Apologética
Se a Bíblia fala em "irmãos de Jesus", como a Igreja sustenta que Maria permaneceu sempre virgem?
O hebraico e o aramaico não tinham palavra própria para "primo" — "irmão" designava também parentes próximos, sentido que passou ao grego dos Evangelhos, como confirma a identidade dos "irmãos" como filhos de Maria de Clópas e o atestado de Hegésipo no século II.

- Objeção
- A Bíblia menciona irmãos de Jesus — então Maria teve outros filhos?
Tamanho do texto
Passagens como Marcos 6,3 e Mateus 13,55 mencionam "irmãos" e "irmãs" de Jesus — Tiago, José, Judas e Simão entre eles. A objeção assume que essas palavras só podem significar filhos biológicos de Maria. Mas nem o hebraico nem o aramaico falados na Palestina do século I tinham palavra própria para "primo": o termo usado para "irmão" ("ach" em hebraico) cobria também primos e parentes próximos, sentido que passou ao grego "adelphós" (plural "adelphoi") dos Evangelhos, escritos num ambiente semita. O próprio Antigo Testamento confirma esse uso amplo: Ló é chamado de "irmão" de Abraão (Gênesis 14,14), embora fosse seu sobrinho.
O Novo Testamento oferece pistas concretas de identidade. Mateus 27,56 e Marcos 15,40 identificam "Tiago e José" — dois dos supostos "irmãos" de Jesus — como filhos de uma "Maria" que é chamada "mulher de Clopas" e mãe deles, e que João 19,25 apresenta como parente da mãe de Jesus, presente ao pé da cruz. Se a mesma mulher é mãe de Tiago e José e distinta de "Maria, mãe de Jesus", então aqueles "irmãos" não eram filhos de Maria Santíssima, mas parentes. Aqui entra um testemunho pré-niceno decisivo: Hegésipo, escritor palestino do século II, cujos relatos chegaram por Eusébio de Cesareia (História Eclesiástica IV,22 e III,20), afirma que Simão era filho de Cléofas e "segundo primo do Senhor", e que Cléofas (ou Clopas) era irmão de José. Há ainda uma controvérsia técnica: Tiago, "irmão do Senhor" (Gálatas 1,19) é chamado também "filho de Alfeu" (Mateus 10,3); explica-se ou porque Alfeu e Cléofas seriam a mesma pessoa com dois nomes — "Chalpai" pronunciado de modos diversos —, ou porque se trata de pessoas distintas, ficando todos, em qualquer caso, primos de Cristo. Soma-se o argumento narrativo: se Maria tivesse outros filhos, dificilmente Jesus a confiaria ao cuidado de João, o discípulo amado, ao pé da cruz (João 19,26-27).
As três posições clássicas levantadas por exegetas e Padres sobre quem eram esses "irmãos" merecem ser distinguidas. A tese de São Jerônimo — os "irmãos" seriam primos, filhos de Maria de Cléofas e, segundo a interpretação de De Viris Illustribus, de José; a de São Epifânio de Salamina, em seu Panarion, que sustentava serem filhos de José de um matrimônio anterior, do qual Maria seria a segunda esposa (Epifânio chama Maria de "virgem perpétua" em mais de dezesseis ocasiões e combate com isso os "antidicomarianitas", que negavam a virgindade pós-parto); e a de Helvídio, minoritária e rejeitada, de que seriam filhos naturais de Maria e José. Orígenes de Alexandria (c. 185-254), na esteira de escritos apócrifos como o Protoevangelho de Tiago (meados do século II), também defendeu que os "irmãos" eram filhos de José de um casamento anterior; Clemente de Alexandria (c. 150-215) sustentou o mesmo em seus Hypotyposis. A Igreja nunca definiu qual das duas primeiras explicações é a verdadeira, e isso não afeta o dogma.
Essa leitura não é invenção tardia, e a controvérsia tem data e protagonistas. Por volta de 383, quando Jerônimo e Helvídio se encontravam em Roma, no tempo do Papa Dâmaso, Jerônimo escreveu o tratado Contra Helvídio especificamente para responder a quem — como o laico Helvídio, apoiando-se em Tertuliano e Vitorino — sustentava, com base nos "irmãos e irmãs do Senhor", que Maria teria tido outros filhos. O tratado se divide em três proposições: José não era marido de fato de Maria; os "irmãos" do Senhor eram seus primos, não irmãos verdadeiros; e a virgindade é superior ao estado matrimonial. O termo grego "aeiparthenos" ("sempre virgem") já circulava como expressão da fé: aparece no segundo símbolo de fé de Santo Epifânio (374) e foi retomado solenemente pelo II Concílio de Constantinopla (553), que professa o Verbo "encarnado da santa gloriosa Mãe de Deus e sempre Virgem Maria" (DS 422). No Concílio Lateranense de 649, sob o Papa Martinho I, sua virgindade — "antes, durante e depois do parto" — foi afirmada dogmaticamente, com anátema a quem a negasse. A Igreja, portanto, ensina a virgindade perpétua de Maria com base conjunta na Escritura, na Tradição e no testemunho dos Padres, e não contra a Escritura. É significativo que a própria linguagem litúrgica e patrística tenha conservado a fórmula "sempre virgem", que resume a fé da Igreja e responde diretamente à objeção.
Continue sua leitura

Assunção de Nossa Senhora
Nossa Senhora
Dogma proclamado por Pio XII em 1950: Maria, ao concluir o curso de sua vida terrena, foi assunta em corpo e alma à glória celeste.

Nossa Senhora de Guadalupe
Nossa Senhora
Aparição mariana ao indígena São Juan Diego em 1531, no México, com a imagem impressa na tilma hoje venerada na Basílica de Guadalupe.

Nossa Senhora de Lourdes
Nossa Senhora
Série de aparições marianas a Santa Bernadette Soubirous em 1858, na gruta de Massabielle, hoje um dos maiores santuários de peregrinação católicos.

Nossa Senhora Aparecida
Nossa Senhora
Imagem de Nossa Senhora da Conceição encontrada por pescadores em 1717 nas águas do rio Paraíba do Sul; padroeira do Brasil.
