Orações
Alma de Cristo (Anima Christi)
Oração eucarística e cristocêntrica de origem medieval (século XIV), muitas vezes atribuída — erroneamente — a Santo Inácio de Loyola, que a difundiu nos Exercícios Espirituais.
Alma de Cristo, santificai-me. Corpo de Cristo, salvai-me. Sangue de Cristo, inebriai-me. Água do lado de Cristo, lavai-me. Paixão de Cristo, confortai-me. Ó bom Jesus, ouvi-me. Dentro de vossas chagas, escondei-me. Não permitais que me separe de vós. Do espírito maligno, defendei-me. Na hora da minha morte, chamai-me, e mandai-me ir para vós, para que com os vossos santos vos louve por todos os séculos dos séculos. Amém.

- Uso
- Após a comunhão eucarística
- Origem
- Texto latino medieval (c. século XIV), difundido por Santo Inácio de Loyola
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Sobre esta oração
A "Anima Christi" ("Alma de Cristo") é uma das mais conhecidas orações latinas da tradição católica, voltada à contemplação da Paixão de Cristo e rezada tradicionalmente depois da comunhão. Cada invocação percorre um aspecto do corpo de Cristo — a alma, o corpo, o sangue, a água do lado, a Paixão — e pede a graça da purificação, da união e da perseverança final; particularmente célebre é o pedido «Dentro de vossas chagas, escondei-me», que faz das chagas do Crucificado um refúgio. A referência à água que brota do lado (cf. Jo 19,34) remete aos sacramentos do Batismo e da Eucaristia, o que explica sua inserção natural entre as orações de ação de graças após a comunhão.
Quanto à origem, é consenso entre os estudiosos que o texto data da primeira metade do século XIV. A edição clássica da "Catholic Encyclopedia" (1907) registra dois fatos em que praticamente todos os manuscritos concordam: a oração provém do século XIV e foi enriquecida com indulgências pelo Papa João XXII em 1330. Os testemunhos materiais são anteriores a Santo Inácio de Loyola (1491-1556): o hinólogo inglês James Mearns encontrou o texto num manuscrito do Museu Britânico datado de cerca de 1370; na biblioteca de Avignon conserva-se um livro de orações do cardeal Pierre de Luxembourg (morto em 1387) que já a contém em forma praticamente idêntica à atual; e o texto foi gravado numa das portas do Alcázar de Sevilha, o que remonta ao tempo de Pedro, o Cruel (1350-1369).
A autoria permanece desconhecida e incerta. Durante muito tempo popularizou-se a ideia de que teria sido composta por Santo Inácio de Loyola, mas isso é um erro: a oração encontra-se em livros de orações impressos na juventude do santo e em manuscritos escritos cerca de cem anos antes de seu nascimento. Tampouco é seguro atribuí-la ao próprio João XXII — o pontífice foi falsamente associado a outras composições piedosas, e é fácil confundir quem concedeu a indulgência com o autor real. É por isso que o texto às vezes aparece sob o título "Aspirações de Santo Inácio".
O vínculo histórico com Inácio, no entanto, é real e explicável. Ele a incluiu nos "Exercícios Espirituais", mas não a compôs, e sim a pressupôs conhecida pelos leitores de seu tempo — tanto que a menção inicial apenas a indica, sem transcrever o texto completo. Vale notar que essa oração não figurava no autógrafo dos Exercícios nem nas primeiras versões latinas: passou a ser impressa no início do livro somente a partir de uma edição publicada em Vilna em 1583, e desde então tornou-se costume universal colocá-la nas primeiras páginas. A suposição, feita pelos leitores, de que tudo no livro fora escrito por Inácio é o que consolidou a atribuição equivocada.
Ao longo dos séculos a oração foi também acolhida na liturgia: aparece no breviário e no missal entre as orações de ação de graças após a Missa. A devoção popular atribui a recitação depois da comunhão diversas indulgências, embora a exatidão desses números varie conforme a fonte. A "Anima Christi" permanece assim um testemunho da espiritualidade eucarística e da piedade cristocêntrica do fim da Idade Média, anterior aos grandes catecismos modernos.
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