Concílios
Constantinopla III e a condenação do monotelismo
Sexto concílio ecumênico (680-681): definiu que Cristo possui duas vontades e duas operações naturais, divina e humana, condenando o monoenergismo e o monotelismo e, nominalmente, o papa Honório I por tê-los tolerado.

- Anos
- 680–681
- Local
- Constantinopla (atual Istambul, Turquia)
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A raiz do monotelismo remonta ao início do século VII, quando o imperador Heráclio, buscando reconciliar as Igrejas calcedonianas com as comunidades miafisitas do Egito e da Síria — territórios que ele acabara de reconquistar dos persas e logo perderia para os árabes —, apoiou uma fórmula de compromisso proposta pelo patriarca Sérgio I de Constantinopla: primeiro o monoenergismo, segundo o qual Cristo teria uma única «energia» ou operação; depois, quando essa fórmula se mostrou teologicamente insustentável, o monotelismo propriamente dito, segundo o qual Cristo, apesar de possuir duas naturezas conforme definira Calcedônia, teria uma única vontade, a divina. Heráclio consolidou essa posição de compromisso no decreto «Ecthesis» (638), e seu sucessor Constans II tentou impor silêncio sobre a questão com o édito «Typos» (648-649), que na prática suprimia a doutrina ortodoxa.
O mais firme e influente opositor teológico dessa posição foi o monge palestino Máximo, o Confessor, que argumentou com grande rigor filosófico que negar a Cristo uma vontade humana distinta e ativa comprometia a integridade real de sua humanidade — pois uma natureza humana sem vontade própria não seria uma natureza humana completa, mas apenas um instrumento passivo da vontade divina. Por sua resistência obstinada, Máximo foi julgado, teve a língua cortada e a mão direita amputada por ordem imperial, para impedi-lo de pregar ou escrever contra a doutrina oficial, e morreu no exílio na região do Cáucaso em 662, décadas antes de ver sua posição triunfar.
A preparação do concílio foi cuidadosa. Tendo o imperador Constantino IV superado o cerco muçulmano a Constantinopla em 678, escreveu ao papa Donus propondo uma conferência sobre a questão; Donus já havia falecido, e seu sucessor, Agatão, acolheu a proposta, ordenando consultas em todo o Ocidente — houve um sínodo em Milão, sob o arcebispo Mausuetus, outro em Hatfield (680), presidido por Teodoro, arcebispo de Cantuária, e um sínodo em Roma na Páscoa de 680, com 125 bispos italianos, que compôs uma profissão de fé condenando o monotelismo, levada a Constantinopla pelos legados papais no início de setembro de 680.
Em 10 de setembro de 680, o imperador publicou édito ordenando a convocação do concílio. Este abriu-se em 7 de novembro, no salão abobadado do palácio imperial chamado «Trullo» — de onde deriva o nome alternativo do concílio, «Trulano» —, e realizou 18 sessões, presididas pelo imperador nas onze primeiras. Na sessão inaugural havia apenas 37 bispos e alguns presbíteros; o número cresceu até cerca de 300 ao longo dos trabalhos, mas as atas finais trazem 174 assinaturas. Os patriarcas de Constantinopla e Antioquia participaram em pessoa; Alexandria e Jerusalém, sem patriarcas por causa da conquista muçulmana, foram representadas por prelados nomeados por Bizâncio. Lidos na segunda sessão, a longa carta dogmática de Agatão e o documento do sínodo romano insistiam na fé da Sé Apostólica como tradição viva e imaculada dos Apóstolos, garantida pelas promessas de Cristo. Em 7 de março de 681, na oitava sessão, o concílio adotou o ensinamento de Agatão; Macário de Antioquia foi quase o único a recusar assentimento e acabou deposto na décima segunda sessão, junto com seus partidários.
Apoiando-se sobretudo na argumentação que Máximo desenvolvera décadas antes — cujo nome, porém, o concílio evitou mencionar, por ele ainda ser visto com suspeita —, o concílio definiu, na décima sétima sessão, que a Cristo pertencem duas vontades e duas operações naturais, divina e humana, «sem divisão, sem mudança, sem partição, sem confusão», e que a vontade humana de Cristo, embora em plena sujeição à divina, não foi suprimida nem absorvida. A definição foi promulgada na décima oitava e última sessão, em 16 de setembro de 681, e as atas, assinadas por 174 padres e pelo próprio imperador, foram enviadas ao papa Leão II — que sucedera Agatão, morto antes de receber as atas — para confirmação.
O episódio é lembrado também por uma página incômoda da história papal: o concílio incluiu nominalmente, entre os anatematizados, o próprio papa Honório I, morto cerca de meio século antes, por sua correspondência com Sérgio de Constantinopla (c. 634), na qual parecia aceitar tacitamente a fórmula de uma só vontade em Cristo. A condenação foi ratificada por Leão II ao confirmar as atas conciliares, mas o próprio Leão II atribuiu a censura à negligência pastoral de Honório — que, conforme sua fórmula, «não extinguiu, como convinha à dignidade apostólica, a chama do dogma herético que começava, mas a alimentou negligenciando» —, e não a uma profissão pessoal e deliberada da heresia. O caso, um dos poucos em que um concílio ecumênico censurou post mortem um antecessor de Pedro, é estudado com particular cuidado pela teologia sobre os limites da infalibilidade papal, já que Honório se pronunciara em carta privada, e não «ex cathedra» — distinção que se tornaria central nos debates preparatórios do próprio Concílio Vaticano I, em 1870.
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