Anjos e Demônios
Anjos das Nações e das Igrejas
A tradição bíblica e patrística de anjos protetores confiados não só a indivíduos, mas a povos, nações e comunidades, e a discussão exegética em torno dos 'anjos' das sete Igrejas.

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A ideia de anjos confiados a coletividades, e não apenas a indivíduos, apoia-se em textos bíblicos precisos. No livro de Daniel, o mensageiro celestial relata que "o príncipe do reino da Pérsia" resistiu-lhe vinte e um dias e que só pôde prosseguir com o auxílio de "Miguel, um dos primeiros príncipes" (Dn 10,13); mais adiante menciona também o "príncipe da Grécia" (Dn 10,20) e chama a Miguel "vosso príncipe" (Dn 10,21), "o grande príncipe que se levanta a favor dos filhos do teu povo" (Dn 12,1). Três entidades espirituais aparecem assim associadas a três nações: a Pérsia, a Grécia e Israel, este último guardado por Miguel.
Um segundo fundamento é o versículo de Deuteronômio 32,8, que diz que o Altíssimo, ao dividir as heranças às nações, "fixou os limites dos povos segundo o número dos filhos de Deus". A Septuaginta e a Vetus Latina traduziram a expressão como "anjos de Deus" (angelōn theou / angelorum Dei), e uma leitura hebraica encontrada em Qumran traz "filhos de Deus"; a tradição patrística apoiou-se nessa versão para afirmar que cada nação recebeu um anjo próprio. Santo Tomás de Aquino, na Summa Theologica, retoma o ensinamento segundo o qual não só os indivíduos, mas também as nações, as cidades e as instituições da Igreja são confiadas a um anjo da guarda. Orígenes chegou a dizer que cada diocese é conduzida por dois bispos: um visível, que é um homem, e outro invisível, que é um anjo.
O Apocalipse, por sua vez, dirige-se aos "anjos" de cada uma das sete Igrejas da Ásia — Éfeso, Esmirna, Pérgamo, Tiatira, Sardes, Filadélfia e Laodiceia (Ap 2-3) — e Cristo declara que "as sete estrelas são os anjos das sete igrejas" (Ap 1,20). Quem sejam esses "anjos" é objeto de debate exegético. Uma interpretação os identifica com os bispos ou pastores das comunidades, entendidos como mensageiros de Deus; outra os toma por anjos verdadeiros, guardiões espirituais de cada Igreja local. Nenhuma das leituras é imposta como doutrina definida, e a própria ambiguidade alimentou, ao longo da história, a devoção a protetores celestes de povos e dioceses.
É importante distinguir o que é fé definida do que é piedosa tradição: a existência dos anjos e o seu serviço à salvação são verdades de fé (CIC 328), mas a designação de um anjo específico para cada nação não foi objeto de definição dogmática em detalhe. O tema floresceu, contudo, na piedade católica: a Espanha venera seu "Ángel Custodio", o episódio do "Anjo de Portugal" na preparação das aparições de Fátima (1916) foi apresentado como sinal dessa proteção nacional, e devoções semelhantes existem para outras nações e cidades.
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