Arte Sacra · Símbolo 21
A Coroa de Espinhos
O sinal de zombaria imposto a Jesus antes da crucificação, transformado pela tradição cristã em símbolo de sua realeza paradoxal.

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Segundo os relatos evangélicos, os soldados romanos teceram uma coroa de espinhos e a colocaram sobre a cabeça de Jesus no pretório, aclamando-o ironicamente "Rei dos judeus" antes de o conduzirem ao Calvário (Mt 27,29; Mc 15,17; Jo 19,2). O que nasceu como instrumento de escárnio e de sofrimento físico tornou-se, na piedade e na arte cristãs, um dos símbolos mais eloquentes da Paixão: a realeza de Cristo manifestada precisamente através da entrega e do sofrimento aceitos por amor.
A mais antiga menção conhecida da coroa como relíquia venerada foi feita por São Paulino de Nola, que escreve após 409 referindo-se a ela como objeto de adoração dos fiéis (Epístola a Macário, Patrologia Latina LXI, 407). Cassiodoro, por volta de 570, conta-a entre as relíquias que eram "a glória" de Jerusalém, e São Gregório de Tours afirmava que os espinhos ainda pareciam verdes, frescor miraculosamente renovado a cada dia. O Breviário de Jerusalém (c. 530) e o itinerário de Antonino de Piacenza (século VI) indicam que a coroa era então mostrada na Basílica do Monte Sião; a peregrinação do monge Bernardo mostra que ali permanecia em 870. Entre os séculos VII e X, porém, as relíquias de Jerusalém foram sendo gradualmente transferidas para Constantinopla.
Foi de Constantinopla que a coroa passou ao Ocidente. Em crise financeira, o imperador latino Balduíno II de Courtenay penhorou a relíquia a credores venezianos; em 1239, após negociações, o rei Luís IX da França pagou 135.000 livres tournois — cerca de metade do rendimento anual do reino — para resgatá-la e trazê-la a Paris. A chegada foi celebrada com uma procissão em 19 de agosto de 1239, na qual o próprio rei caminhou descalço, sem sua coroa, carregando a relíquia até Notre-Dame. Para guardá-la, Luís IX mandou erguer a Sainte-Chapelle, consagrada em 1248, obra-prima do gótico radiante concebida como relicário monumental. Em 1241 chegaram outras relíquias da Paixão, entre elas um fragmento da Verdadeira Cruz.
Com a Revolução Francesa, o relicário foi fundido e a coroa transferida por alguns anos à Biblioteca Nacional; restituída à Igreja após a Concordata de 1801, foi depositada na Catedral de Notre-Dame em 1806. Em 1896 recebeu um novo relicário circular de cristal de rocha, com aro de prata trabalhada e pedras preciosas. Em 15 de abril de 2019, durante o incêndio que devastou Notre-Dame, a relíquia foi retirada em segurança e guardada no Louvre, voltando a Notre-Dame em cerimônia de dezembro de 2024.
Um detalhe material importante: o que hoje se conserva é um anel de juncos entrelaçados, sem qualquer espinho. Os estudiosos entendem que os soldados tenham tecido uma espécie de capacete de espinhos, mantido unido por essa faixa de juncos; os cerca de sessenta ou setenta espinhos já haviam sido separados do aro quando a relíquia chegou a Paris, sendo depois distribuídos por São Luís e seus sucessores como presentes diplomáticos — nenhum deles permanece hoje em Paris. A descrição mais antiga desse objeto vem do cronista Roberto de Clari, participante da Quarta Cruzada, que o descreve como a "coroa bendita com que ele foi coroado, feita de juncos do mar, afiados como lâminas de punhal". A partir do século XIII, difundiu-se na arte ocidental a representação de Cristo coroado de espinhos, que se tornou tema central da iconografia da Paixão.
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