Anjos e Demônios
Festa dos Santos Anjos Custódios
Memória litúrgica celebrada em 2 de outubro, dedicada aos anjos da guarda, com raízes em devoções medievais europeias e institucionalização papal a partir do início do século XVII.

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A devoção aos anjos da guarda tem raízes antigas e ganhou expressão litúrgica própria sobretudo a partir da Idade Média. Antes das reformas litúrgicas modernas, supõe-se que houvesse celebrações locais de anjos custódios em várias regiões da Europa; o Sacro Convento e os franciscanos cultivaram-na com particular empenho. O frade franciscano João Colombi compôs um Ofício próprio, cuja aprovação é atribuída a Leão X (1515). Uma narrativa devocional mais tardia chega a situar o início da festa na Inglaterra no "ano 800"; as fontes mais prudentes, porém, situam a festa autônoma na Espanha do século XV, de onde se difundiu por Portugal, Áustria e o restante do continente. Originalmente, os anjos eram celebrados em 29 de setembro, junto com os três arcanjos (Miguel, Gabriel e Rafael), de modo que a diferenciação de uma memória própria respondeu ao desejo de honrar especialmente o anjo pessoal de cada crente.
A institucionalização romana deu-se em passos sucessivos. Com a promulgação do Missal de São Pio V (1570), as festas particulares dos anjos custódios foram suprimidas do calendário romano; em 1608, o papa Paulo V restabeleceu-as para algumas regiões. Em 1670, o papa Clemente X (1670-1676) estendeu a Memória dos Santos Anjos da Guarda a toda a Igreja de rito romano, fixando-a no dia 2 de outubro — algumas fontes indicam, alternativamente, 1672; a divergência permanece entre os autores.
Em 5 de julho de 1883, um decreto da Sagrada Congregação dos Ritos, aprovado pelo papa Leão XIII, elevou a festa de grau "duplo menor" a "duplo maior", dotando-a de Missa própria, Vésperas prévias e Matinas com nove lições, de modo que deixasse de ser omitida em concorrência com outras celebrações. O texto consta da fonte primária Acta Sanctae Sedis, vol. 16 (1883), pp. 47-48, e insere-se no programa litúrgico mais amplo de Leão XIII naquele período (a encíclica Supremi apostolatus officio sobre o Rosário é de 1.º de setembro de 1883). Com a reforma litúrgica do Concílio Vaticano II, a Memória foi conservada no Missal de 1969, mantendo boa parte das orações do missal de 1962; apenas a oração após a Comunhão é de nova composição. O Prefácio próprio dos Anjos-«Qui mirabili ordinis» reitera que Deus governa os céus e a terra por meio dos anjos.
A doutrina subjacente à memória de 2 de outubro é a de que Deus confia a cada pessoa humana um anjo guardião. Embora não tenha sido objeto de definição dogmática formal, é tida como "sentido da Igreja": São Jerônimo escreveu que "grande é a dignidade da alma, pois cada uma tem, desde o nascimento, um anjo encarregado de guardá-la" (Comentário a Mateus, XVIII, livro II), e o Catecismo da Igreja Católica (n. 336) retoma essa doutrina ao afirmar que, desde o início até a morte, a vida humana é cercada pela vigilância e intercessão dos anjos. A Constituição dogmática Lumen Gentium (n. 50) recorda o afeto devido aos "santos Anjos" na comunhão com a Igreja celeste. A festa é ocasião tradicional para renovar a devoção pessoal ao próprio anjo da guarda, e a ele se liga a oração Angele Dei, de atribuição hoje reportada a Reginaldo de Cantuária (falecido c. 1109).
A associação do dia 2 de outubro a uma celebração civil relacionada aos avós, na Itália de 2005, é um desenvolvimento moderno e de caráter não litúrgico, inspirado na figura protetora dos anjos da guarda, mas sem valor de culto.
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