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Devoções

O Santo Terço como devoção diária

A prática, difundida sobretudo após as aparições de Fátima, de rezar o terço completo todos os dias como caminho de conversão e paz.

O Santo Terço como devoção diária
Origem
Prática de origem medieval, com impulso renovado após as aparições de Fátima (1917)

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Embora o Rosário como oração já existisse havia séculos (ver a entrada "Os Mistérios do Rosário" em Orações), sua prática diária ganhou impulso renovado sobretudo depois das aparições de Fátima, em Portugal, no ano de 1917. Na Cova da Iria, três crianças pastoras — Lúcia dos Santos, então com dez anos, e seus primos Francisco (nove anos) e Jacinta Marto (sete anos) — relataram seis encontros com Nossa Senhora, sempre no dia 13, de maio a outubro daquele ano, precedidos em 1916 por três aparições de um anjo. Em praticamente todas as aparições, Nossa Senhora teria pedido insistentemente que os fiéis rezassem o terço "todos os dias", como meio concreto de alcançar a paz para o mundo, o fim da Primeira Guerra Mundial então em curso e a conversão dos pecadores.

A última aparição, em 13 de outubro de 1917, teria sido acompanhada do episódio que a devoção popular chamou de "Milagre do Sol", testemunhado, segundo os relatos, por cerca de setenta mil pessoas reunidas sob chuva torrencial. Após um período de investigação canônica, o bispo de Leiria, D. José Alves Correia da Silva, publicou em 13 de outubro de 1930 uma carta pastoral declarando "dignas de crédito" as visões das crianças na Cova da Iria, autorizando o culto. Francisco e Jacinta morreram ainda crianças, na pandemia de gripe de 1918-1920, e foram canonizados pelo papa Francisco em 2017; Lúcia tornou-se religiosa e viveu até 2005, deixando as «Memórias» em que relatou os acontecimentos.

Esse pedido de recitação diária, e não apenas ocasional, marcou uma mudança de ênfase na espiritualidade mariana do século XX: o Rosário deixava de ser apenas uma oração entre outras e passava a ser proposto como prática cotidiana estruturante da vida espiritual do fiel comum, comparável em regularidade à oração da manhã ou da noite. Passou a ser recomendado, a partir de então, tanto individualmente quanto em família — o costume do "terço em família", reunindo pais e filhos ao fim do dia, tornou-se particularmente forte em países de tradição católica latina, incluindo o Brasil.

Papas do século XX e XXI deram continuidade e reforço a esse pedido. Pio XII e Paulo VI já haviam incentivado amplamente a prática; mas foi João Paulo II quem lhe deu tratamento doutrinal mais completo, na carta apostólica «Rosarium Virginis Mariae», de 16 de outubro de 2002, com a qual também abriu um "Ano do Rosário" que se estenderia até outubro de 2003. Nesse documento, publicado no início do vigésimo quinto ano de seu pontificado, o papa identificou uma lacuna na estrutura tradicional do Rosário — que, com seus mistérios gozosos, dolorosos e gloriosos, passava diretamente da infância de Jesus à sua Paixão, sem deter-se na vida pública adulta de Cristo — e propôs uma quarta série, os "mistérios luminosos": o Batismo no Jordão, a autorrevelação nas bodas de Caná, o anúncio do Reino com o convite à conversão, a Transfiguração e a instituição da Eucaristia, "expressão sacramental do mistério pascal". Com essa adição, o Rosário completo passou a ter vinte mistérios, distribuídos tradicionalmente por diferentes dias da semana.

A insistência em rezar o terço diariamente também está ligada, na espiritualidade proposta por João Paulo II, à ideia de contemplação: mais do que a repetição de fórmulas vocais, o Rosário diário é apresentado como um método de meditar, dia após dia e de modo progressivo, toda a vida de Cristo através dos olhos de Maria, unindo a simplicidade de uma oração acessível a qualquer fiel, mesmo sem formação teológica, a uma real escola de contemplação cristã. Nesse mesmo pontificado, João Paulo II associou ainda o Rosário à paz, retomando a tradição das súplicas marianas pela paz mundial. É esse duplo caráter — de oração simples e, ao mesmo tempo, de itinerário espiritual completo — que sustenta até hoje a recomendação, feita por praticamente todos os papas recentes, de fazer do terço não apenas uma oração ocasional, mas um hábito diário de vida cristã.

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Fontes

  • João Paulo II, Carta Apostólica «Rosarium Virginis Mariae» (16 de outubro de 2002)
  • Memórias da Irmã Lúcia (Santuário de Fátima)
  • Carta pastoral do bispo de Leiria D. José Alves Correia da Silva (13 de outubro de 1930)
  • Catecismo da Igreja Católica, sobre Maria e o Rosário

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