Ir para o conteúdo
Compêndio CatólicoCatálogo de consulta · fé, doutrina e vida católica
Acender uma vela

Anjos e Demônios

Querubins

Espíritos celestes de contemplação e guardiões das realidades sagradas — do Éden, da Arca da Aliança e do Templo —, situados no segundo grau da primeira hierarquia angélica, logo abaixo dos serafins.

Querubins
Tipo
Coro angélico

Tamanho do texto

Os querubins aparecem pela primeira vez na Escritura guardando a entrada do Éden após a expulsão de Adão e Eva, com uma espada flamejante, para vigiar o caminho da árvore da vida (Gn 3,24). Sua função essencial é a de guardiões das realidades sagradas e do trono de Deus: são descritos como seres alados, e é essa a única base iconográfica inteiramente segura que a exegese reconhece. A etimologia do nome hebraico keruv (plural keruvim) é incerta e a própria língua hebraica bíblica não conservou uma raiz para ele. A hipótese mais aceita pelos estudiosos aproxima-o do acádio karābu ("abençoar", "ser propício") e dos termos kurību/kāribu, que designavam, na Mesopotâmia, espíritos intercessores colocados às portas de templos e palácios, que levavam aos deuses as preces dos homens. Outras propostas o relacionam ao verbo hebraico qarab ("aproximar-se"), a "carruagem" ou a "aparência brilhante"; o BDB (Brown-Driver-Briggs) observa que a raiz hebraica está ausente e que o parentesco com o touro alado assírio kiribu/sedu "não foi verificado". O historiador Flávio Josefo já admitia que ninguém sabia ao certo como os querubins se pareciam (Antiguidades Judaicas, VIII, 3, 3).

Na Arca da Aliança, dois querubins de ouro batido foram feitos como peça única com o propiciatório (kapporet), a tampa de ouro puro da arca (Ex 25,17-22). Estendiam as asas por cima do propiciatório, com os rostos voltados um para o outro e inclinados para a tampa. Era dali, "do meio dos dois querubins", que Deus se encontrava com Moisés e lhe dava os seus mandamentos (Ex 25,22). A Carta aos Hebreus refere-se a esses "querubins da glória que cobriam o propiciatório" (Hb 9,5). No Templo de Salomão, o santuário interno — o Santo dos Santos — recebeu dois querubins de madeira de oliveira, cada um com dez côvados de altura e asas de cinco côvados, que se tocavam nas extremidades, perfazendo vinte côvados de asa a asa (1 Rs 6,23-27); figuras de querubins foram ainda entalhadas nas paredes e nas portas do Templo, ao lado de palmas e flores abertas (1 Rs 6,29.32). O cronista acrescenta que "os querubins estendiam as asas", de modo que estas cobriam a arca e as varas (2 Cr 3,10-13).

Vale notar que a familiar figura devocional do "querubim" como bebê rechonchudo e alado é um anacronismo: ela nasceu dos putti do Renascimento italiano, ligados ao Cupido/Eros greco-romano, e não tem apoio no texto bíblico, onde o querubim é uma criatura temível, posta entre o homem pecador e a santidade de Deus. Esse deslocamento semântico explica por que, ainda hoje, a palavra "querubim" evoca na arte popular uma imagem que os autores bíblicos jamais sugeriram.

No profeta Ezequiel, os querubins surgem como as criaturas vivas que sustentam o trono móvel da glória divina. O profeta os descreve com quatro rostos — de homem, leão, boi e águia —, quatro asas, mãos humanas sob as asas, pernas retas e pés como de bezerro reluzente (Ez 1,5-10; 10,9-22); ele os identifica explicitamente como querubins em Ez 10,20. Esses quatro rostos tornaram-se, na arte cristã, os símbolos dos quatro evangelistas — o tetramorfo. A associação foi inaugurada por Santo Irineu de Lião no século II e refinada por São Jerônimo, que ligou cada criatura a um evangelista observando o modo como cada Evangelho começa. Há aqui uma controvérsia exegética antiga: Isaías descreve seres de seis asas que chama de serafins (Is 6,2), enquanto Ezequiel atribui quatro asas aos seus querubins; o Apocalipse de João apresenta quatro seres viventes de seis asas junto ao trono (Ap 4,6-8), tradicionalmente identificados com os querubins. Discute-se, por isso, se a distinção entre os dois coros é de natureza ou de função. Os Salmos também falam de Deus "entronizado sobre os querubins" (Sl 80,1; 99,1), imagem do trono divino que os querubins formam ou sustentam.

O paralelo com a arte do antigo Oriente Próximo é decisivo para compreender a forma dos querubins. Na Assíria, Babilônia e Pérsia, os lamassu (ou shedu) eram colossais criaturas híbridas — cabeça humana, corpo de touro ou leão, asas de águia — colocadas aos pares nas entradas de templos e palácios como guardiãs apotropaicas. Os lamassu do palácio de Sargão II em Khorsabad (antiga Dur-Sharrukin, hoje Iraque), esculpidos entre 721 e 705 a.C., chegavam a cerca de 5 metros de altura, pesavam dezenas de toneladas e possuíam cinco patas, de modo que pareciam eretos de frente e em passada de perfil. É nesse horizonte visual — e não na arte dos putti — que os querubins bíblicos devem ser imaginados.

Na hierarquia dos nove coros, sistematizada por Pseudo-Dionísio, o Areopagita (De coelesti hierarchia, séc. V), e retomada por São Tomás de Aquino na Summa Theologica (I, q. 108), os querubins ocupam o segundo grau da primeira hierarquia, logo abaixo dos serafins e acima dos tronos. Pseudo-Dionísio define toda hierarquia celeste por três movimentos — purificação (katharsis), iluminação (photismos) e perfeição (teleiosis) — e descreve a primeira hierarquia como a que primeiro recebe a iluminação direta de Deus. Segundo a leitura tomista, enquanto os serafins se distinguem pelo amor ardente, os querubins se caracterizam pela plenitude da ciência e da contemplação, recebendo a luz divina de modo mais universal e comunicando-a aos coros inferiores. Essa posição não indica privilégio no sentido humano, mas maior proximidade e participação na contemplação da Verdade divina.

Temas relacionados

Cada tema abre a busca por ele em todas as categorias do acervo.

Fontes

  • Sagrada Escritura: Gn 3,24; Ex 25,17-22; 1 Rs 6,23-32; 2 Cr 3,10-13; Sl 80,1; 99,1; Is 6,2; Ez 1,5-10; 10,9-22; Hb 9,5; Ap 4,6-8
  • Pseudo-Dionísio Areopagita, De coelesti hierarchia, cap. VII
  • São Tomás de Aquino, Summa Theologica, I, q. 108
  • Flávio Josefo, Antiguidades Judaicas, VIII, 3, 3
  • Santo Irineu de Lião e São Jerônimo — associação dos quatro seres vivos aos quatro evangelistas (tetramorfo)
  • Etimologia: relação com o acádio karābu/kurību/kāribu ('abençoar', 'intercessor'); BDB (Brown-Driver-Briggs) sobre a raiz hebraica ausente de keruv
  • Lamassu do palácio de Sargão II em Khorsabad (721-705 a.C.), Museu do Louvre / Institute for the Study of Ancient Cultures

Continue sua leitura

← Todas as entradas de Anjos e Demônios