História da Igreja
A Grande Perseguição de Diocleciano (303-311)
A mais extensa e violenta perseguição imperial romana aos cristãos, iniciada por uma série de éditos de Diocleciano e encerrada pelo edito de tolerância de Galério.
- Período
- Igreja primitiva (303-311)
Tamanho do texto
Depois de mais de duas décadas de relativa tolerância religiosa desde o fim das perseguições de Valeriano, em 260, o Império Romano voltou a se voltar violentamente contra os cristãos sob o governo de Diocleciano (284-305), o imperador que havia reorganizado o Estado romano na chamada Tetrarquia — um sistema de governo compartilhado entre dois augustos e dois césares, dos quais Diocleciano era o mais graduado. Historiadores atribuem a iniciativa da perseguição sobretudo à influência de Galério, césar do Oriente e genro de Diocleciano, fortemente hostil ao cristianismo, que teria convencido o imperador mais velho, inicialmente relutante, a agir depois de episódios interpretados como afronta religiosa e política — entre eles a recusa de soldados cristãos em participar de sacrifícios rituais nas legiões.
A perseguição começou formalmente em 24 de fevereiro de 303, com um primeiro edito publicado em Nicomédia, capital oriental do Império, que ordenava a destruição das igrejas cristãs, a apreensão e queima pública das Escrituras, e a perda de direitos civis e jurídicos para os cristãos, que ficavam impedidos, por exemplo, de recorrer aos tribunais. O primeiro alvo simbólico do edito foi a própria catedral de Nicomédia, demolida por ordem imperial no dia seguinte à publicação. Um segundo edito, ainda em 303, ordenou a prisão de todo o clero — bispos, presbíteros e diáconos —, enchendo as prisões imperiais a ponto de o próprio governo ter de libertar criminosos comuns para abrir espaço aos religiosos presos.
Um terceiro edito, publicado por ocasião das celebrações dos vinte anos de reinado de Diocleciano, ofereceu anistia aos clérigos presos que aceitassem oferecer sacrifício público aos deuses romanos, uma exigência que muitos cristãos, então já chamados de «lapsi» quando cediam, aceitaram sob tortura ou ameaça, gerando debates internos posteriores sobre sua reintegração à comunhão eclesial. O quarto e mais duro edito, publicado já em 304, provavelmente por iniciativa direta de Galério, estendeu a exigência de sacrifício público a todos os habitantes do Império, cristãos leigos incluídos, sob pena de tortura e morte — a perseguição mais universal e sistemática já enfrentada pela Igreja até então.
A aplicação dos éditos variou fortemente conforme a região e o governante local: no Ocidente, sob o césar Constâncio Cloro, pai de Constantino, a perseguição foi aplicada com bastante moderação, limitando-se em muitos lugares à destruição de edifícios sem violência física generalizada contra pessoas; no Oriente, sob Diocleciano e sobretudo sob Galério e depois Maximino Daia, a perseguição foi implacável e prolongada, produzindo os relatos de martírio mais numerosos e mais dramáticos de toda a Antiguidade cristã — entre as vítimas mais lembradas estão Santa Inês de Roma, São Sebastião (cujo martírio a tradição situa nesse período), e os chamados Quatro Santos Coroados, na Panônia.
Após a abdicação de Diocleciano em 305, a perseguição prosseguiu de modo desigual sob seus sucessores, sendo mais intensa nas regiões orientais controladas por Galério e depois por Maximino Daia. O desfecho veio de forma inesperada: em 311, já agonizando de uma doença dolorosa que os cronistas cristãos da época, como Lactâncio, interpretaram como castigo divino, o próprio Galério — o principal instigador da perseguição — publicou em seu leito de morte um edito de tolerância, reconhecendo o fracasso da campanha em erradicar o cristianismo e autorizando os cristãos a reconstruir seus locais de culto e a professar sua fé, em troca de orações por sua saúde e pela prosperidade do Estado. Esse edito de Galério, publicado dois anos antes do mais conhecido Edito de Milão de Constantino e Licínio (313), foi o primeiro reconhecimento oficial, em nível imperial, do fracasso definitivo da política de perseguição ao cristianismo no Império Romano.
Continue sua leitura

São Caio
Papas
Papa cujo pontificado terminou pouco antes do início da Grande Perseguição de Diocleciano, a mais severa movida contra os cristãos.

São Marcelino
Papas
Papa cujo pontificado coincidiu com o início da Grande Perseguição de Diocleciano; tradições polêmicas, hoje contestadas, alegam apostasia temporária.

Santa Inês de Roma
Santos
Jovem mártir romana do início do século IV, morta ainda adolescente por recusar o casamento e renegar a fé cristã.

São Jorge
Santos
Soldado e mártir dos primeiros séculos do cristianismo, cuja lenda do combate ao dragão se tornou símbolo da vitória sobre o mal.
