Apologética
A Igreja perseguiu Galileu Galilei só por ele defender que a Terra gira ao redor do Sol?
O caso envolveu fatores científicos e pessoais — faltavam provas empíricas do movimento da Terra — e João Paulo II reconheceu formalmente, em 1992, os erros dos antigos julgadores.

- Objeção
- A Igreja condenou Galileu só por ele ter razão sobre a Terra girar ao redor do Sol?
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O caso Galileu (1564-1642) é mais complexo do que o confronto simples entre "ciência" e "fé". Em 1610, com O Mensageiro das Estrelas, Galileu relatou observações obtidas com o telescópio — as luas de Júpiter, as fases de Vênus, o relevo lunar — que minavam o sistema geocêntrico de raiz aristotélica e ptolomaica então dominante. Em 25 de fevereiro de 1616, a Congregação do Index condenou a doutrina copernicana, e o cardeal Roberto Belarmino advertiu Galileu a não sustentá-la nem ensiná-la como verdade. Galileu continuou a discuti-la e, em 1632, publicou o Diálogo sobre os dois máximos sistemas do mundo — ptolomaico e copernicano, obra escrita em italiano e em forma de divulgação, na qual o defensor do geocentrismo, Simplício, é retratado como tolo, o que enfureceu muitos.
Em 1633, o Santo Ofício o julgou e o condenou por "veemente suspeita de heresia", por ter sustentado como verdadeira a doutrina do Sol como centro do mundo, contra o decreto de 1616. A pena foi prisão domiciliar — não morte nem tortura, como o mito popular às vezes sugere —, cumprida primeiro no palácio do embaixador toscano em Roma, depois na casa do arcebispo de Siena e, por fim, em sua vila de Arcetri, perto de Florença, onde permaneceu até morrer, em 1642, tendo ainda concluído os Discursos e demonstrações matemáticas sobre duas novas ciências, base da física moderna. É frequente confundir seu destino com o de Giordano Bruno (1548-1600), queimado vivo por heresia em 1600 — o que não se aplica a Galileu.
Ainda que hoje saibamos que Galileu tinha razão quanto ao movimento da Terra, faltavam então provas empíricas diretas. A paralaxe estelar — a mudança de posição de uma estrela ao longo de seis meses, que demonstra a translação terrestre — só foi medida por Friedrich Bessel em 1838, com a estrela 61 do Cisne; antes disso, havia até a acusação de que sua ausência falava contra o heliocentrismo. A aberração da luz foi descoberta por James Bradley por volta de 1729, ao tentar medir essa mesma paralaxe. Quanto à rotação da Terra, a demonstração convincente veio apenas em 1851, com o pêndulo de Léon Foucault no Panthéon de Paris. Os críticos de Galileu, portanto, dispunham de argumentos científicos genuínos, embora hoje sabidamente equivocados, além das tensões pessoais agravadas pelo tom polêmico de seus escritos.
A reabilitação foi lenta e institucional. Em 1979, João Paulo II manifestou o desejo de que teólogos, sábios e historiadores examinassem o caso, e entre maio e junho de 1981 foi criada uma comissão de estudo, que só mais de dez anos depois apresentou conclusões, pela voz do cardeal Paul Poupard. Em 31 de outubro de 1992, por ocasião do 350º aniversário da morte de Galileu, numa sessão da Pontifícia Academia das Ciências, João Paulo II reconheceu publicamente os erros dos julgadores. Poupard resumiu que, na época do processo, "os teólogos falharam em apreender o sentido profundo não literal das Escrituras quando estas descrevem a estrutura física do universo", transpondo indevidamente para o âmbito da fé uma questão de observação factual. O Papa observou que, desde o Iluminismo, o caso tornou-se "uma espécie de mito", no qual "a imagem fabricada dos acontecimentos estava bastante distante da realidade", usado como símbolo da suposta rejeição da ciência pela Igreja.
Esse reconhecimento se insere no ensinamento do Concílio Vaticano II. A Gaudium et Spes (n. 36) afirma a legítima autonomia das realidades terrenas e deplora "certas atitudes de espírito" de cristãos que, por não reconhecerem essa autonomia, "levaram muitos espíritos a pensar que a fé e a ciência eram incompatíveis" — passagem em que os comentadores identificam justamente a referência ao caso Galileu. O episódio é, assim, um dos exemplos mais citados de autocrítica histórica da Igreja: o erro dos teólogos não foi defender a fé, mas confundir uma questão de astronomia com uma questão de doutrina.
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