Ciência e Fé
Caso Galileu
O julgamento de Galileu Galilei pela Inquisição romana em 1633 por defender o heliocentrismo, a lenta revisão do caso pela Igreja e sua reavaliação pela comissão pontifícia concluída em 31 de outubro de 1992.

- Tipo
- Conceito
- Área
- história da ciência
- Século
- XVII (reabilitação em 1992)
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Entre 1609 e 1610, Galileu Galilei, então professor em Pádua, apontou para o céu noturno um telescópio por ele aperfeiçoado e fez uma sequência de descobertas que abalariam a cosmologia dominante: identificou quatro luas orbitando Júpiter — prova de que nem tudo no céu girava em torno da Terra —, observou as fases de Vênus, incompatíveis com o sistema geocêntrico de Ptolomeu, e registrou manchas no Sol e crateras na Lua, corpos até então tidos por perfeitos e imutáveis. Publicadas no opúsculo «Sidereus Nuncius» (1610), essas observações converteram Galileu no principal defensor público do heliocentrismo de Copérnico, posição que ele passou a sustentar não mais como simples artifício de cálculo, mas como descrição física real do cosmos.
A defesa aberta do heliocentrismo levou o Santo Ofício a examinar a questão já em 1616: o cardeal Roberto Belarmino, principal teólogo da Inquisição romana, comunicou a Galileu que a tese copernicana não poderia ser sustentada nem ensinada como verdade literal, apenas discutida como hipótese matemática de cálculo, e a obra de Copérnico foi incluída no Índice de Livros Proibidos "até ser corrigida". Galileu aceitou formalmente a admoestação e absteve-se, por mais de uma década, de defender publicamente o heliocentrismo como fato. A eleição, em 1623, do cardeal Maffeo Barberini como papa Urbano VIII — amigo pessoal de Galileu e admirador de sua obra — pareceu reabrir espaço de manobra: o novo papa autorizou-o a escrever sobre os dois sistemas do mundo, geocêntrico e heliocêntrico, desde que tratados como hipóteses comparadas, sem conclusão definitiva. Amparado nessa permissão, Galileu passou a década seguinte compondo o «Diálogo sobre os dois principais sistemas do mundo», publicado em 1632 com licença formal dos censores eclesiásticos. O tom da obra, porém, favorecia sem disfarce o heliocentrismo, e o personagem incumbido de defender o geocentrismo, batizado Simplício, foi lido por muitos contemporâneos — inclusive, ao que tudo indica, pelo próprio Urbano VIII — como caricatura velada dos argumentos que o papa pessoalmente defendera a Galileu; o episódio rompeu de forma definitiva a proteção que o pontífice até então lhe oferecera.
Convocado a Roma apesar da idade avançada e da saúde debilitada, Galileu foi julgado pelo Santo Ofício no convento dominicano de Santa Maria sopra Minerva a partir de abril de 1633 — recebendo, por deferência incomum a um acusado, hospedagem em apartamentos do próprio palácio da Inquisição, em vez de uma cela comum. Em 22 de junho de 1633, ajoelhado diante da comissão de inquisidores, foi obrigado a abjurar publicamente a tese de que o Sol permanece imóvel no centro do universo e a Terra se move, sendo declarado "veementemente suspeito de heresia". A sentença comutou a pena original de prisão em reclusão domiciliar permanente e impôs a recitação semanal dos sete salmos penitenciais por três anos; o «Diálogo» foi incluído no Índice de Livros Proibidos. Galileu cumpriu a prisão domiciliar primeiro na residência do arcebispo de Siena e depois em sua própria vila de Arcetri, nos arredores de Florença, onde passou os últimos anos já cego, mas sem abandonar a pesquisa: ali redigiu os «Discursos e demonstrações matemáticas sobre duas novas ciências», publicados na Holanda em 1638 e hoje considerados um dos fundamentos da física moderna, especialmente da mecânica. Morreu em Arcetri em 8 de janeiro de 1642. A célebre frase que a tradição lhe atribui logo após a abjuração — "Eppur si muove" ("e, no entanto, ela se move") — não consta de nenhum registro contemporâneo do processo e é hoje considerada provável lenda posterior, documentada pela primeira vez mais de um século depois de sua morte.
