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Bíblia

1 Crônicas

Genealogias de Adão ao pós-exílio e uma releitura litúrgica do reinado de Davi, centrada no Templo e no culto — obra do Cronista escrita na era persa, final do Antigo Testamento hebraico.

1 Crônicas
Testamento
Antigo Testamento
Gênero literário
Narrativa histórica/genealógica
Autor tradicional
Tradição do Cronista
Composição
século IV a.C.

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1 Crônicas integra, com 2 Crônicas, uma única obra hebraica intitulada דִּבְרֵי הַיָּמִים (dibre hayyamim, "palavras/atos dos dias"), dividida em dois livros pelos tradutores da Septuaginta, que a chamaram de Paraleipomena ("coisas omitidas"), por julgar que reunia o que faltava nos livros de Samuel e Reis. Jerônimo, ao verter a obra para o latim, preferiu o título "Chronicon" — a "crônica de toda a história sagrada" —, e é daí que vem o nome usado nas Bíblias cristãs. Na Bíblia hebraica, Crônicas é o livro que encerra o cânon, fechando a terceira seção, os Ketuvim ("Escritos"). O primeiro livro abrange 29 capítulos, divididos entre uma vasta seção genealógica (capítulos 1 a 9) e o relato do reinado de Davi (capítulos 10 a 29).

A primeira parte percorre, em mais de seiscentos nomes, uma genealogia que vai de Adão, passa pelas nações e pelos patriarcas e chega às doze tribos, detendo-se com particular atenção em Judá (linhagem davídica) e em Levi (sacerdotes e levitas). Essa genealogia não é mero arrolamento: para a comunidade que voltara do exílio babilônico, ela reconstituía a identidade e comprovava a continuidade das promessas feitas a Abraão e a Davi, além de legitimar a distribuição das terras e a organização do serviço do Templo — pois só os levitas e seus descendentes tinham direito aos dízimos e primícias.

A segunda parte relê o reinado de Davi a partir de 1 Samuel e 2 Samuel, mas com acentuada mudança de perspectiva. O Cronista idealiza o rei: omite os episódios mais sombrios de 2 Samuel — o adultério com Betsabé e o assassinato de Urias (2 Sm 11–12) e a rebelião de Absalão — e também o luto de Davi por Saul, substituído pela explicação teológica da queda do primeiro rei (1 Cr 10). Em troca, dedica amplo espaço aos preparativos de Davi para a construção do Templo, à organização dos sacerdotes, levitas e cantores (capítulos 23 a 26) e à solene trasladação da Arca a Jerusalém (capítulos 13 a 16). Detalhe exclusivo e de grande peso teológico é a narrativa do censo: em 2 Samuel 24 é a ira do Senhor que incita Davi a numerar o povo, mas no Cronista é Satanás quem o provoca (1 Cr 21,1) — o primeiro emprego do termo como nome próprio no Antigo Testamento.

A obra não substitui Samuel e Reis; oferece uma "segunda epopeia nacional" que atualiza a história para os judeus da era persa. Sua teologia difere da do deuteronomista: em lugar da retribuição coletiva, cada geração responde pela própria justiça ou pelo próprio pecado, doutrina da responsabilidade individual que o Cronista partilha com os profetas do exílio, sobretudo Ezequiel. Por isso, os estudiosos modernos — sem desprezar a antiga atribuição a Esdras — designam o autor anônimo simplesmente como "o Cronista". A datação não é certa: a maioria situa a composição entre os dias de Zorobabel e depois dos ministérios de Esdras e Neemias (c. 515–400 a.C.); alguns propõem o período entre 400 e 250 a.C., tomando por base a genealogia de 1 Cr 3,17-24, que se estende por várias gerações após Zorobabel. O livro é reconhecido como canônico pela Igreja e figura no cânon católico como livro histórico do Antigo Testamento; convém notar que nunca é citado diretamente no Novo Testamento.

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Fontes

  • Bíblia de Jerusalém, introdução a 1–2 Crônicas
  • Catecismo da Igreja Católica, nn. 101-141 (a Sagrada Escritura)
  • Wikipedia (en), "Books of Chronicles"
  • Society for Old Testament Study (SOTS), verbete "Chronicles"
  • 1 Crônicas 3,17-24; 10; 21,1
  • 2 Samuel 11–12; 24
  • Codex Sinaiticus, fac-símile de Tischendorf (1862)

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