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Anjos e Demônios

A Hierarquia Angélica de Pseudo-Dionísio

Sistematização dos nove coros angélicos em três tríades, proposta no tratado "Sobre a Hierarquia Celeste", que se tornou referência clássica da angelologia cristã e foi recebida por teólogos como Máximo, o Confessor, e Santo Tomás de Aquino.

A Hierarquia Angélica de Pseudo-Dionísio
Tipo
Conceito doutrinal

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No fim do século V ou início do VI, um autor cristão hoje desconhecido, que escreveu sob o pseudônimo de Dionísio, o Areopagita — tomando o nome do ateniense convertido por São Paulo em Atos 17,34 —, redigiu o tratado "Sobre a Hierarquia Celeste" (Peri tes Ouranias Hierarchias, De Coelesti Hierarchia), sistematizando pela primeira vez de modo abrangente os diferentes seres angélicos mencionados de forma dispersa na Escritura em nove coros, organizados em três tríades de três. Juntamente com o "Dos Nomes Divinos", a "Hierarquia Eclesiástica" e a "Teologia Mística", forma o conjunto hoje chamado Corpus Areopagiticum ou Corpus Dionysiacum.

A datação é hoje bem circunscrita. Segundo a Stanford Encyclopedia of Philosophy, o autor dependeu da obra de Proclo (morto em 485) e sua primeira citação clara aparece em Severo de Antioquia, entre 518 e 528; em 532, no debate de Constantinopla com o imperador Justiniano I, o bispo Hipácio de Éfeso já contestava a autenticidade apostólica, alegando que nenhum Padre ou Concílio anterior o havia citado. O autor se tornou público no contexto das controvérsias cristológicas do Oriente. Trata-se, portanto, de um cristão neoplatônico — provavelmente sírio — que forjou credenciais apostólicas escrevendo como se fosse o discípulo de Paulo. A obra consta de quinze capítulos: os capítulos 1 a 3 tratam dos princípios gerais dos anjos como mensageiros, os capítulos 4 a 9 descrevem as três hierarquias e seus nove coros, e os capítulos 10 a 15 tratam da relação dos anjos com os homens e o cosmo. Todo o sistema se rege por três operações — purificação (katharsis), iluminação (photismos) e perfeição (teleiosis) —, pelas quais o grau superior transmite ao inferior a luz recebida de Deus.

Segundo esse esquema, a primeira tríade — Serafins, Querubins e Tronos — contempla diretamente a glória de Deus; a segunda — Dominações, Virtudes e Potestades — governa a ordem do universo criado; e a terceira — Principados, Arcanjos e Anjos — executa as ordens divinas junto à humanidade, sendo os Anjos o grau mais próximo dos homens. O autor apresenta os nomes gregos correspondentes (seraphim, cherubim, thronoi; kyriotetes, dynameis, exousiai; archai, archangeloi, angeloi) e interpreta cada designação à luz de sua função no cosmos.

Embora de autoria pseudoepígrafa, a obra exerceu enorme influência sobre a teologia medieval. Foi defendida por João de Citópolis, cujos escólios (c. 537-543), cerca de seiscentos, constituem a primeira defesa sistemática de sua datação apostólica, e por Máximo, o Confessor; sob influência deste, o Concílio de Latrão de 649 citou o autor como testemunha competente contra o monotelismo, o que funcionou como espécie de selo oficial sobre os escritos dionisianos. Até o Renascimento, a autoria raramente foi posta em dúvida, embora já Tomás de Aquino, Pedro Abelardo e Nicolau de Cusa tenham manifestado suspeitas; a falsa atribuição só foi demonstrada filologicamente por Lorenzo Valla (1457) e Erasmo de Rotterdam. A síntese foi retomada por São Boaventura e, sobretudo, por Santo Tomás (Suma Teológica, I, q. 108), que dela se serviu para ordenar os coros, distinguindo a divisão dionisiana, baseada nas perfeições espirituais, da divisão de São Gregório Magno, baseada nos ministérios exteriores. A Igreja nunca elevou esse esquema a dogma de fé — trata-se de uma construção teológica respeitável e amplamente adotada, não de uma revelação explícita sobre a estrutura exata do mundo angélico.

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Fontes

  • Pseudo-Dionísio Areopagita, De Coelesti Hierarchia (Corpus Dionysiacum II, ed. G. Heil e A. M. Ritter, De Gruyter)
  • Stanford Encyclopedia of Philosophy, verbete 'Pseudo-Dionysius the Areopagite' (datação entre 485 e 518-528; capítulos da Hierarquia Celeste)
  • Encyclopedia.com, verbete 'Pseudo-Dionysius' (cristologia pós-calcedoniana; primeira citação por Severo de Antioquia, 518-528)
  • Wikipedia (pt), 'Pseudo-Dionísio, o Areopagita' (escólios de João de Citópolis; debate de 532 com Hipácio de Éfeso; Concílio de Latrão de 649)
  • Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, I, q. 108
  • Atos dos Apóstolos 17,34
  • Wikimedia Commons, File:Denis Areopagite.jpg

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