A revisão do caso pela própria Igreja foi lenta e gradual: em 1741, o papa Bento XIV autorizou a publicação de uma edição das obras completas de Galileu com as devidas correções, e em 1758 a proibição geral de livros que ensinassem o heliocentrismo foi retirada do Índice, embora as obras específicas de Copérnico e do próprio Galileu ali permanecessem. Um episódio revelador ocorreu em 1820, quando o mestre do Sacro Palácio, frei Filippo Anfossi, recusou-se a autorizar a publicação de um livro de astronomia do cônego Giuseppe Settele por tratar o heliocentrismo como realidade física; Settele recorreu ao papa Pio VII, e a Congregação do Índice reverteu a decisão de Anfossi, abrindo caminho para que, em 1835, as obras de Copérnico e Galileu fossem finalmente excluídas do Índice de Livros Proibidos. No século XX houve ainda uma tentativa discreta de reexame: durante o pontificado de Pio XII, o historiador eclesiástico monsenhor Pio Paschini (1878-1962) foi encarregado de escrever uma história do caso, mas seu manuscrito, enviado a Roma já em 1945, encontrou resistência no Santo Ofício e só viria a ser publicado em 1964, já postumamente e amplamente revisto pelo jesuíta belga Edmond Lamalle.
A reavaliação mais profunda veio com João Paulo II. Em 10 de novembro de 1979, por ocasião do primeiro centenário de nascimento de Albert Einstein, o papa pediu publicamente, diante da Pontifícia Academia das Ciências, que teólogos, sábios e historiadores estudassem a fundo o caso Galileu e dissipassem a desconfiança que ainda opunha, em muitas mentes, ciência e fé. Em 3 de julho de 1981, o cardeal secretário de Estado Agostino Casaroli constituiu a comissão de estudo, que trabalhou subdividida em quatro grupos — exegético (dirigido por dom Carlo Maria Martini, então arcebispo de Milão), cultural (monsenhor Paul Poupard), científico (Carlos Chagas, presidente da Academia, e o jesuíta George Coyne, diretor do Observatório Vaticano) e histórico-jurídico (monsenhor Michele Maccarrone e o padre Edmond Lamalle, substituído por razões de saúde pelo professor Mario d'Addio). A comissão reuniu-se em plenário apenas sete vezes ao longo de cerca de três anos, e entre a última reunião, em 22 de novembro de 1983, e o encerramento dos trabalhos houve longo intervalo; em 4 de maio de 1990, Casaroli convidou o cardeal Poupard a coordenar a fase conclusiva.
As conclusões foram apresentadas em 31 de outubro de 1992, na sessão plenária da Pontifícia Academia das Ciências: o cardeal Poupard leu o relatório final e o papa pronunciou o discurso de encerramento, no qual afirmou que "do caso Galileu se pode tirar uma lição que se aplica ainda hoje". Poupard reconheceu que os teólogos da época "não compreenderam o sentido profundamente não literal das Escrituras quando estas descrevem a estrutura física do universo", transpondo indevidamente para o campo da fé uma questão de observação factual e chegando a uma medida disciplinar de que Galileu "muito teve de sofrer" — o que configurou, segundo ele, um "erro subjetivo de juízo". João Paulo II definiu o caso como "uma espécie de mito", cuja imagem fabricada se afastou da realidade, e observou que houve erro de ambos os lados, já que Galileu, como a maioria de seus adversários, não distinguia claramente o que era ciência do que era filosofia; citou ainda, como modelo de hermenêutica correta, a posição de Belarmino, que, diante de eventuais provas científicas, recomendava "interpretar com grande circunspeção" os textos bíblicos que parecem afirmar a imobilidade da Terra. A imprensa mundial noticiou o episódio como uma "absolvição" ou "reabilitação" de Galileu, embora o próprio papa tenha sublinhado tratar-se de reflexão pastoral e não de um novo julgamento; historiadores como Annibale Fantoli, George Coyne e Michael Segre criticaram depois as duas alocuções de 1992 por imprecisões históricas e por não reconhecerem responsabilidades "no ápice" da hierarquia. O caso permanece, ainda hoje, o exemplo mais citado — por críticos e defensores da Igreja — nos debates sobre os limites entre autoridade eclesiástica, interpretação bíblica e liberdade de investigação científica.
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Papa do século XVII sob cujo pontificado se concluiu a Basílica de São Pedro e ocorreu o processo contra Galileu Galilei.
Pontifícia Academia das Ciências
Ciência e Fé
Academia científica da Santa Sé que reúne oitenta cientistas de todo o mundo, católicos e não católicos, para o estudo e a promoção das ciências.

São Roberto Belarmino
Santos
Jesuíta e cardeal do século XVI-XVII, teólogo da Contrarreforma e Doutor da Igreja.
