Missões
São Junípero Serra
Frade franciscano espanhol que fundou nove das missões que deram origem a importantes cidades da Califórnia; figura hoje reavaliada de modo crítico por parte da historiografia quanto ao tratamento dos povos indígenas.

- Tipo
- Missionário
- Região
- Califórnia (América do Norte)
- Século
- século XVIII
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Miquel Josep Serra i Ferrer nasceu em 24 de novembro de 1713 em Petra, na ilha de Maiorca, filho de agricultores humildes. Ingressou na Ordem Franciscana em 1730, adotando o nome de Junípero em homenagem a um dos primeiros companheiros de São Francisco de Assis, e destacou-se nos estudos a ponto de se tornar professor de filosofia na Universidade Luliana de Palma antes mesmo de completar trinta anos, além de pregador reconhecido em toda a ilha. Apesar da carreira acadêmica promissora, pediu para ser enviado como missionário às Américas, embarcando em 1749 rumo ao México; na travessia por terra entre Veracruz e a Cidade do México insistiu em seguir a pé, apesar de uma picada de inseto que lhe infeccionou a perna e o deixaria manco e com dores pelo resto da vida.
Durante quase nove anos, Serra trabalhou como missionário entre o povo indígena pame na região montanhosa de Sierra Gorda, ao norte da Cidade do México, aprendendo sua língua e supervisionando a construção de igrejas de pedra que existem até hoje. Depois de um período como professor e pregador itinerante em várias regiões do México, sua vida mudou de rumo em 1767, quando o rei Carlos III da Espanha ordenou a expulsão dos jesuítas de todos os domínios espanhóis, deixando vago o controle das missões da Baixa Califórnia; os franciscanos do Colégio de San Fernando, entre eles Serra, foram chamados a assumi-las.
Já com 55 anos, Serra integrou em 1769 a expedição terrestre e marítima organizada pelo governador Gaspar de Portolá para ocupar e evangelizar a Alta Califórnia, território então cobiçado pela Espanha diante do avanço russo e britânico ao longo do Pacífico Norte. Em 16 de julho de 1769 fundou a primeira das missões, San Diego de Alcalá, e no ano seguinte, 1770, a Missão San Carlos Borromeo de Carmelo, que se tornaria sua base e residência principal e onde viria a ser sepultado. Ao longo dos quinze anos seguintes, apesar da perna sempre ferida e de caminhar apoiado em bordão, percorreu a pé o chamado El Camino Real ao longo da costa californiana, fundando ao todo nove das eventuais 21 missões da região — entre elas as que deram origem às atuais cidades de San Diego, San Francisco (missão fundada em 1776, mesmo ano da independência dos Estados Unidos), San Gabriel, San Luis Obispo, San Juan Capistrano, Santa Clara e San Buenaventura.
Cada missão funcionava como um centro agrícola, religioso e produtivo onde populações indígenas locais — como os kumeyaay, os chumash e os ohlone — eram catequizadas, batizadas e incorporadas ao trabalho na terra, na pecuária e em ofícios artesanais, sob regime de vida comunitária estritamente regulado pelos frades. Serra via nesse sistema um projeto de proteção e civilização cristã dos povos nativos diante da colonização militar e civil espanhola, e chegou a viajar até a Cidade do México para obter do vice-rei um documento — conhecido informalmente como a "carta de direitos dos índios" — que limitava abusos de soldados contra a população indígena das missões.
Serra morreu em 28 de agosto de 1784 na Missão de Carmelo, onde foi sepultado sob o altar da igreja; calcula-se que, apesar da idade e da saúde debilitada, tenha percorrido a pé mais de 24 mil quilômetros ao longo de sua vida missionária na América. Beatificado pelo papa João Paulo II em 25 de setembro de 1988, foi canonizado pelo papa Francisco em 23 de setembro de 2015, em Washington, D.C. — a primeira canonização realizada em solo dos Estados Unidos —, num gesto que buscava também valorizar a presença hispânica na história do catolicismo norte-americano.
A canonização, porém, reacendeu uma controvérsia histórica que já vinha de décadas: historiadores, antropólogos e lideranças de povos indígenas californianos documentam que o sistema de missões, apesar das intenções evangelizadoras, também impôs trabalho forçado, castigos corporais, confinamento que impedia a fuga dos neófitos batizados, destruição de práticas culturais e religiosas nativas e condições sanitárias que, somadas a epidemias de doenças trazidas pelos europeus, contribuíram para um colapso demográfico severo entre as populações originárias da região no período espanhol e depois mexicano. Esse debate se intensificou publicamente a partir de 2015 e, em 2020, levou à derrubada de diversas estátuas de Serra nos Estados Unidos; a Conferência dos Bispos Católicos dos EUA e franciscanos ligados às missões reconhecem a necessidade de encarar essa parte da história com honestidade, ao mesmo tempo em que apontam fontes e testemunhos que descrevem Serra pessoalmente como defensor de tratamento mais humano aos indígenas frente aos abusos de autoridades civis e militares da época — um debate que a Igreja considera hoje parte necessária, e ainda aberta, da avaliação histórica de sua obra.
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