lembrado: sua difusão no Ocidente ocorre em reação ao Concílio de Trullo (o Quinissexto, de 692), cujos cânones — em especial o cânone 82 — proibiam representar Cristo sob a figura de um cordeiro, exigindo que fosse figurado em sua forma humana, como confissão da realidade da Encarnação. Sérgio I não recebeu os cânones trulanos; a fórmula desses concílios seria depois acolhida por Hadriano I e associada à defesa dos ícones. Curiosamente, o objeto da proibição oriental — o cordeiro — tornou-se, no cântico latino, o próprio título de Cristo.
Na arte sacra o motivo aparece sobretudo em altares e vitrais. O Cordeiro é habitualmente representado com o nímbo crucífero — sinal de sua condição divina e do sacrifício da cruz —, apoiado sobre o livro dos sete selos (Ap 5) ou segurando o estandarte da Ressurreição (o vexilo, em geral branco com cruz vermelha), que une a cruz à vitória pascal. Símbolo de fácil leitura para os primeiros cristãos e de profundo enraizamento bíblico, tornou-se uma das imagens mais constantes da arte sacra ocidental.
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